
Avida tem um jeito peculiar de ensinar, dar lições e mostrar o que realmente importa. Saber entender e interpretar os sinais é um diferencial precioso para, a cada passo em direção à finitude, poder dizer que a jornada valeu a pena, e que tudo o que foi sonhado e planejado foi satisfatoriamente alcançado. Quantos
têm a chance de se autodeclarar como total e definitivamente realizados, principalmente em um mundo moral e eticamente tão decante e insensível?
O desafio de entender esse estágio de paz e realização é tão grande que é fácil perder o eixo em uma análise minimamente sensata e assertiva. Alguns diriam que um ambiente de abundância material,
de pais letrados e de boas escolas poderia ser o caminho ideal para delinear esse perfil vencedor. Mas raramente, e a história mostra isso, o sucesso verdadeiro está conectado a facilidades.
Ibrahim Faiad, que já enxerga a sua 88ª primavera no horizonte, é dono de uma trajetória que dá pistas úteis e valorosas para a pura compreensão do que viver e inspirar significam.
IBRAHIM FAIAD
“Guardo comigo lições valiosas aprendidas com o Avelino (fundador do Bamerindus). Era um homem bom, doce, conselheiro. Foi um segundo pai que tive e com quem aprendi muito”
INFÂNCIA PERDIDA
Filho de um pequeno comerciante e de uma dona de casa, Ibrahim nasceuem Wenceslau Braz, no Norte Pioneiro do Paraná, em 1938. Eram oito irmãos
com as companhias comuns a uma situação de poucos recursos. Todos pularam a infância para conseguir uns trocados que eram administrados com zelo e prudência pela mãe. A rotina era intensa nos dias do menino de apenas sete anos. Ibrahim deixava a cama antes de o galo cantar. Pegava com o vizinho quatro litros de leite recém tirado na ordenha e fazia, a pé, as entregas antes de seguir para a escola.
BANCÁRIO AOS 13
Depois da aula, a tarefa poderia ser engraxar, ajudar a mãe em algum afazer doméstico ou aprender com o pai a arte de vender e fazer amigos. Aos nove anos, Ibrahim virou ajudante de padaria e aos 13 conseguiu abrir a porta para a oportunidade que mudaria a sua vida para sempre. “Comecei no Bamerindus, que dava os seus primeiros passos, como auxiliar de contínuo. Eu varria, limpava placas, buscava refrigerante para os colegas mais velhos. Até que fui promovido”, conta aquele que o destino moldou para ser um dos homens de confiança de Avelino Antônio Vieira, fundador de um dos três mais poderosos bancos brasileiros.
EPOPEIA
A história de Ibrahim pode ser definida como uma epopeia, a sucessão de eventos extraordinários e ações gloriosas.
Os 33 anos de Bamerindus permitiram que vivesse experiências das quais jamais sonhou, mas que o habilitaram para saltos ainda mais surpreendentes.
Aos 16 anos, era o contador da agência de Guaratuba e em 1956 foi designado para a unidade da distante
Foz do Iguaçu. “Era tão longe da capital e os desafios para chegar eram tantos que o acesso terrestre era praticamente impossível. O jeito era se aventurar nos voos da Real Aerovias”.
“Comecei no banco que dava os seus primeiros passos aos 13 anos de idade, como auxiliar de contínuo. Eu varria, limpava placas, buscava refrigerante para os colegas mais velhos”
BANQUEIRO BONZINHO
Ibrahim lembra que uma viagem de Foz do Iguaçu a Curitiba, dependendo da época do ano, poderia demorar dias. No percurso de cerca de 650 quilômetros, os passageiros precisavam trocar de ônibus cinco vezes. Um ano mais tarde, o contador seria transferido para Cascavel, onde chegou a ge-
rente. “Guardo comigo lições valiosas aprendidas com o Avelino. Era um homem bom, doce, conselheiro. Foi um segundo pai que tive e com quem aprendi muito”. Ibrahim acompanhou a ascensão do Bamerindus, que chegou a somar no auge 1.430 agências, e também a sua derrocada.

O INÍCIO DO FIM
O banco tinha seis sucessores e quatro morreram em um acidente aéreo. O então presidente, o vice e três filhos deste faleceram. O comando da instituição foi parar então nas mãos de José Eduardo de Andrade Vieira, que publicamente manifestava desinteresse pelos negócios da família. José Eduardo entrou para a política, virou senador e, muito amigo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, acabou ministro de Indústria e Comércio e de Agricultura.
ZÉ DO CHAPÉU
Quem convivia como José Eduardo, “vendido” pelo marketing político como “Zé do Chapéu”, sabia que o herdeiro do Avelino chegou a sonhar, inclusive em voz alta, com as chances de vir a ocupar a cadeira da presidência da República.
Diante de inúmeras dificuldades e enfraquecido pela ausência de pessoas de valor e estratégicas na corporação, o Bamerindus acabou incorporado pelo HSBC. Dez anos depois, o que sobrou do banco de origem paranaense foi vendido por R$ 17 bilhões para o Bradesco.
COOPAVEL
Ibrahim permaneceu por 33 anos no banco e, já de olho na aposentadoria, comprou uma área de terra na região de Céu Azul. Com sua carreira profissional resolvida, entendia que poderia se dedicar integralmente à agropecuária. Cooperado desde 1971 à Coopavel, ele via com preocupação notícias crescentes que davam conta do mau estado financeiro da cooperativa.
TRIO PARADA DURA
Na metade da década de 1980, o ex-bancário diz que foi intimado a dar sua contribuição para tirar a Coopavel de seu momento mais grave. Por diversos motivos, a cooperativa chegou muito perto da falência. Após inúmeras tentativas frustradas, surgiu a ideia de nomear um trio que poderia dar fim ao sofrimento de cooperados e colaboradores. A convite de Salazar Barreiros e Dilvo Grolli, “Comecei no banco que dava os seus primeiros passos aos 13 anos de idade, como auxiliar de contínuo.Eu varria, limpava placas, buscava refrigerante para os colegas mais velhos” Ibrahim decidiu ser vice e então presidente.
“Foram 12 anos bastante ativos, indispensáveis para recuperar a credibilidade das pessoas, a confiança nos projetos e para restabelecer uma nova rota de crescimento”.
“Acabar com a correção monetária foi um milagre. O Brasil, em três décadas, saiu de 48 milhões para mais de 340 milhões de toneladas de grãos por ano. Isso mudou tudo e viramos o maior celeiro exportador de alimentos do planeta”
CHEGADA DO SHOW
Na gestão de Ibrahim foi realizada a primeira edição do dia de campo que se transformaria no Show Rural, atualmente um dos três maiores eventos técnicos do agronegócio mundial. “Lembro até hoje das palavras que disse aos cooperados que acompanharam o início desse projeto: – Vocês marcam o começo de uma caminhada alicerçada na união, no compartilhamento de informações e na inovação, decisiva para o sucesso desse negócio”. E essa é uma das características centrais do cooperativismo, que Ibrahim define como obra de Deus. “Esse é um movimento no qual todos têm voz e vez. A cooperação é agente de transformação e são imensos os benefícios de participar”.
O CONVITE DE LERNER
Novamente em casa e com a sensação de dever cumprido, Ibrahim foi convidado para ser o chefe da Casa Civil do governo de Jaime Lerner. Ele acabou recebendo por missão, também, criar a Agência de Fomento do Paraná, que virou suporte aos mais diferentes projetos de empreendedorismo em todo o Estado.
Com a posse de Francisco Turra no ministério da Agricultura, veio o convite para que assumisse como diretor de nacional de Política Agrícola, o número 2 da pasta. Mesmo uma pessoa do bem e de conhecimento apurado sobre os temas do campo, Turra acabou substituído por Pratini de Moraes.
O MILAGRE DE PRATINI
Amigo íntimo do presidente Médici e de intelecto privilegiado, Pratini não conhecia a realidade do agro e foi orientado a ter Ibrahim, que já tinha limpado as gavetas para voltar ao Paraná, como conselheiro. Pratinipediu e recebeu três sugestões para levar a um encontro com o então ministro da Fazenda, Pedro Malan.
“Disse a ele que, caso conseguisse efetivar apenas um daqueles pedidos, entraria para a história por revolucionar a agricultura brasileira”.

SEGURO AGRÍCOLA
E o resultado foi mais surpreendente do que se imaginava. A correção monetária, que inibia o crescimento do agro e dos mais diferentes projetos empresariais no Brasil, foi substituída por empréstimos com juros fixos e uma soma de R$ 2 bilhões foi liberada para que os agricultores pudessem modernizar suas máquinas e produzir com mais eficiência.
A terceira indicação de Ibrahim, de criação do seguro agrícola, que se limitou a um estudo técnico na ocasião, seria contemplada muitos anos mais tarde.
DO MILAGRE AO CÉU
“Acabar com a correção monetária foi um milagre. O Brasil, em três décadas, saiu de 48 milhões para mais de 340 milhões de toneladas de grãos por ano.
Isso mudou tudo e viramos o maior celeiro exportador de alimentos do planeta”, conta Ibrahim, que então, de forma definitiva, voltou à sua vida pacata no interior de Céu Azul, onde atualmente, sob sua influência, vê prosperar um dos mais importantes empreendimentos da pecuária leiteira do Sul do Brasil.

LEGADO
A personalidade agradável e as escolhas que fez dizem muito sobre quem é Ibrahim Faiad. A humildade, a honestidade e o respeito estão entre as virtudes que mais cultiva e admira. Muito do que aprendeu ele atribui a um dos irmãos que, dois anos mais velho, morreu prematuramente em um acidente automobilístico.
Casado com Sueli, criou seis filhos adotivos e mimou dez netos que lhe encheram o coração de amor e alegria.
VALOR DA SIMPLICIDADE
O homem que se apresentava como feliz e realizado, conheceu as entranhas do poder com suas fortalezas e fragilidades, deixa um conselho na ponta da língua: “Tenha Deus no coração. Coloque sua família como prioridade e conserve sempre os bons amigos”. Acumulando saberes que somente o tempo e a vida ensinam, Ibrahim acreditava que uma existência simples, de harmonia, trabalho e realizações é o que de fato tem valor, e é o que deixa como legado a todos com quem teve o privilégio de conviver.
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Cavalheiro da conexão
Muitos projetos políticos e empreendimentos econômicos de vulto nasceram ali, na varanda da Fazenda Iguaçu, em Céu Azul

Conexões pelo WhatsApp permitem registrar com precisão nosso derradeiro contato com pessoas que nos deixaram. Minha última conversa com Ibrahim Faiad foi exatamente às 11h23 do dia 6 de junho de 2025.
A ligação consumiu dois minutos e retrata à perfeição aquela que pode ser definida como uma das qualidades mais notáveis de Ibrahim: a produção de conexões entre as pessoas, a convergência de intenções, a mão estendida. Naquela ligação telefônica Ibrahim me lembrava: “Já falou com a pessoa que indiquei? Passei suas referências, indiquei o Pitoco para divulgarem o novo empreendimento”.
Muitos amigos do “cavalheiro das conexões” estarão perfeitamente familiarizados com essa característica marcante de Ibrahim. Ele apresentava pessoas de forma pessoalmente desinteressada, torcia pelos amigos, aconselhava empreendedores iniciantes.
Foi um dos primeiros assinantes do jornal a aderir ao projeto “Pitoco Futuro”, que hoje está em todas as escolas de Cascavel estimulando o gosto pela leitura.
A fazenda modelo que dirigia em parceria com dona Sueli e o sobrinho Marinho era alvo de “romaria” de gente influente do cenário nacional. Muitos projetos políticos de larga envergadura e empreendimentos econômicos de vulto nasceram ali, na agradável varanda da Fazenda Iguaçu, em Céu Azul. Ali, governadores no exercício do mandato, postulantes ao Palácio Iguaçu, presidenciáveis, CEOs de grandes corporações foram beber da sabedoria ponderada de Ibrahim Faiad.
A rede de contatos era infinita. Ia do gabinete do prefeito de Vera Cruz do Oeste às mesas de mármore do Palácio do Planalto, passando pelos escaninhos dos elevados tribunais de Brasília.
Antes de partir, já abatido pelo corajoso enfrentamento ao câncer, Ibrahim ainda deixou uma última articulação pronta: o espaço conquistado junto ao empresário Francisco Simeão para a comunidade árabe no entorno do Ecoparque Bairros Integrados.
Integrar, conectar, promover a sinergia entre as pessoas eram verbos fluídos na fala mansa e agregadora de Ibrahim Faiad. Ele faleceu no ultimo dia 14 de outubro, aos 87 anos. Sua voz ponderada e postura equilibrada formam um legado imprescindível em tempos de divisões políticas radicalizadas e desagregadoras.
Nota oficial
Na última semana, o Oeste paranaense perdeu dois dos seus maiores empreendedores ligados à agricultura e à pecuária: Ibrahim Faiad e Joaquim Felipe Laginski.
Foram verdadeiros guerreiros em defesa do agronegócio e neste momento de luto é preciso lembrar dos exemplos que ambos deixam para todos nós.
Ibrahim Faiad foi funcionário exemplar e diretor do Banco Bamerindus, onde trabalhou por 32 anos, vindo depois a investir e administrar uma das maiores fazendas em produção de leite d Sul do Brasil, em Céu Azul, Oeste do Paraná.
Ocupou apenas dois cargos públicos: foi assessor no governo do Estado e secretário nacional de Política Agrícola, em Brasília. Foi presidente da Coopavel e conselheiro da Sociedade Rural do Oeste do Paraná.
O médico veterinário Joaquim Felipe Laginski foi associado, Conselheiro e vice presidente da Coopavel, sempre tendo uma postura combativa em defesa da nossa cooperativa.
Foi fundador e o primeiro presidente da Associação Paranaense de Suinocultores. Exerceu também o cargo de secretário do Interior do município de Cascavel. Dedicado à agricultura e à pecuária, investiu sempre em novas tecnologias e aprimoramento genético dos rebanhos.
A ambos, registramos o nosso reconhecimento e a nossa gratidão pelo legado que deixam a todos nós, principalmente às futuras gerações.
Cascavel, 24 de outubro de 2025
Devair Bortolato
Presidente da Sociedade Rural do Oeste do Paraná
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Monaretas e Calois
É preciso regulamentar o uso das scooters e por os agentes da Transitar imediatamente na fiscalização de velocidade nas ciclovias de Cascavel

A infância de minha geração “pilotava” bicicletas Calói e Monark. Era o que rodava. Todos os que foram jovens nos anos 1970/80, irão se recordar do bordão: “não esqueça de minha Calói!”.
A minha era uma monareta verde, freios no pé, fabricada pela Monark. Herdei do meu primo Ricardo Gomes, usadinha já, mas em ótimo estado de conservação. Em uma noite escura perdida no tempo, um “amigo do alheio” me aliviou da magrela.
Doeu mais que o tombo que levei descendo a rua Flamboyant com uma mão no guidão e a outra agarrada em uma bola de futebol. A bike seguinte também era Monark. Esqueceram da minha Caloi. Uma Pósitron dourada, adquirida em 10 suaves prestações debitadas automaticamente do salário de office-boy, risco zero de inadimplência.
Adultos usavam a Caloi barra circular e carregavam as esposas ali. Nunca entendi bem porque se enfatizava que a barra era circular e que diferença isso fazia.
As bikes dos adolescentes de hoje são dotadas de motores silenciosos fabricadas no outro lado do planeta. São as scooters e outros badulaques elétricos.
O recente e trágico acidente com um menino de 14 anos na confluência da rua da Lapa coma Carlos Gomes, mostra que esses “brinquedinhos” de até 3 mil watts de potência podem ser muito perigosos.
Nada contra a micro-mobilidade elétrica, antes pelo contrário. Mas é preciso regulamentar o uso e por os agentes da Transitar imediatamente na fiscalização de velocidade nas ciclovias de Cascavel.
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“Teremos aqui a maior associação árabe-islâmica da América Latina”
O dentista Najib Hamaoui detalha o projeto que a comunidade islâmica está concretizando em Cascavel

Outrora mais visível na fronteira, notadamente em Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, a comunidade árabe vem crescendo e se expandindo no Oeste do Paraná. Em grande medida pelas relações comerciais com os 31 frigoríficos da região que fornecem proteína animal para o Oriente Médio e Norte da África.
A fluída cadeia de exportação gerou uma demanda aqui: construir um local para receber os adeptos da religião islâmica em orações, atividades culturais e corporativas. Um dos escalados para a missão foi um ilustre descendente de libaneses, Ibrahim Faiad, como reconheceu nessa entrevista ao Pitocast o dentista Najib Khaled Hamaoui, professor da Unioeste, atuante na comunidade árabe local. Acompanhe:
IBRAHIM FAIAD
O que dizer desse querido irmão brasileiro, de origens libanesas como eu?Empresário, agropecuarista, empreendedor, amigo, parceiro, sempre pronto para ajudar, pronto para direcionar e nortear a vida das pessoas com prazer, com carinho. Ele tinha esse carinho independente da pessoa. Seja rico, seja pobre, não interessa. Parceraço.
NA GUERRA
O Ibrahim esteve duas vezes no Líbano, uma delas em plena guerra civil. Na visita mais recente, já estava lá com quase 80 anos de idade. Segundo o pessoal que acompanhou a viagem, inclusive a esposa Sueli, o Ibrahim parecia uma criança, voltando às suas raízes. Apesar de ele doar sua alma pelo Brasil, pela nossa região e pelas pessoas aqui, bateu aquela saudade das suas origens.
ARTICULADOR
O Líbano é um país pequeno, quatro milhões de habitantes. Muita gente deixou aquela região pela inconstância, instabilidade. Só no Brasil são mais de 10 milhões de libaneses e descendentes. A trajetória do Ibrahim reflete bem a capacidade deste povo de se integrar. Ele foi diretor de banco, presidiu a Coopavel, foi o número dois do Ministério da Agricultura. Na política foi muito hábil nos bastidores, como, aliás, é uma característica dos libaneses, dos árabes.
POLÍTICA NO SANGUE
A comunidade árabe é muito participativa. São políticos, empresários, comerciantes, profissionais liberais de destaque nacional, que ocuparam até a presidência da República, como Michel Temer. Ocuparam o governo do maior estado com Paulo Maluf. Prefeito da capital, Gilberto Kassab, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, ministro da fazenda, Haddad. E muita gente do mundo empresarial que deixou legados notáveis na área de saúde, Adib Jatene e toda a reputação do Hospital Sirio-Libanês. Podemos tranquilamente incluir nesse grupo de notáveis libaneses nosso grande Ibrahim Faiad.
MESQUITA
Antes de o meu saudoso pai falecer aqui em Cascavel, o Ibrahim nos visitava com frequência, buscando conexões com suas origens libanesas. E um dos desejos do meu pai era ter um local de encontro, de confraternização, para oração, já que nossa região vinha recebendo um número crescente de libaneses e árabes. Meu pai se sensibilizava com essa situação. E o Ibrahim vestiu a camisa e acionou as conexões dele. Ligou para empresários, articulou dia e noite até obtermos o espaço que abrigará uma mesquita e um centro cultural e corporativo.
NEGÓCIOS
Iremos para além da assistência aos refugiados. Vamos trazer também os mega investidores do mundo árabe para fazer negócios. Nossa região é a maior produtora de proteína animal. Isso cria conexões promissoras com o mundo árabe. O Oriente Médio e o Norte da Europa são grandes clientes do Oeste do Paraná, inclusive o Estado de Israel.
SISTEMA HALAL
Os frigoríficos daqui precisam, contratualmente, abater os animais pelo sistema árabe, islâmico e hebraico. Trata-se do sistema Halal, que enfatiza o bem estar animal e inclui um ritual em que se pede permissão a Deus para abater aquela ave. Inclui também a eliminação de toxinas pela drenagem do sangue. C.Vale, Lar, Copacol, Coopavel, BRF Sadia, são 31 frigoríficos seguindo esse padrão de abate. Isso gera uma interação maior do mundo árabe com o Oeste. São empresários de lá que negociam aqui, são os inspetores que acompanham a aplicação do sistema Halal, e essas pessoas não têm um espaço adequado para suas orações. Daí vem o projeto em que o Ibrahim contribuiu muito ao obter áreas junto ao Chico Simeão. Será um centro cultural com espaço para encontros empresariais, estudos, ensino do idioma árabe, orações e confraternização com a deliciosa culinária árabe.
PARCEIROS
O Brasil precisa diversificar seus canais de exportações. Veja esse tarifaço que os americanos estão impondo. O mercado árabe nunca nos abandonou, eles amam o Brasil, e as economias são complementares. Estamos buscando investidores em Dubai, Arábia Saudita e outros países. Teremos aqui a maior associação árabe-islâmica da América Latina. Serão 5 mil metros de obra.. E haverá um espaço dedicado ao reconhecimento da dimensão do irmão Ibrahim.
FRONTEIRA QUENTE I
Sim, os americanos apontam ações de radicais árabes na tríplice fronteira. Mas não se pode generalizar. Dentro de uma família haverá um irmão diferente do outro. Se dentro da família há diferenças, imagina uma comunidade, um povo. Olhe para Dubai, exemplo de turismo e modernidade. A Arábia Saudita se abrindo para o mundo. Cidades tecnológicas, integradas com outros países, receptivas e hospitaleiras.
FRONTEIRA QUENTE II
Eu me casei com uma libanesa. Antes de trazê-la pra cá, ela disse que não queria morar no Brasil pelos níveis de criminalidade, bandidos, traficante, bala perdida. Muitas pessoas tem essa noção de nosso país. Dá para generalizar? Temos problemas? Temos. Isso quer dizer que todo brasileiro é assim? Não tem sentido! Todo o palestino é Hamás? Não, não é Hamás, são vítimas também. Todo o povo de Israel apoia atitudes radicais do Netanyahu? Também não. Não podemos generalizar de maneira alguma. A comunidade árabe é majoritariamente da paz, da oração e da integração entre os povos.
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O cearense do Pix
Do sertão nordestino ao Banco Central: a trajetória do criador do pagamento instantâneo

Em 2020, o Brasil assistiu a uma das maiores revoluções financeiras de sua história: o nascimento do Pix, um sistema que transformou completamente a forma como milhões de brasileiros movimentam dinheiro. Em poucos segundos, valores passam de uma conta para outra, 24 horas por dia, todos os dias da semana, inclusive feriados, sem taxas.
O que poucos sabem é que essa tecnologia, que hoje inspira o mundo e coloca o Brasil na vanguarda dos pagamentos instantâneos, não nasceu em Brasília, nem foi ideia de político ou de banco privado. Por trás do Pix está a mente de um engenheiro cearense, formado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Ângelo Duarte, um homem que saiu do interior do Ceará para liderar uma das inovações mais bem sucedidas da história recente do sistema financeiro mundial.
O INÍCIO
Nascido e criado em uma pequena cidade do interior do Ceará, Ângelo Duarte sempre demonstrou talento com números e tecnologia. A trajetória que o levaria ao comando de um do projetos mais ambiciosos do Banco Central começou com sua formação no ITA, em São José dos Campos (SP) – celeiro de engenheiros que moldam o futuro da inovação brasileira.
Ângelo foi convidado a integrar a equipe do Banco Central do Brasil (BCB). O cargo lhe permitiu criar um sistema de pagamentos instantâneos que funcionasse sem intermediários, sem tarifas abusivas e com a mesma velocidade dos sistemas mais avançados do planeta.
NASCE O PIX
Enquanto países como Estados Unidos e Alemanha ainda engatinhavam em soluções de pagamento instantâneo, o Brasil surpreendeu o mundo. O Pix foi oficialmente lançado em 16 de novembro de 2020, depois de mais de dois anos de desenvolvimento sob a liderança técnica de Ângelo Duarte e sua equipe.
“Queríamos que o Pix fosse mais que uma ferramenta de transferência: ele precisava ser uma plataforma de inclusão financeira, capaz de integrar milhões de pessoas ao sistema bancário”, disse Ângelo.
O resultado foi avassalador: em menos de dois anos, o Pix superou todas as previsões. Hoje, o Brasil realiza mais transações instantâneas que os Estados Unidos e a União Europeia somados. Só em 2024, o número de operações ultrapassou 44 bilhões de transações, movimentando mais de R$ 17 trilhões, segundo dados do Banco Central.
REPERCUSSÃO INTERNACIONAL
A revista “The Economist” chamou o Pix de “a revolução silenciosa que digitalizou o dinheiro de um país inteiro”, e o “Financial Times” o descreveu como “o sistema de pagamentos instantâneos mais bem-sucedido do mundo em adoção popular”.
O feito é ainda mais impressionante considerando o contexto: criado por um nordestino, formado em uma instituição pública, liderando um projeto nacional dentro de um órgão estatal sem lobby bancário, sem capital estrangeiro e sem interesses políticos diretos.
Hoje, mais de 150 países estudam o modelo brasileiro. Índia, México, Colômbia e até os Estados Unidos já analisam relatórios técnicos do Banco Central do Brasil para adaptar o formato às suas realidades.
ADEUS, PAPEL
Dados da Fundação Getulio Vargas apontam que o Pix reduziu em até 70% o uso de dinheiro físico no país e gerou economia de bilhões em tarifas bancárias para a população.
Ângelo Duarte não se tornou uma celebridade, mas seu legado é comparável ao dos grandes inventores da era moderna.
Em 2025, o Pix é utilizado por mais de 150 milhões de brasileiros, com um volume de transações que supera todos os cartões de crédito e débito do país juntos.
O que nasceu da mente de um engenheiro nordestino é hoje motivo de orgulho nacional e símbolo da capacidade do Brasil de criar soluções de impacto global.
De um pequeno município cearense ao comando de uma revolução financeira, Ângelo Duarte mostrou que inovação não depende de origem, mas de visão, competência e coragem.
Ele não apenas criou o Pix, ele redefiniu o conceito de dinheiro.
Por Jairo Eduardo. Ele é jornalista, editor do Pitoco e assina essa coluna semanalmente no Jornal O Presente
pitoco@pitoco.com.br
