Quando o aço cria raízes: dragões e serpentes na epopeia industrial de Cascavel a partir da fusão das estratégias globais da Mascarello Ônibus e da chinesa BYD

Cascavel, um ano qualquer na segunda metade da década de 1950. Um “jipeiro” errante, em busca da famosa “Encruzilhada” – imediações de onde hoje está a Praça do Migrante -, percebe um problema mecânico que o impede de seguir adiante. Estaciona à beira de um barranco, aguarda a densa poeira gerada por ele próprio baixar, e avista um raro caminhante:
Onde posso consertar meu Jipe nessa vila? – pergunta o viajante.
É logo ali, responde o caboclo de chapéu cravado na testa, apontando para onde hoje está a confluência da Avenida Tancredo Neves com a rua Rio Grande do Sul.
O “logo ali” era um barracão de chão engraxado registrado na Junta Comercial com o nome Conserto Mecânica Industrial Ltda, cujo acrônimo telegráfico se resumia a vocábulo mais curto: Comil.Ali, o homem do jipe encrencado seria atendido pelo gaúcho Luiz Domingos Crespi ou talvez pelo seu colega de trabalho, João Ramiro da Silva. A Comil não era a única mecânica daquele vilarejo, mas certamente a mais assertiva.
“O lugar era conhecido como o último recurso. Se eles não resolvessem, ninguém daria conta. Afinal, o Crespi era o único num raio de mais de 150 quilômetros que tinha tornos”, relata o pioneiro Beto Pompeu, contador da firma que registrou o nome Comil.
A poeira do tempo movimentada por uma lufada de vento levou aqueles homens de outrora, mas deixou as sementes. Diga-se, de passagem, sementes de aço. Ali, na Rio Grande do Sul com a então Avenida Foz do Iguaçu (hoje Tancredo), brotava o que seria o poderoso polo metal mecânico de Cascavel. A Comil se transformou em uma das maiores indústrias de silos da América Latina. De seu tronco, outro ramo de aço surgiu: a Mascarello, rankeada entre as três maiores encarroçadoras de ônibus do País, comandada por uma “mulher de ferro”, a filha de Luiz Crespi, Iracele Mascarello, a Celinha.
Pouco escrutinado na opinião pública, o polo metal mecânico concede a Cascavel o status de uma little Caxias, município que, ao lado de Joinville, constitui o principal centro do segmento na porção Sul do mapa. Aqui, além da Mascarello e Comil, reluzem outros players nacionais com DNA da cobra, como a Consilos e a Carelli.

CASÓRIO SINO-CASCAVELENSE
São Paulo, fevereiro de 2026 – homens de olhos puxados vindos da “Império do Meio”, onde tremulam as “temidas” bandeiras vermelhas, tilintam taças finas de champanhe com executivos do polo metal mecânico de Cascavel. Era a apresentação do Horizon, o primeiro ônibus elétrico da Mascarello, cuja gênese funde em aço o guizo da cobra com a líder mundial da eletrificação, a BYD da República Popular da China. O Horizon traz em sua pintura detalhes que remetem para as escamas quilhadas da cobra Cascavel e um silo estilizado que remete à lembrança do velho Crespi e sua Conserto Mecânica Industrial Ltda., semente de aço do império metálico.
“Unir forças com uma empresa tão sólida e respeitada quanto a Mascarello é motivo de grande satisfação para a BYD. A chegada de um parceiro estratégico ao mercado de ônibus elétricos reforça nossa confiança na tecnologia que desenvolvemos e no potencial de transformar a mobilidade no país”, disse Marcello Schneider, mandachuva da BYD no segmento de veículos comerciais e solar.
IMPÉRIO DAS SAIAS
Não foi possível obter um comentário de Celinha sobre a aliança sino-cascavelense, mas uma frase dela – reproduzida pela “Gazeta do Povo”, 20 anos atrás, pode resumir a conversa: “Cascavel sempre foi conhecida pela soja. Mas você vai ver, logo ela será conhecida pelos ônibus que produz”, disse a filha do Crespi, homem que lançou ao solo a “semente de aço” e era o “último recurso” naquela vila poeirenta dos anos 1950.
Detalhe relevante: quem dá as cartas da BYD na América Latina usa saias, a chinesa Stella Li. Da mesma forma, no conglomerado Comil/Mascarello, o poder está com elas: Celinha, Kelly e Vivian (filhas) e a jovem Luiza (neta).
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Quebra de trato pôs a Mascarello na BR 277
Uma das concorrentes da Mascarello Ônibus leva o nome Comil e mantém seu parque fabril no Norte do Rio Grande do Sul, em Erechim.

A Comil Ônibus SA, foi montada pela família Corradi, que mantinha vínculos com os Mascarello e os Crespi de Cascavel. Havia um acordo entre eles quando dividiram o grupo entre gaúchos e paranaenses: A Comil cascavelense ficaria no ramo de silos, e a “República de Erechim” com ônibus. O trato não foi respeitado, segundo a turma da cobra. O relato está em uma edição da Gazeta do Povo que circulou em 2006.
“Quando a antiga Comil se dividiu em duas empresas, em 2001, os ex-sócios firmaram um compromisso informal. A família Mascarello, que ficou com a unidade de Cascavel, iria se concentrar no negócio de silos e secadores. Por sua vez, os Corradi controlariam sozinhos a Comil Ônibus, de Erechim. Mas, quando os gaúchos criaram a Engenharia de Movimentação e Armazenagem (EMA), tornando-se concorrentes da empresa paranaense na fabricação de silos, receberam o troco na mesma medida: os Mascarello decidiram abrir sua própria fábrica de carrocerias de ônibus”, relatava à época o jornal curitibano.
Hoje a Mascarello surge no top 3 nacional em alguns segmentos, como na fabricação de micro-ônibus. Nos últimos números consolidados, relativos ao desempenho de 2024, a indústria surge atrás somente das gigantes Marcopolo e Caio, a frente dos parentes gaúchos da Comil e da Busscar (ver gráfico).
A Mascarello exporta para mais de 20 paises sulamericanos e africanos. A capacidade produtiva chega próxima a 3 mil unidades/ano em uma área construída de 168 mil metros quadrados com um terreno de 1,7 milhão de metros.
AGORA VAI?
As tratativas com a BYD começaram seis anos atrás, quando um passeio de ônibus elétrico foi realizado aqui. Anos depois o município licitou os primeiros 15 ônibus elétricos da frota do transporte coletivo urbano. A vencedora foi outra chinesa, a Higer, concorrente da BYD.
Talvez agora, com uma empresa cascavelense apta para o certame, e que gera mais de 2 mil postos de trabalho aqui, a Prefeitura de Cascavel receba um estímulo elétrico para prosseguir na eletrificação da frota.
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“UTI” para o cemitério, passando por Hollywood
O acrônimo UTI permite algumas interpretações. No literal, Unidade de Terapia Intensiva. Já nas baladas de Cascavel dos anos 1980/90, Última Tentativa do Indivíduo.
Na Cascavel dos anos 1950, a última tentativa, o último recurso, era o barracão do Crespi na Avenida Foz do Iguaçu, confluência com rua Rio Grande do Sul.
Dali surgiu um grupo que se desdobrou em vários CNPJs. Entres os mais conhecidos, além da dupla metálica Comil/Mascarello, surge a Mascor Imóveis, outrora a maior “lotefundiária” urbana de Cascavel, recentemente suplantada pela Bella Casa/Okada.
Também pertence ao grupo o primeiro cemitério privado da cidade, o Jardins de Cascavel, onde jaz, desde outubro 2024, o primogênito de Celinha, Plácido, o Tato, que faleceu aos 47 anos de idade.
Tato, que nasceu com paralisia cerebral, da união hoje desfeita de Celinha com Rovílio Mascarello, foi apresentado em reportagem da CGN em 2021, como “xodó da família, que demandou maiores atenções de desprendimentos por parte da mãe, que sempre se dedicou em cuidá-lo”.
Também no cemitério privado da família está sepultado o patriarca Luiz Benjamin Crespi, que faleceu aos 95 anos, em 2018.
Da semente de aço que germinou naquele barracão pouco ventilado nas imediações do Marco Zero de Cascavel até a rua Pará, onde a família Mascarello viveu na mansão que replica a casa em que ambientou o filme “E o Vento Levou”, construiu-se a trajetória hollywoodiana capaz de antecipar o caráter multinacional dos CNPJs do clã.
Afinal, a BYD não é a primeira incursão internacional do grupo. Antes, muito antes, a Mascarello já trazia a estrela icônica da Mercedez Bens, encarroçando os chassis de ônibus da gigante germânica
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Cancelas dividem Corbélia
Prefeitura recorre à Justiça para garantir acesso à cidade por distritos; plano B é subsidiar moradores
com ISSQN gerado na praça de pedágiodo

A ativação da praça de pedágio que dividirá o município de Corbélia ao meio acendeu um alerta na administração municipal. Em entrevista ao Pitocast, o podcast do Pitoco, o prefeito Thiago Stefanello afirma que a principal luta neste momento é garantir a isenção da tarifa para moradores dos distritos da Penha e Ouro Verde, que dependerão da rodovia BR-369 para acessar serviços básicos na sede do Município.
“Corbélia está dividida pelo pedágio, literalmente. Ninguém do Distrito da Penha e do Distrito do Ouro Verde conseguirá acessar Corbélia se não passar pelo pedágio”, destacou o prefeito.
Segundo ele, uma ação judicial foi protocolada antes mesmo da assinatura do contrato de concessão, justamente para tentar assegurar a cláusula de isenção já no documento oficial. “Depois não se muda mais nada”, justifica, e acrescenta: “Não é mudar a praça de lugar. É garantir o direito à isenção. O cidadão não pode ser lesado.”
LESÃO A DIREITO
A Prefeitura ingressou com ação na Justiça Federal pedindo que a União e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) garantam a gratuidade aos moradores dos distritos, que não contam com banco, hospital, fórum ou delegacia. “Quem reside no Distrito da Penha e do Ouro Verde não pode ser impedido de chegar ao município de Corbélia para acessar os serviços básicos. Isso está claro na Constituição”, argumentou Stefanello.
De acordo com ele, a juíza responsável já reconheceu, em despacho inicial, que pode haver lesão ao direito do cidadão. O Município prepara agora a tréplica. A União sustenta que existem rotas alternativas, mas o prefeito rebate: “Existe estrada de chão, com 50 quilômetros de distância, que onera ainda mais o usuário”.
Caso a Justiça garanta o direito, o modelo previsto não altera o local da praça de pedágio. A proposta é simples: manter a estrutura onde está, mas assegurar a isenção via tecnologia. “O município fará o cadastramento da pessoa que comprovar residência no distrito e tiver o veículo emplacado lá. Ela vai passar gratuitamente pelo pedágio por meio de TAG”, explicou.
A estimativa é de que entre 150 e 250 veículos circulem diariamente entre sede e distritos, número que cresce em períodos de safra, quando produtores precisam transportar grãos para unidades como a Copacol.
PLANO B
Se a decisão judicial não for favorável, Thiago afirma que a Prefeitura já desenhou um plano alternativo. Inspirado no modelo adotado em Lapa, o Município poderia usar parte do ISS gerado pela praça de pedágio para ressarcir os moradores. “Nesse caso, o município paga o boleto no fim do mês pelo que o usuário utilizou. O cidadão não é lesado de nenhuma forma”, explicou. O lote que abrange Corbélia foi vencido pelo Grupo Pátria, que já atua em outros trechos do Estado.
PERTO DA POPULAÇÃO
Ao comparar a experiência como gestor em Cascavel (onde foi secretário de Saúde) e agora como prefeito de Corbélia, Stefanello afirma que a principal diferença é o contato direto com a população. “Em Cascavel, você faz uma gestão muito mais de gabinete, de planejamento macro. No município pequeno, você está o tempo todo na igreja, no boteco, no mercado… Se a pessoa quiser ir à tua casa, ela sabe onde você mora. Não tem para onde correr”, relatou.
Para atender as demandas, Thiago dá expediente pela manhã no gabinete e, à tarde, visita obras e bairros.
MUDANÇA PARTIDÁRIA
Stefanello confirmou a mudança partidária recente, saindo do PP para o PSD, após convite do deputado Gugu Bueno. Ele citou alinhamento com o governador Ratinho Júnior como fator estratégico. “Fazendo parte do grupo do governador, você tem maior facilidade na hora de assinar convênios. Para receber mais recursos e desenvolver o município, entendi que era o melhor caminho”. O prefeito declarou apoio à reeleição de Gugu Bueno e à candidatura do ex-prefeito de Cascavel, Leonardo Paranhos, à Câmara Federal.
PRESTAÇÃO DE CONTAS
Questionado sobre o uso intenso das redes sociais, Stefanello rejeita o rótulo de “marqueteiro” em tom pejorativo. “Eu cansei de ver bons prefeitos que faziam muito, mas a população não sabia. Se você não mostra, as pessoas não ficam sabendo. É recurso do imposto dela. É prestação de contas.”
Ele mantém presença ativa no Instagram, Facebook e grupos de WhatsApp. “Estou em grupo de bairro, de bar, respondo quando me marcam. É um entulho que não foi recolhido, uma luz que está queimada. Isso ajuda a fazer boa administração.”
NO RADAR
Para colocar Corbélia “no radar”, a gestão apostou em eventos. Foram 54 ações ao longo de 2025, incluindo a retomada da Expo Corbélia, programações esportivas e culturais, e a reativação do centro de eventos. “A cidade precisa girar. Você tira as pessoas de casa, movimenta comércio, salão, lanchonete. Isso fez Corbélia girar no último ano.”
O município também aposta em seu corredor logístico estratégico e na atração de indústrias. Além da Copacol, a C.Vale já adquiriu área para instalação de nova unidade.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente
pitoco@pitoco.com.br
