O Presente
Fátima Baroni Tonezer

O relógio que nunca para

calendar_month 23 de março de 2026
4 min de leitura

Quando o tempo se torna nosso inimigo

Nas últimas semanas, conversamos sobre padrões de apego, medo e mudanças. E quero acrescentar mais uma camada nesse ponto: a pressão que recai sobre nós, mulheres, sobre o tempo. Me acompanha. Você já reparou como, sendo mulher, parece que estamos sempre atrasadas para alguma coisa? Não importa a idade que você tenha agora, provavelmente já ouviu alguma versão deste recado: o tempo está passando.

Aos vinte e poucos, é sobre aproveitar a juventude, mas não a desperdiçar com os homens errados. Aos trinta, a conversa muda: “E aí, quando vem o casamento? E os filhos?”. Como se houvesse um cronômetro invisível marcando cada ano que passa. Aos quarenta, o tom se torna quase fúnebre, como se você tivesse perdido um trem que nunca mais voltará.

A PRESSÃO BIOLÓGICA E AS JANELAS ARTIFICIAIS DO TEMPO

O curioso é que esse relógio que nos persegue não é biológico, é social. Sim, existe uma janela reprodutiva, mas ela é bem mais ampla e flexível do que nos contam. O que nos apavora não é o corpo, é o discurso. É a tia no almoço de domingo, a colega de trabalho que olha com pena, a matéria de revista alertando sobre “os riscos de esperar demais”. É a sensação constante de que existe um roteiro certo, uma ordem das coisas, e que qualquer desvio é um fracasso pessoal.

Crescemos ouvindo que temos “uma chance de acertar”. Uma chance de ser escolhida pelo homem certo. Uma chance de ter filhos saudáveis. Uma chance de construir a carreira antes que a maternidade “atrapalhe”, mas sem deixar a maternidade para tarde demais. É um jogo de equilíbrio impossível, onde as regras mudam dependendo de quem está julgando, mas a mensagem é sempre a mesma: cuidado, você está perdendo tempo.

Enquanto isso, criamos janelas artificiais para absolutamente tudo. Estar no auge da beleza aos vinte e cinco. Casar-se até os trinta. Ter o primeiro filho até os trinta e cinco. Ser jovem o suficiente para ser desejável, mas madura o suficiente para ser levada a sério. Como se houvesse um ponto exato, um momento mágico em que tudo se alinha, e depois disso… depois disso é tarde.

ESSAS JANELAS NÃO SÃO NEUTRAS!

Elas não surgiram do nada. São construções sociais que servem a um propósito muito claro: manter as mulheres ansiosas, inseguras e tomando decisões apressadas. Porque uma mulher com medo de “perder o tempo” é uma mulher que aceita menos, que se contenta com migalhas, que não questiona, que não espera. Que escolhe o parceiro disponível em vez do parceiro adequado. Que congela óvulos aos trinta porque alguém disse que deveria. Que abandona sonhos porque “não dá mais tempo”.

E o mais cruel é que internalizamos isso. Não precisamos mais de ninguém nos cobrando, nós mesmas nos tornamos nossas piores vigilantes. Olhamos no espelho e vemos rugas como condenações. Vemos amigas casando e sentimos um aperto, mesmo quando não queremos nos casar. Calculamos mentalmente quantos anos “ainda temos” como se fôssemos produtos com prazo de validade.

MAS E SE EU TE DISSESSE QUE ESSE RELÓGIO É UMA MENTIRA?

Não a mentira completa, óbvio. O tempo passa para todo mundo. Mas a mentira de que você tem menos tempo que os outros. A mentira de que existe uma chance só. A mentira de que sua vida precisa seguir um roteiro pré-determinado, e que qualquer desvio é tragédia. Mulheres têm filhos saudáveis aos 40. Mulheres se casam aos 50 e descobrem o amor pela primeira vez. Mulheres mudam de carreira aos 38. Mulheres escolhem nunca se casar, nunca ter filhos, e vivem vidas plenas e extraordinárias. Não porque são exceções corajosas, mas porque essas janelas de tempo sempre foram artificiais.

O tempo não é seu inimigo. Nunca foi. O inimigo é o discurso que transformou sua existência em uma corrida contra o relógio, onde você está sempre perdendo, sempre atrasada, sempre devendo algo a um padrão que nunca foi feito pensando em você, mas em te controlar. E quando percebemos isso, algo muda. Não eliminamos a pressão externa de uma hora para outra, mas começamos a questionar essa voz interna que diz “está tarde demais”. Começamos a perguntar: tarde demais para quem? Segundo quem? E se eu recusar esse jogo?

Porque talvez a verdadeira liberdade comece quando paramos de correr atrás de um tempo que nunca foi nosso, e começamos a viver no nosso próprio ritmo. Na próxima semana, vamos falar da exaustão da pressa constante.

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Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755

 
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