O Presente
Fátima Baroni Tonezer

O que está por trás da era da produtividade em tempo integral?

calendar_month 6 de março de 2023
5 min de leitura

Desde que comecei a conversar com as pessoas através desta coluna, no Jornal O Presente, venho falando de saúde mental, e para falar de saúde é preciso saber identificar os sinais e sintomas que nosso corpo nos dá de possíveis doenças. Por isso, hoje vamos falar de uma síndrome que foi nomeada recentemente, mas que não é atual.

Em 1869, o médico George Miller Beard já falava do “American nervous”, referindo-se à população que estava exausta, nervosa por conta da moderna civilização. Estamos falando dos efeitos da Revolução Industrial, e, nesse momento, o mundo estava caminhando para o início da segunda Revolução Industrial.

O interessante é que nessa época, a qual George M. Beard já falava nesse assunto, não existia a luz elétrica como conhecemos hoje, já que Thomas Edison só inventaria o filamento da lâmpada elétrica em 1879, exatamente no dia 21 de outubro. A invenção da lâmpada foi o gatilho para grandes avanços da industrialização, medicina, indústria cinematográfica e outros campos do conhecimento. Contudo, dez anos antes do advento da luz elétrica, a população já estava exausta pela jornada de trabalho. Bem, de lá para cá a coisa só piorou, já que luz elétrica, máquinas mais potentes, internet, entre outros, nos trouxeram a quarta Revolução Industrial.

E essa revolução toda, isto é, o mundo digital que vivemos hoje, vende-nos a todo momento a ideia de que ser multitarefas não só é possível como necessário. A grande loucura do nosso tempo é que vivemos num mundo digital com um cérebro analógico.

E o que isso significa? Significa que enquanto corremos cada vez mais atrás de produtividade, de fazer entregas espetaculares e de sermos nossa melhor versão produtiva, alcançando metas, cargos e salários elevados e sermos reconhecidos por isso no mundo exterior, nosso cérebro continua o mesmo de séculos atrás, trabalhando para aumentar o prazer, diminuir a dor e poupar energia.

Muito bem, o que isso quer dizer? Estamos falando do que, afinal?

Nós, população mundial, estamos cada vez mais cansados, exaustos e o nosso corpo nos dá sinais claros disso. O que estamos fazendo é tentar colocar o motor de uma Ferrari em um Fusca e ganhar a corrida de Fórmula 1, e não está dando certo.

Basta ver que um dos negócios que mais prospera Brasil afora são farmácias. Literalmente, temos uma em cada esquina. Hoje não são só bares e lanchonetes que dão dinheiro; farmácia também.

E por que isso é um problema?

A sustentabilidade financeira de tantas farmácias vem do fato que estamos procurando nelas a “cura” do desconforto que sentimos, dos sintomas que nosso corpo grita diariamente. E haja antialérgicos, anti-inflamatórios, relaxante muscular, energéticos, remédios para dor para fazer frente ao cansaço, dores e falta de energia.

E nós, seres humanos, estamos sobrevivendo com o que sobra de tempo em que se transformou nossa agenda insana. Hoje até criança pequena tem agenda lotada de atividades para prepará-la para o futuro, mas que a impede de ser criança de verdade, isto é brincar.

É preciso tempo para trabalhar e estudar com o objetivo de melhorar a performance e entregar cada vez mais em uma corrida de produtividade insustentável para a saúde.

Isto porque hoje confundimos quem somos com o que somos.

Quando alguém pergunta “o que você faz”, geralmente a resposta é a atividade profissional, o nome do cargo e da empresa onde trabalha. Logo, o destino dessa nossa conversa é Síndrome de Burnout.

E, primeiro, é importante saber diferenciar cansaço da exaustão do Burnout. E como saber diferenciar? Cansaço é um sinal de que estamos precisando dar uma pausa, parar e descansar, uma boa noite de sono, um fim de semana tranquilo e relaxante ajudam a resolver.

A exaustão do Burnout vem quando o cansaço não é visto e resolvido com ações pontuais e imediatas. É acreditar que quando tirar férias, depois de um ou dois anos de trabalho, sob pressão para entregar resultados e outros movimentos tóxicos próprios do ambiente de trabalho, e passar uma semana na praia vai resolver tudo. E enquanto isso, uma pílula mágica, na forma de um remédio autoindicado resolve. Ou ingerir álcool ou alguma outra droga ilícita, ou comer algo gostoso e pobre em nutrientes seja a resposta, pois são recompensas imediatas e vazias.

Para entender se está na hora de buscar ajuda e ter um diagnóstico e tratamento efetivo, reflita sobre esses pontos:

  1. Como você cuida da sua saúde mental?
  2. Quanto tempo você dedica a você mesma(o) – para sua higiene corporal, sono e lazer?
  3. No último mês, quantas vezes você teve dor de cabeça, reclamou de cansaço, teve insônia ou problemas gastrointestinais?
  4. Nos últimos seis meses, quantas infecções ou crises de enxaqueca, rinite ou sintomas semelhantes você teve?

Aproveita a pausa da semana para refletir e observar. E na próxima segunda vem comigo, vamos conversar sobre a Síndrome de Burnout, sintomas e cuidados para lidar com ela.

Até a próxima!

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

@psicofatimabaroni

 
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