Durante muito tempo, ser mulher significava viver sob regras impostas por outras pessoas. Estudar, trabalhar, administrar o próprio patrimônio, participar da vida pública e até mesmo decidir sobre a própria rotina eram direitos limitados e condicionados à autorização masculina. A autonomia feminina, hoje compreendida como um direito fundamental, foi conquistada passo a passo, por meio de décadas de reivindicações, mobilização social e mudanças legislativas.
Embora muitos desses obstáculos pareçam distantes, eles fazem parte de uma história recente. Até poucas décadas atrás, diversas restrições legais reforçavam a desigualdade entre homens e mulheres, demonstrando como o controle sobre a vida feminina era institucionalizado. Compreender esse passado é essencial para reconhecer o valor das conquistas alcançadas e perceber que a promoção da igualdade exige vigilância e atuação contínuas.
Ao longo da história, as mulheres enfrentaram inúmeras barreiras para conquistar direitos básicos e ocupar espaços na sociedade. Durante o século XIX, por exemplo, eram vistas como responsáveis quase exclusivamente pelos cuidados com a casa e com a família, vivendo sob forte controle social e com pouca autonomia para decidir sobre a própria vida. O acesso à educação era limitado, a participação na vida pública era restrita e muitos aspectos da vida feminina eram determinados pela autoridade masculina.

Passaporte de 1952 que evidencia o controle masculino sobre as mulheres na época.
Nas últimas décadas, esse cenário passou por profundas transformações. O acesso à educação, a inserção no mercado de trabalho, a conquista de direitos civis e políticos e a atuação dos movimentos feministas ampliaram as possibilidades de participação das mulheres em diferentes espaços da sociedade. Hoje, elas ocupam posições de liderança em diversas áreas e exercem múltiplos papéis na vida profissional, familiar e comunitária.
Apesar desses avanços, a igualdade de gênero ainda não é uma realidade plenamente alcançada. As mulheres continuam enfrentando desafios como a desigualdade salarial, a menor valorização profissional, a violência de gênero e a sobrecarga decorrente da chamada dupla jornada de trabalho. Além da atividade remunerada, muitas permanecem como as principais responsáveis pelos cuidados com a casa, os filhos e idosos da família, por exemplo.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21 horas semanais aos afazeres domésticos e aos cuidados de pessoas, enquanto os homens dedicaram cerca de 11 horas. Essa diferença evidencia que, mesmo com maior participação no mercado de trabalho, as responsabilidades relacionadas ao cuidado ainda recaem, em grande parte, sobre elas.
Os impactos dessa sobrecarga vão além da rotina. Segundo o relatório Alerta Amarelo: um panorama da saúde mental do trabalhador brasileiro e perspectivas de prevenção e enfrentamento (2021), estima-se que um terço das brasileiras que acumulam as responsabilidades domésticas enfrentem transtornos mentais. Ansiedade, estresse, esgotamento e depressão estão entre as principais consequências associadas ao excesso de demandas e à tentativa de conciliar trabalho, cuidados familiares e vida pessoal. Somado a isso, a violência contra a mulher continua sendo uma grave violação de direitos, reforçando a necessidade de fortalecer políticas públicas e serviços especializados de acolhimento e proteção.
A ideia não é culpabilizar as mulheres pela sobrecarga, muito menos descredibilizar os movimentos de conquistas femininas, mas sim, continuar trabalhando para buscar entender e modificar as raízes do machismo na nossa sociedade, que perpetua a desigualdade e a violência.
É nesse contexto que o Núcleo Maria da Penha (Numape) desenvolve seu trabalho. O projeto oferece atendimento psicológico e orientação jurídica gratuitos às mulheres em situação de violência, além de promover ações educativas e de prevenção voltadas à comunidade.
Mais do que atender situações de violência já estabelecidas, o Numape atua na promoção dos direitos das mulheres, no fortalecimento da autonomia feminina e na articulação com a rede de proteção do município. Por meio de uma atuação humanizada e interdisciplinar, o núcleo busca contribuir para que cada vez mais mulheres tenham acesso à informação, ao acolhimento e aos recursos necessários para romper ciclos de violência e reconstruir suas trajetórias com segurança, dignidade e autonomia.
Promover a igualdade de gênero e garantir que todas as mulheres tenham seus direitos respeitados é um compromisso que envolve toda a sociedade. Nesse processo, iniciativas como o Numape reafirmam a importância da informação, do acolhimento e do acesso à justiça como instrumentos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e livre de violência.
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QUEM SOMOS
O Numape é um projeto de extensão da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus de Marechal Cândido Rondon. Faz parte da Superintendência Geral da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), do Governo do Estado do Paraná.
O Numape promove o acolhimento jurídico de forma gratuita e sigilosa, assegurando a tutela de seus direitos e a desvinculação do agressor para mulheres em situação de violência doméstica dos municípios de Marechal Cândido Rondon, Quatro Pontes, Pato Bragado, Entre Rios do Oeste, Nova Santa Rosa e Mercedes.
Em atuação desde 2019, o Numape realizou centenas de atendimentos jurídicos. O atendimento é realizado com uma escuta atenciosa e qualificada e todas as orientações cabíveis para cada caso são repassadas, sempre preservando a autonomia de decisão da mulher para dar seguimento nas fases processuais, que se desdobram geralmente em medidas protetivas de urgência, divórcio, dissolução de união estável, pensão e guarda dos/as filhos/as, entre outras ações. Além disso, promoveu dezenas de ações socioeducativas na comunidade em geral, alcançando inúmeras pessoas de diferentes faixas etárias e grupos sociais.
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