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Para onde vão os bilhões de Itaipu?

Às vésperas de completar meio século, obra já avista o último boleto da dívida gigantesca que a construiu, enquanto a elite empresarial do Paraná lança “Olhar para o Oeste” vislumbrando a hidrelétrica ao centro de um ambicioso projeto trinacional


calendar_month 18 de novembro de 2022
8 min de leitura

A obra de Itaipu de quase meio bilhão de reais sobre o Rio Paraná é um monumento à ponte política entre Ratinho Junior e o inquilino do Planalto que deixa o poder agora. Para quem vai o mando político no momento ímpar em que a binacional terá mais recursos financeiros que nunca em seus quase 50 anos de história?

Poucos brasileiros lastimaram mais o resultado da eleição presidencial que o governador do Paraná, Ratinho Junior. Ele tem milhões, talvez bilhões de motivos para tal. Ratinho, por influência própria e do pai apresentador, amigo do presidente sainte Jair Bolsonaro, pavimentou acesso para uma mina de ouro na fronteira Oeste. Foi uma parceria eletrizante com os “milicos” à frente de Itaipu Binacional.

Do acordo, que transformou a hidrelétrica em uma versão endinheirada do Ministério da Infraestrutura, saiu a segunda ponte Brasil-Paraguai, adequações multimilionárias no Aeroporto de Foz do Iguaçu, duplicação do Contorno Oeste, em Cascavel, reforma da Ponte de Guaíra e até obras fora do eixo estendido de Itaipu, como a nova Estrada Boiadeira, na região de Umuarama.

As comportas da bilionária já estavam abertas desde meados de 2016 para obras de infraestrutura. Ainda no governo Temer, deputados da base aliada governista apresentavam suas “emendas” à diretoria e, com aval de Brasília, designavam muitos milhões para suas base eleitorais.

Para ficar em um exemplo, foi assim que o deputado Evandro Roman intermediou R$ 47 milhões para a readequação de estradas rurais em Cascavel e a construção do Ecoparque Oeste, no Bairro Santa Cruz.

Antes de Temer e Bolsonaro, os recursos de Itaipu com o dólar garroteado no real em proximidade paritária, eram pulverizados inicialmente nos chamados municípios lindeiros, que tiveram áreas alagadas pelo reservatório.

Já era um território grande. A área alagada vai de Foz do Iguaçu a Guaíra, em uma extensão de 170 quilômetros, englobando 16 municípios, inclusive um do vizinho Mato Grosso do Sul.

A “obra” mais visível do período em que o mais longevo dos diretores-geral de Itaipu esteve à frente das operações, Jorge Samek, foi um programa ambiental: o “Cultivando Água Boa”, coordenado pelo ex-deputado Nelton Friedrich.

DESTINO DOS BILHÕES

Agora o PT volta à sala de comando de Itaipu com a proposta de reinserir o Brasil no debate internacional do clima, para o qual, imagina-se, Itaipu tem protagonismo. E duas questões fundamentais navegam pela imenso reservatório da fronteira:

1) quem serão os novos diretores?

2) qual será a linha de atuação?

Mantém-se o perfil “tocador de obras” de Itaipu através de outros interlocutores da agenda política, ou os novos gestores vão reeditar as políticas da dupla Samek/Friedrich?

A essas questões somam-se outras: Itaipu entra no pacote de governabilidade ditada pela formação de maiorias sólidas no Congresso Nacional?

Esse papel político, de amansar os deputados, já é relegado hoje à hidrelétrica. O PP, sigla relevante na base de apoio bolsonarista, indicou gente graúda para o Conselho de Itaipu, entre elas a ex-governadora Cida Borghetti, esposa do líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros.

O apetite sobre Itaipu vai crescer. A hidrelétrica quita agora, em meados de 2023, as dívidas contraídas na década de 1970 para a construção e que consumiu quase 40 bilhões de dólares. Em outras palavras, estima-se que, ao pulverizar o último boleto, Itaipu passe a acumular uma “gordura” de mais de 2 bilhões de dólares anuais.

É verdade, muita água vai rodar nas 20 turbinas ainda até as definições do novo governo, mas já há movimentações de gente grande para segurar a dinheirama de Itaipu no Oeste do Paraná, como mostra a sequência desta reportagem.

Certo mesmo é que o nome Itaipu deriva da família linguística tupi-guarani e significa “pedra da qual a água faz barulho”. E o que não faltará num eventual embate ideológico de para onde canalizar os dólares de Itaipu será justamente ruído, o barulho eletrizante e bilionário.

(Foto: Itaipu)

Olhos para a região Oeste

Haverá espaço para reduzir drasticamente o valor do quilowatt gerado por Itaipu; mas será preciso combinar com os “russos”, no caso, os sócios paraguaios, contrários à medida

A tarifa de Itaipu deve cair já no próximo ano, conforme a usina se aproxima da quitação total da sua dívida de construção. A partir de 2023, o montante pode se reduzir a menos da metade do valor atual, calculado em US$ 22,60 por quilowatt. A expectativa da binacional foi detalhada pelo então diretor-geral brasileiro de Itaipu, general João Francisco Ferreira.

Quando presidia a binacional, no início do governo Bolsonaro, ele jogava um reservatório inteiro de água fria naqueles que enxergam bilhões disponíveis com a quitação da dívida. Na leitura do general, o fim dos pagamentos significará diminuição de custos e não sobra de dinheiro.

“Temos despesas de exploração que somam o quanto Itaipu precisa para gerar energia. O cálculo é pelo custo. Aí entram pessoal, materiais, serviços, outras despesas e entram, também, a dívida e as amortizações da dívida. Tudo isso é empilhado e vai me dar o cálculo da tarifa, que hoje está em US$ 22,60 por quilowatt [em potência]. No momento em que a dívida desaparecer eu tiro esse bloco da minha conta e o valor será obrigatoriamente menor”.

Não é bem essa a leitura do pesquisador Roberto Brandão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para o especialista, “com a quitação da dívida, a energia de Itaipu vai custar muito menos, o governo brasileiro poderá optar por repassar essa energia barata aos consumidores ou aferir lucro com essa redução”.

Vale lembrar: tudo terá que ser combinado com o sócio paraguaio. Se baixar drasticamente o valor do quilowatt, o vizinho será o maior perdedor, já que vende a energia excedente de Itaipu a preço de custo para o Brasil, conforme cláusula contratual.

Neste embate, um grupo de 12 líderes empresariais paranaenses quer colocar a colher. Denominado “Olhos para o Oeste”, o grupo de pesos pesados da economia estadual simpatiza mais com o Brandão da UFRJ que com o general sainte para quem se presta continência pelo menos até o próximo 31 de dezembro.

“Itaipu representa 10% da produção nacional de energia. Se as sobras resultantes da quitação de suas dívidas forem pulverizadas no conjunto do sistema elétrico nacional, vai resultar em um desconto ínfimo, talvez algo como 3%. É pouco, quase nada, é possível somar com o Paraguai em um projeto muito mais arrojado, capaz de multiplicar muitas vezes o valor que deixa de ser pago em dívidas de Itaipu”, opina um dos integrantes do “Olhos para o Oeste, Francisco Simeão.

O grupo, que envolve nomes bem conhecidos da região, como os líderes empresariais Luiz Donaduzzi (Toledo), Irineo da Costa Rodrigues (Medianeira), Danilo Vendruscolo (Foz) e Eduardo Sciarra (Cascavel), vem debatendo um arrojado projeto de desenvolvimento trinacional, envolvendo Brasil, Paraguai e Argentina, resumido no documento abaixo.

(Foto Alexandre Marchetti/Itaipu Binacional)

O plano trinacional do empresariado

Conheça as premissas do macro plano de desenvolvimento econômico, social e tecnológico do movimento

“Olhos para o Oeste”

CICLO VIRTUOSO

“Um grupo de tradicionais empresários do Paraná, de forma voluntária, constituiu um grupo de trabalho sobre a liderança do Instituto Democracia e Liberdade, irmanado ao Instituto CTNI, com o objetivo de planejar um macro plano de desenvolvimento econômico, social, tecnológico e sustentável (…) que aproveite as vocações naturais existentes englobadas nos Estados brasileiros, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, e Sul do Mato Grosso e Norte da Argentina e Paraguai”.

US$ 60 BILHÕES

“O plano terá como a base principal a fase II dessa gigantesca e bem-sucedida obra binacional de Itaipu. Como se sabe, Itaipu Binacional liquida em início de 2023 a dívida que financiou esse investimento, dívida esta que, somada aos custos de operação (OPEX – custo dos serviços de eletricidade), serviu de base para o cálculo da tarifa nessas quatro décadas de seu funcionamento.

Com a amortização total da dívida, e mantendo-se a tarifa aos níveis atuais, a empresa geraria um caixa líquido superior a 2 bilhões de dólares anuais, valores que representam para um período de minimamente 30 anos, uma acumulação de U$ 60 bilhões”.

TRIPLICANDO VALOR

“Análises preliminares junto à Fundação Getulio Vargas nos dão conta que um aporte nestes montantes pode atrair investimentos de fundos internacionais equivalentes a três vezes este valor. Uma outra hipótese, defendida por correntes do governo brasileiro, seria a redução tarifaria, tese não aceita pelo governo do Paraguai, e contrária à visão deste grupo de empresários.”

CORREDOR AUTOSUSTENTÁVEL

“Entendemos que haverá uma convergência nos propósitos dos dois países, atendendo, por um lado, uma redução de tarifa e, por outro lado, a formação de um vigoroso fundo que permita a implantação de um projeto que efetivamente traga um fantástico benefício para essa hinterland e para as nações involucradas neste corredor autossustentável”.

AGRONEGÓCIO

“A base do agribusiness já implantada neste corredor será turbinada com investimentos, prioritariamente, na deficiente estrutura de escoamento da produção, a qual rouba parte importante da competitividade excepcional no campo, conseguida com a aplicação de tecnologia de última geração a par da qualidade do solo, clima e água abundante”.

AGENDA ESG

“Pretendemos incentivar a criação de grupos espelhos deste nosso, no Paraguai e na Argentina, para que tenhamos um trabalho de colaboração do setor privado, de forma sinergética com os respectivos governos, e em linha com os objetivos almejados. Os produtos da cadeia de negócios E.S.G. que será oferecida representam o que mais o planeta necessitará: energia com fonte renovável, alimento, transporte e sustentabilidade, além da criação de emprego e renda”.

Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente

pitoco@pitoco.com.br

 
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