Se vivo fosse, o florentino Nicolau Maquiavel teria feito 553 anos em maio último. A obra desse italiano que viveu na Idade Média, notadamente o clássico “O Príncipe”, no entanto, é contemporânea e atemporal.
Entre outros ensinamentos com os quais o guru aconselhava aristocratas, reis e imperadores da época, repetia sempre: “Quando fizer o bem, faça-o aos poucos. Quando for praticar o mal, é fazê-lo de uma vez só”.
Há um guru maquiavélico habitando o Centro Cívico em Curitiba. Pode ter morada no Palácio Iguaçu, ou, quem sabe, na Assembleia Legislativa do Paraná.
Fato é que as máximas de Maquiavel foram aplicadas ipsis litteris neste novembro, que vinha se arrastando no clima de fim de feira no mundo político, após se fazerem ouvir as vozes roucas das urnas.
Aos fatos: a privatização da maior empresa paranaense, a Copel, na expressão usada pela oposição – ou a transformação da estatal de economia mista em corporação, retórica que o Iguaçu usou – entrou de surpresa na pauta de segunda-feira (21).
No dia seguinte já estava apreciada pela Comissão de Constituição e Justiça, que em placar apertado deixou tudo pronto para votação na quarta-feira (23), quando a mudança foi aprovada em 1º turno. A “maldade”, no entendimento de alguns, sim, foi feita de uma vez só.
O TIMING DO NEGÓCIO
Ratinho Junior aplicou uma derrota mastodôntica no ex-governador Roberto Requião. Entre os candidatos a governador ungidos em primeiro turno, o paranaense obteve o maior percentual de votos do país (mais de 70%), perdendo somente (na margem de erro), para Jader Barbalho, reeleito governador do Pará.
Aqui Maquiavel começa a trabalhar novamente. Ratinho dispunha de capital político, gordura para queimar. Soube lidar com o “Centrão” da Assembleia e obteve sólida maioria. Em um primeiro grupo de apoio, deputados recém-eleitos terão quatro anos de mandato cheio para recuperar eventuais perdas no pacote de “maldades”.
Em outro grupo, deputados não reeleitos, mas com café no bule até 31 de dezembro, estão ainda mais dispostos a pagar o custo político, já que no pacotaço de novembro está prevista a criação de mais de 500 cargos e oito novas secretarias.
Não faltarão cadeiras para acomodá-los, e os derrotados de outubro podem ser os vencedores de janeiro, através da distribuição do “bem” aos poucos, como ensinou o guru medieval.
Outro fator que não pode ser desconsiderado é o calendário: a estratégia de por a voto a pauta chocante exatamente na semana em que o planeta inteiro está com os olhos no Catar, país que enriqueceu exatamente pelas riquezas energéticas.
O PROJETO
Privatização é palavrão ainda para segmentos da sociedade, portanto, para esses, a “maldade” apontada por Maquiavel. O Iguaçu evitou usar a expressão. O projeto aprovado na Assembleia autoriza reduzir a participação acionária do Estado do Paraná pela metade, de 31% para um piso de 15%.
Isso dilui o controle estatal e permite levantar algo como R$ 2 bilhões com a venda das ações públicas.
O argumento dos favoráveis é que ao adotar o modelo de corporação na governança da Copel, a exemplo das ex-estatais Vale, Embraer e Eletrobras, a empresa livra-se das amarras da Lei 8666 (compras via licitações) e da obrigação de recrutar por concurso público, tornando-se mais ágil e competitiva.
Aos argumentos palacianos, soma-se garantias que a empresa permanece sediada no Paraná, com o mesmo nome, e que não haverá impactos tarifários, com o Estado mantendo poder de veto, notadamente na área de distribuição.
Em tempo 1: Por que é importante entender a energética pauta deste novembro? A Copel é a terceira maior empresa do Sul do Brasil, com faturamento próximo de R$ 20 bilhões, maior que qualquer cooperativa gigantesca do Estado e superando Itaipu, inclusive. É joia da coroa e não faltarão interessados em adquirir seucontrole acionário.
Em tempo 2: Outra “maldade”, a tentativa de tributar o agro, também estava no pacotaço de novembro. Mas esse não avançou. Foi rapidamente tratorado. Aqui não havia Maquiavel que desse jeito.
Rápidas
Entre os nomes de gente da região cogitados para cargos relevantes no governo Lula estão o ex-deputado Irineu Colombo – sondado para o bilionário Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – e Jorge Samek para ministro-chefe da Casa Civil.
Tanto um como outro agradeceram as sondagens, mas não parecem dispostos a interromper as respectivas aposentadorias políticas. Colombo está levando uma vida bucólica com a mãe em um sitio de Medianeira.
Já Samek acha que deu sua cota de sacrifício ao atender o pedido do então candidato Lula, quando aceitou meio a contragosto disputar uma eleição majoritária de remotas possibilidades este ano, na vice de Requião.
O ex-vereador Nestor Dalmina vai tentar impedir na Justiça a audiência pública para revisar o Plano Diretor de Cascavel, agendada para o próximo dia 30.
Para Dalmina, entre outros pontos pautados na revisão está a expansão do perímetro urbano e a redução do tamanho mínimo de lotes de 300 metros para 150.
“A cidade vai virar um pombal”, disse o ex-secretário de Planejamento de Edgar Bueno.
FORA DA BASE
l Nelsinho Padovani, o único federal eleito de Cascavel, deixa clara sua posição. Apesar do namoro firme de seu partido, o União Brasil, com o time de transição lulista, Nelsinho não acompanhará o trem da alegria.
“Tenho divergências com o PT, serei oposição em muitos aspectos, mesmo que o União Brasil declare apoio ao governo”, disse.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente