Embora fosse contemporâneo de Jesus, não existe qualquer comprovação histórica que o filósofo Lúcio Aneu Sêneca tenha se encontrado em algum momento com o Mestre. Nascido em Córdoba, província romana de Hispânia, Sêneca viveu e atuou a maior parte de sua vida em Roma. Jesus desenvolveu seu ministério predominantemente na Galileia e Judeia durante os breves anos que fisicamente esteve por aqui.
Há especulações, entretanto, de que o filósofo poderia ter trocado correspondências com o apóstolo Paulo, que durante seus últimos anos de vida, esteve encarcerado em Roma, onde sofreria martírio. Como se verá, muito do que o pensador defendia, entra em convergência com ensinos e condutas naturalmente adotadas pelas comunidades cristãs desde sua existência.
Sêneca se definia como filósofo estoico, ou seja, alguém que vive segundo os princípios do estoicismo, uma filosofia da Grécia Antiga que prega resiliência, razão e serenidade diante das adversidades. Com enfoque no que se pode controlar, aceita o inevitável, sem se abalar por paixões e sofrimentos. O desenvolvimento desses princípios aparece em um dos clássicos mais comentados do filósofo: “De Brevitate Vitae” (Sobre a Brevidade da Vida).
Trata-se de uma reflexão densa sobre o tempo, a existência humana e o modo como desperdiçamos nossos dias. Para Sêneca, a vida não é curta por natureza; ela se torna breve porque as pessoas a dilapidam em ocupações fúteis, paixões desordenadas e ambições vazias. Sua crítica permanece surpreendentemente atual, sobretudo em uma sociedade marcada pela pressa constante e pela distração contínua.
Segundo o filósofo, muitos se queixam de que a vida passa rápido demais, mas raramente assumem responsabilidade pelo uso que fazem do tempo. Ele observa que as pessoas vivem como se fossem imortais: adiam o essencial, entregam-se a tarefas que não trazem sentido duradouro e se deixam absorver por compromissos impostos por outros. Assim, ao chegar a velhice, percebem que realmente viveram pouco, embora tenham estado ocupadas o tempo todo. O problema não seria a falta de tempo, mas a má administração dele.
No pensamento de Sêneca, o tempo é o bem mais precioso, justamente por ser o único que não pode ser recuperado. Dinheiro, poder ou prestígio podem ser perdidos e reconquistados; o tempo, não. Ainda assim, paradoxalmente, é o recurso que as pessoas entregam com maior facilidade. O filósofo critica aqueles que protegem seus bens materiais com zelo extremo, mas permitem que qualquer um roube horas e dias de suas vidas sem resistência.
O pensador também alerta contra a escravidão das paixões, como a busca incessante por status, fama ou prazer. Essas paixões, além de instáveis, mantêm o indivíduo sempre projetado no futuro, incapaz de viver o presente com lucidez. Para o estoico, a serenidade nasce quando a pessoa aprende a aceitar os limites da vida e a concentrar-se no que está sob seu controle: suas escolhas, seus valores, sua conduta.
Críticos concordam que a obra do filósofo não é um lamento pessimista, mas um chamado à responsabilidade existencial. Sêneca, de fato nos convida a despertar da sonolência cotidiana e a recuperar o domínio sobre o nosso tempo. Ao fazê-lo, descobrimos que a vida pode ser suficientemente longa – não em quantidade de anos, mas em profundidade e sentido.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
tarcisiovanderlinde@gmail.com
@tarcisio_vanderlinde2023
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