O Presente
Tarcísio Vanderlinde

A máxima de Rupertus Meldenius

calendar_month 6 de março de 2026
3 min de leitura

A crítica textual em relação aos antigos manuscritos bíblicos costuma flagrar deslizes considerados “erros textuais” ou “erros escribais”. O trabalho normalmente é feito contrastando diversas traduções que funcionam como um filtro para detectar erros. A maioria das traduções modernas utiliza notas de rodapé para esclarecer o leitor quando a passagem é difícil ou pode conter um erro de escriba.

Variadas traduções refletem diferenças de opinião sobre qual manuscrito preserva a melhor leitura. O anacronismo de termos, palavras que vão ficando fora de uso, costuma estimular novas traduções. A Nova Versão Internacional (NVI), por exemplo, tradução muito utilizada nos dias atuais, leva em conta manuscritos hebraicos encontrado nos Rolos do Mar Morto, além de se apoiar na tradução grega conhecida como a Septuaginta, a Vulgata latina e a Siríaca, também chamada Peshita.

A maioria dos questionamentos, sejam de copistas ou tradutores, costumam envolver pequenos detalhes nos textos. Quem se aventura pelo texto bíblico carece de estar atento às dúvidas que acabam sendo suscitadas por determinado versículo. Conclusões equivocadas podem ser evitadas a partir da análise de significados culturais da expressão duvidosa ou do contexto onde determinado versículo esteja inserido.

Avaliadores do texto bíblico na Nova Versão internacional (NVT), concluem que existem boas razões para acreditar que a maioria das traduções hoje disponíveis, refletem com fidelidade, embora jamais com perfeição, o que os profetas e outros autores da Bíblia escreveram originalmente. A presença de erros escribais não constitui motivo para considerar a Bíblia indigna de confiança.

Muito mais complexo do que discutir erros escribais, é navegar entre as teologias que emergem de interpretações exclusivistas a partir do que texto bíblico nos fornece. Posições consideradas mais ou menos consensuais pela maioria dos cristãos, não impediram que interpretações consideradas heréticas chegassem aos nossos dias.

Pela condição humana, o diálogo nem sempre é fácil, mesmo entre os que se aproximam teologicamente. Mais do que teologia, existem territórios a serem preservados. A unidade quase sempre esbarra em algo. Precisamos ser honestos em admitir que muitas vezes temos dificuldade em abrir mão de “dogmas” que acreditamos serem as únicas possibilidades conclusivas sobre qualquer assunto. A história nos lembra sobre o extermínio de milhões de pessoas decorrentes de interpretações particulares de textos sagrados, algo que infelizmente permanece no tempo delicado de nossa existência. Sem sensibilidade, e um mínimo de tolerância, é difícil progredir de forma civilizada neste campo.

O escritor José Carlos Marion tem publicado textos sobre unidade e pontes que podem ser construídas entre as diversas correntes cristãs. O autor cita uma frase com princípios de convivência, que muitos consideram de Santo Agostinho, mas que segundo ele, teria sido cunhada de fato por um teólogo luterano alemão durante o século XVII chamado Rupertus Meldenius: “No essencial, unidade; no não essencial, liberdade; em todas as coisas, caridade” (MARION, 2025, p. 30).

Meldenius teria escrito a máxima em um tratado publicado em 1627, num contexto de grandes conflitos religiosos entre protestantes e católicos na Europa, durante a guerra dos Trinta Anos, período em que se estima que cerca de oito milhões de pessoas tenham perecido.

A atemporalidade de Meldenius se eterniza como um pressuposto saudável nos tempos em que o ódio e a barbárie ameaçam sufocar o entendimento respeitoso requerido entre seres, que, em sua intimidade, ainda ousam considerar terem sido gerados a imagem do Eterno.  

 Imagem: A máxima de Rupertus Meldenius interpretada por IA

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.

tarcisiovanderlinde@gmail.com

@tarcisio_vanderlinde2023

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