Na visão de Justo Gonzales, investigador especializado em história do cristianismo, Lutero aparece como um homem por vezes rude, mas também erudito, cujo impacto se deveu a dar à sua erudição uma conotação e aplicação populares. Era indubitavelmente sincero até a paixão e frequentemente vulgar nas suas expressões. Sua fé era profunda e nada lhe importava tanto, como ela. Quando se convencia de que Deus queria que tomasse certo caminho, o seguia até as últimas consequências e não como alguém que, pondo a mão no arado, olha para trás.
Seu uso da linguagem, tanto o latim como o alemão, era considerado magistral, ainda que, quando um ponto lhe parecia ser de grande importância, ele reprisava até o exagero. Uma vez convencido da verdade da sua causa estava disposto a enfrentar os mais poderosos senhores do seu tempo. Porém essa mesma profundidade de convicção, essa paixão, essa tendência ao exagero, o levaram a tomar atitudes que depois ele e seus seguidores tiveram de deplorar.
Por outro lado, o impacto que Lutero causou, se deve em boa parte às circunstâncias que estavam fora do alcance de sua mão e das quais ele mesmo frequentemente não percebia. A invenção da imprensa fez com que suas obras fossem difundidas de uma maneira que tinha sido impossível fazê-lo poucas décadas antes. O crescente nacionalismo alemão, de que ele mesmo era até certo ponto participante, se prestou a ser um apoio inesperado e muito valioso.
As circunstâncias políticas no começo da Reforma, foram um dos fatores que impediram que Lutero fosse condenado imediatamente, e, quando por fim as autoridades eclesiásticas e políticas se viram livres para agir, já era demasiadamente tarde para calar o seu protesto.
Nos últimos anos, devido em parte ao novo espírito de compreensão entre os cristãos, os estudos sobre Lutero têm sido muito mais equilibrados, e tanto católicos como protestantes se têm achado na obrigação de corrigir certas opiniões formadas, não pela investigação histórica, mas pelo fragor da polêmica.
Ao concluir, Gonzales observa que, no tempo presente, são poucos os que duvidam da sinceridade de Lutero e que há considerável contingente de não-luteranos que concordam que o protesto do monge agostiniano foi mais do que justificável e que em muitos pontos tinha razão. Paralelamente a isso, seriam poucos os historiadores protestantes que seguem vendo em Lutero um herói sobre-humano que reformou o cristianismo por si só e cujos pecados e erros foram de menor importância. Poucos personagens da história do cristianismo teriam sido discutidos tanto ou tão calorosamente como Martinho Lutero.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
tarcisiovanderlinde@gmail.com
@tarcisio_vanderlinde2023
👉 Quer ler mais artigos do Tarcísio? Clique aqui.
