Houve quem olhasse para a face espelhada de um módulo fotovoltaico e só enxergasse ali um “ecochato” embalado por utopias.
Houve quem espelhasse a cara ali e enxergasse um mercado bilionário. Daniel Rocha, CEO do Grupo Tangipar, está no segundo time. O conglomerado que ele comanda a partir de Cascavel já fatura R$ 3 bilhões.
A cifra inclui um “estranho no ninho” no faturamento de nove dígitos no Oeste do Paraná, marca só alcançada por uma ou outra família supermercadista ou pelas cooperativas. “Estranho” não é o Rocha. Estranho ou singular é o ramo que irrompe no seleto grupo de negócios bilionários.
A área de atuação altamente tecnológica, que exigiu a importação de dezenas de toneladas de equipamentos, incluindo robôs chineses de última geração, tem força para reconfigurar o perfil industrial de toda uma região.
A linha de produção estabelecida pela Sengi, subsidiária da Tangipar, inaugurada no último dia 21 como maior fabricante de módulos fotovoltaicos da América Latina, só é comparável no Oeste do Paraná com a Mascarello Ônibus, do segmento metalúrgico.
A frase “a prova de futuro”, destacada pela Sengi no evento, aponta para cima. Nunca se instalou tanta placa solar. Na última quarta-feira, a Absolar, entidade do setor, anunciou 21 gigawatts instalados no Brasil (quase duas Itaipus) e R$ 108,6 bilhões de investimentos solarizados no país. É preciso óculos de sol para poder enxergar o clarão dos números sem ofuscar os olhos.
A Sengi é um colosso. Vira três turnos de trabalho, produz 3.600 módulos fotovoltaicos de última geração por dia, um a cada 23 segundos. São R$ 220 milhões de investimento para 1,5 mil empregos diretos e indiretos, mão de obra qualificada e bem paga, massa salarial multimilionária injetada na veia da economia local.
Outras duas unidades ao custo de R$ 440 milhões estão encomendadas, uma no Nordeste e outra em Itajaí (SC). O céu é o limite para o Daniel, já que a energia gerada pelo sol é ilimitada.
A TRAJETÓRIA
Enquanto os toscos só conseguiam enxergar a foice e o martelo no céu da China, Rocha vislumbrou a oportunidade de uma parceria de milhares de containers com a gigante asiática. Dali a pouco ele já era o maior distribuidor de componentes fotovoltaicos do Brasil, como revelado com exclusividade pelo Pitoco em recente edição do Show Rural.
O nome do empreendedor frequentaria o noticiário novamente em maio de 2020, quando foi a leilão a área que abrigava o falimentar Atacado Liderança. Rocha pagou exatamente R$ 263,22 acima do lance mínimo, e adquiriu a área de imensos 64 mil metros quadrados com 40% de desconto por R$ 19,3 milhões.
A Ilumisol, subsidiária da Tangipar, pagou R$ 4,8 milhões de sinal mais 30 parcelas de quase meio milhão.

Em tempo 1: antes de Daniel arrematar o imóvel do Liderança, o prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos, ensaiou transformar aquilo em um Centro de Convenções e Eventos. Encontrou resistências e recuou. Hoje tem evento todo dia na Sengi, em três turnos de oito horas: a produção em massa de plataformas para energias limpas e renováveis em uma escala capaz de reconfigurar a planta industrial de toda uma região de mais de um milhão de habitantes que até então só enxergava nove dígitos no boi, peixe, soja e comoditties de baixo valor agregado.
Em tempo 2: o primeiro ciclo de industrialização de Cascavel carregava um viés que hoje seria ambientalmente incorreto, pois exigia derrubar a maior floresta de araucária do planeta para abastecer o “parque industrial” da época, composto de mais de 150 madeireiras instaladas aqui nos anos 1940/1950, que iriam beneficiar o pinheiro e enviar a madeira via portos na tríplice fronteira para a Europa.
Em tempo 3: a etapa 4.0 de hoje, derivada da quarta revolução industrial automatizada, é o exato oposto: “beneficiar” módulos capazes de captar os raios do astro rei e transformá-los em energia limpa para descarbonizar o planeta. É gol de placa!