Tudo pode começar com uma inocente pesquisa na internet, para ser habilmente capturado pelos algoritmos, e, ser jogado sequencialmente em assuntos que sequer tínhamos imaginado ao começar a navegar. A sedução tóxica passou a ser conhecida como Infinite Scroll (rolagem infinita), prática capaz de levar ao Brain Rot (podridão cerebral).
Brain Rot é de fato um termo pesado, infelizmente verdadeiro, que descreve a deterioração cognitiva causada pelo consumo excessivo de conteúdos superficiais e pouco estimulantes associados ao uso compulsivo das redes sociais, especialmente ao hábito de gastar tempo em futilidades no Infinite Scrolling. A situação pode ser considerada dramática considerando que a boa parte dos assuntos superficiais, sequer são verdadeiros.
Com o avanço da IA a rolagem infinita nas redes sociais se sofisticou tornando-se uma nefasta armadilha do mundo digital contemporâneo. Embora tenha sido criada para facilitar a navegação e manter o usuário constantemente atualizado, a funcionalidade acabou se transformando em um mecanismo eficaz de captura da atenção humana. O que antes era apenas uma forma prática de acessar conteúdos novos, tornou-se estratégia para prolongar o tempo de uso, influenciar comportamentos e moldar hábitos de consumo online.
À medida que o “pesquisador” desce a tela, novos conteúdos surgem automaticamente, sem a necessidade de clicar em links ou carregar novas páginas. A rolagem mantém o cérebro em um estado de expectativa constante. Nunca se sabe qual será o próximo conteúdo – pode até ser algo irrelevante ou pode ser exatamente aquilo que desperta curiosidade, humor ou emoção. É semelhante a imprevisibilidade viciante que caracteriza os jogos de azar.
A rolagem infinita se aproveita da dificuldade humana em lidar com interrupções autoimpostas. Assim, como é mais fácil continuar assistindo ao próximo episódio quando ele começa automaticamente, também é mais difícil parar de navegar em assuntos que não tem um fim claro. Sendo assim, minutos se transformam em horas, e o usuário, sem perceber, perde tempo que poderia ser dedicado a atividades mais construtivas. Não é difícil concluir que a rolagem infinita pode interferir negativamente na saúde mental do usuário.
Outro ponto nevrálgico é saber que a rolagem infinita fortalece a lógica dos algoritmos que priorizam conteúdos que geram engajamento, não necessariamente conteúdos que informam, educam ou enriquecem. Isso cria bolhas de informação, reforça intenções e amplifica emoções, como indignação ou euforia, que mantêm o usuário ativo por mais tempo. O desenho da plataforma influencia diretamente o modo como as pessoas pensam, consomem notícias e percebem o mundo.
Reconhecer que a rolagem tem o potencial de nos tornar zumbis de telas, parece um bom passo para escapar da situação. Estratégias como definir limites de tempo, desativar notificações, reorganizar telas iniciais e substituir hábitos automáticos por atividades conscientes podem ajudar a reduzir o impacto desse mecanismo. Da mesma forma, a pressão por desenhos digitais mais éticos tem crescido, incentivando entidades a repensarem práticas que exploram a vulnerabilidade dos usuários.
A rolagem infinita não é uma mera ferramenta de navegação: é um espelho de como a tecnologia pode influenciar o comportamento humano. Com consciência e equilíbrio, contudo, é possível utilizá-la sem se tornar refém. Uma vida presa em rolagem infinita destituída de afeto, cedo ou tarde costuma nos decepcionar. Por que? A resposta é mais ou menos obvia: Admite-se que possamos ter sido feitos para acessar a verdade. E quando ela nos falta, sofremos.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
tarcisiovanderlinde@gmail.com
@tarcisio_vanderlinde2023
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