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“Frango a diesel” no cardápio

calendar_month 14 de fevereiro de 2026
7 min de leitura

Tempo quente no Show Rural: presidente da Federação da Agricultura ameaça arrombar a porta da presidência da Copel “a pontapés, se for preciso”

Momento em que Meneguette olha no olho do representante da Copel e afirma que vai arrombar
a porta do presidente: 40 graus no Show Rural

O amplo espaço da Ocepar no segundo andar do prédio das cooperativas no Show Rural foi palco de tempo quente na última terça-feira (10). Era Cascavel 40 graus, literalmente.

Não somente pela ausência do ar-condicionado no ambiente, como também pela pauta do encontro: o “frango a diesel” estava no cardápio de líderes empresariais que debatiam a logística do Paraná, tendo a energia em primeiro plano.

Convocado por Fiep, Programa Oeste em Desenvolvimento (POD) e Caciopar, o encontro denominado “Infraestrutura e Logística do Oeste do Paraná” trouxe uma panorâmica dos gargalos em portos, rodovias e ferrovias do Estado.

Mas a chapa ferveu mesmo quando o suprimento de energia entrou na conversa. Ali, surgiram os fios desencapados e os curtos- circuitos. O presidente em exercício da Federação da Agricultura (FAEP), Eduardo Meneguette, pôs o dedo na tomada 220V.

Olhando nos olhos dos representantes da Copel, Meneguette declarou: “Vamos trabalhar gente, estamos perdendo horrores no peixe e nas aves. O que estou dizendo aqui para vocês eu disse para o presidente da Copel, Daniel Pimentel. Vocês faturam R$ 22 bilhões e não resolvem. Avisei e falo novamente. Se não resolverem, volto ao gabinete do presidente e arrombo a porta a pontapés, se for preciso”.

MORTES NO CERRO

O eletrizado Meneguette se referia às quedas constantes de energia elétrica, principalmente nas regiões oeste e sudoeste. Para ficar em um exemplo, no último dia 15 de janeiro, oscilações no fornecimento de energia geraram severos prejuízos a produtores rurais de Cerro da Lola, zona rural de Toledo, resultando na morte de cerca de mil frangos o colapso do sistema de ventilação e climatização dos aviários.

Em propriedades rurais, especialmente avicultura, piscicultura e galpões de tabaco, qualquer falha elétrica compromete equipamentos essenciais e resulta em grandes prejuízos.

Para atenuar as instabilidades, muitos produtores apelaram para geradores a diesel, cuja operação é onerosa. E é daí que surgiu a expressão “frango a óleo diesel”. Quando se podia confiar no suprimento de energia, o mais comum na roça era o franguinho na panela preparado com outros óleos, como aqueles de soja ou milho.

NÚMEROS OCULTOS

A Fiep encomendou ampla pesquisa para entender a que ponto chegamos na energia. O resultado, segundo os dirigentes da federação, foi tão ruim, que acharam melhor não divulgar, sob pena de afastar novos investimentos industriais no Estado.

“A decepção com a prestação do serviço é sistêmica”, disse o cascavelense que preside a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Vasconcelos, ao apelar por robustez no sistema.

OUTRO LADO

“Aceitamos o convite das entidades para participar do evento com o intuito de ouvir as demandas energéticas dos setores industrial e agroindustrial e comparar com nosso planejamento. Queremos justamente estar mais próximos da sociedade e ouvir os anseios. Vamos trabalhar para que a energia seja mais um indutor do desenvolvimento”, disse o superintendente comercial da Copel, Breno Castro.

PITACO DO PITOCO

Uma frase poderia resumir o encontro da última terça (10), no Show Rural: “Alguém não percebeu que o Oeste cresceu mais que a provisão de energia, estamos aqui para lembrá-los”.

Os líderes não estavam ali para espezinhar o governador, muito menos para desgastar o Iguaçu em ano eleitoral. Até porque é difícil encontrar naquele grupo alguém que não tenha contribuído para eleger e reeleger Ratinho Junior.

A questão ali era outra: garantir que o pão, o peixe e o franguinho nosso de cada dia cheguem às prateleiras do “supermercado do mundo”, como o Iguaçu vende o Paraná na propaganda.

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Trinca do Ratinho

Recepcionado em jantar pela cúpula do agro na noite de domingo em Cascavel, Ratinho Junior (na foto abaixo, à direita) demostrou entusiasmo na possibilidade de disputar a presidência da República pelo PSD.

Nas entrevistas concedidas no Show Rural, no entanto, foi mais comedido, dada a trinca de presidenciáveis elencada pelo dono da sigla, Gilberto Kassab, que inclui, além do governador do Paraná, o gaúcho Eduardo Leite e o goiano Ronaldo Caiado.

Sobre a indicação do candidato que irá apoiar para sua sucessão, o governador despistou. Ele acaba de sair de uma conversa difícil com um dos pretendentes, o presidente da Assembleia, Alexandre Curi.

Aqui também há uma trinca na disputa, capaz de trincar – se a conversa não for bem conduzida – as belas peças de mármore do Palácio Iguaçu: Curi, Guto Silva e Rafael Greca.

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Bandeira vermelha na 277

Maior operação do BNDES injeta bilhões de reais na solitária participante do leilão de rodovias no Oeste e Sudoeste do Paraná

Ponte sobre o Rio Iguaçu inspira perguntar: quem fez a ponte entre a EPR Iguaçu e o homem da bandeira vermelha?

As semanas que antecederam o recolhimento do edital que normatizava a concessão do lote 6 de rodovias do Paraná, em dezembro de 2024, trouxe apreensão nos gabinetes refrigerados do Ministério dos Transportes, em Brasília e no Palácio Iguaçu, em Curitiba.

O lote em questão abrange as principais artérias rodoviárias do Oeste e Sudoeste do Paraná, através das rodovias 277 e 163. A modelagem desenhada na região é desafiante. Foi até alvo de controvérsia nas audiências públicas pela sua extensão, que incluía o Sudoeste, região que havia ficado fora do “Anel de Integração” original, desenhado governo Jaime Lerner.

Quem assumisse o lote 6 teria que bancar um boleto gigante: R$ 12,7 bilhões em obras, e outros estimados R$ 7 bilhões em estruturas de serviço. Daí que o edital não rodava, e temia-se uma “licitação deserta”.

Foi quando apareceu a EPR, sigla até então desconhecida no meio, afora por já ter vencido leilões no Paraná em que se comprometera com outros boletos bilionários.

Sem concorrência no lote 6, a EPR ofereceu um desconto de R$ 0,08 centavos sobre o preço base da tarifa. A partir dali estava a seu encargo um volume chinês de mega engenharia, inclusos 462 quilômetros de duplicação, tudo concentrado nos primeiros 9 anos do contrato.

BANDEIRA VERMELHA

A EPR Iguaçu vai dar conta de um investimento de tamanha envergadura? Quem banca o negócio? O mistério foi desfeito em release emitido pelo BNDES na semana do Show Rural.

O bancão público, presidido por um petista de alto coturno, ex-senador Aloisio Mercadante, anunciou a maior operação liberada pelo banco nos últimos 13 meses, financiando R$ 9,2 bilhões para a EPR Iguaçu.

“O projeto atende a determinação do presidente Lula de beneficiar a população e a economia de cidades importantes da região sudoeste do Paraná, como Foz do Iguaçu, Cascavel, Guarapuava, Francisco Beltrão e Pato Branco, além de levar melhorias para a rota de escoamento da produção agrícola do estado e do sul do Mato Grosso do Sul pelos portos do Paraná, em especial o porto de Paranaguá”, disse Mercadante, o homem da bandeira vermelha.

Na praia, bandeiras em tom escarlate indicam um lugar em que as pessoas não podem entrar. Nas concessões de rodovias bilionárias, bandeiras coloradas podem ganhar o sentido oposto.

PITACO DO PITOCO

“Invejosos” dirão que o jogo estava combinado. Que alguém assoprou para a empresa com aquele argumento na linha “plante que o João garante”.

As garantias estão dadas, o BNDES não corre grandes riscos. O financiamento foi estruturado no modelo project finance, em que o pagamento da dívida depende da geração de receita da própria concessão.

Um braço menor da EPR no Paraná, trecho da 277 que liga o litoral ao Porto de Paranaguá, recebeu R$ 708 milhões em pedágio no ano passado. A previsão inicial era arrecadar R$ 515 milhões. O trecho litorâneo é menor que a concessão Oeste/Sudoeste. Assim, o risco de quem empresta dinheiro para um negócio que gera tamanha liquidez é mínimo.

E, dado que não é crime obter financiamento com o Mercadante, a operação do BNDES, somada à arrecadação acima do esperado nas praças de pedágio, sugere que não faltará dinheiro para executar os 462 quilômetros de duplicação aqui.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

 
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