Essa provocação vem na esteira da reflexão que começamos nas últimas semanas, para questionar esse lugar que a sociedade e a cultura nos reserva. Nós, mulheres, estamos tão acostumadas a funcionar no modo “caber” que não sabemos mais do que gostamos, quem somos.
Desde que nascemos somos preparadas para nosso “papel” no mundo, afinal, “nascemos” com instinto para cuidar, não é mesmo?!
DE QUEM É A VOZ QUE VOCÊ OUVE?
A voz interna que você ouve é de quem? Essa voz que grita, crítica, cobra? Nós crescemos tentando caber nos padrões que nos ensinam. Papai e mamãe tinham caixinhas prontas. As expectativas de quem e como a filha (ou filho) seria. Quantas(os) de nós nascemos para receber o que o papai ou a mamãe não tiveram e se ressentiram?
A escola também tinha caixinhas prontas e a gente cresceu achando que tinha que caber, se encaixar, senão não seria amada. Lembro o que aprendi aos nove anos, quando respondi a uma professora a pergunta “como eu estava” no pátio da escola. E ela me disse, Fátima, que problemas você tem? E ninguém quer saber como você está. Não seja reclamona. Então estou sempre ótima, né? Lição dada, lição aprendida.
Passamos a vida toda querendo ser aceitas e amadas. O ser humano precisa de comunidade para ser amada. E como o psicólogo estadunidense Abraham Maslow, conhecido pela sua proposta da Hierarquia das Necessidades Humanas, nos conta, após atender as necessidades básicas, fisiológicas e de segurança, temos a necessidade social, que estão as voltas com as relações afetivas, que nos dá a sensação de pertencimento. Ele cita mais duas necessidades, que não vou elencar aqui para não estender demais os assuntos, já que a ideia é falar de pertencimento.
QUAL A DIFERENÇA ENTRE CABER E PERTENCER?
Pertencer é saber que você é aceita e amada, sendo quem você é. No pertencimento, você está livre para ser quem é. Está bem, mesmo nos limites que toda relação tem. Trocas acontecem, e eu me sinto vista, me sinto pertencente, inteira, como sou.
Já para caber acontece o contrário. Para caber em algum lugar eu me diminuo, corto aqui e ali, faço qualquer coisa para me encaixar numa caixinha que está pronta, que não sou eu. Ou para ser a boa mãe, a boa esposa, a boa amiga, a boa filha, a boa profissional, a que se encaixa na forminha. E a minha necessidade é deixada de lado para não incomodar o outro.
Enquanto no pertencimento há o ajuste de ambos os lados, respeitando os limites e contornos individuais, para caber há a restrição, cortes, abandono de necessidades.
QUEM SOU EU, QUE NÃO ME CONHEÇO?
Para se encaixar, a gente não se conhece, não conhece nossos limites, o que queremos, o que precisamos. É tanto tempo olhando para fora para caber, que não aprendemos a olhar para dentro para pertencer, como ser eu, a que lugar pertenço.
Quando estou alinhada com minhas emoções sinto a paz em mim. No pertencimento, existe a necessidade de refazer acordos, ajustar limites, o que respeita em você e em mim, porque vamos mudando com o tempo. Quando não sei o que quero, fico esperando desesperadamente que o outro saiba. Como não me ouço, fico esperando que o outro me ouça. Busco nas relações fora, com o outro, o que me falta. Que o outro me cuide, me faça feliz.
A noção de autovalor foi ferida enquanto crescíamos e a regra não era clara. E isso nos ensinou a ignorar nossas necessidades e a tentar nos encaixar, cabendo nas relações. Então, voltando ao título do artigo, quando foi que você se perdeu de você? O que você gosta, você conhece o seu real tamanho (não a numeração da sua roupa)? Seu valor, o que realmente importa para você.
Você sabe, percebe o que faz seu coração pulsar de verdade, que faz ele bater mais rápido (que não seja estresse e tristeza)? O que você tem feito por você? Fica com essa reflexão e nos encontramos aqui na próxima semana. Vamos conversar sobre autoestima e como nos sabotamos.
Até a próxima.

Fátima Sueli Baroni Tonezer é psicóloga, formada em Psicologia na Universidade Estadual de Maringá (UEM). Sua maior paixão é estudar a psique humana. Atende na DDL – Clínica e Treinamentos – (45) 9 9917-1755