Há duas passagens bíblicas que mencionam explicitamente que Jesus chorou. Uma delas foi quando soube da morte do amigo Lázaro. A outra, quando olhando para Jerusalém, profetizou sobre sua destruição e lamentou sua incredulidade. Mas Jesus possivelmente tenha chorado em outros momentos, embora isso não apareça objetivamente nas narrativas. O livro de Hebreus observa que Jesus chorou em oração e súplica nos dias de sua vida na terra.
O choro acompanhado de lamento carrega uma natureza humana e outra divina. Choramos quando perdemos uma pessoa amada. Abraão chorou por Sara, e o rei Davi lamentou profundamente a morte do filho Absalão apesar de ele ter conspirado contra ele. O evangelho de Lucas indica a existência de pranteadores profissionais no funeral de uma menina.
Em livro homônimo, Jó lamentou repetidamente as perdas que sofreu. No caso dele, calamidades pessoais de vários tipos, como mortes de pessoas amadas, perda de riquezas, de status e doença: “Quando eu esperava o bem, veio o mal; quando eu procurava luz, vieram trevas”.
A tradição do luto ritual e a composição de lamento também são encontradas em outros lugares do mundo antigo. Alguns textos funerários egípcios tendem a contemplar a vida após a morte, porém os funerais egípcios eram executados por meio de elaboradas cerimônias.
Um curioso poema acádio lamenta uma mulher que morreu durante o parto, na perspectiva da morta. A mulher se queixa pelo fato de ter sido levada pela morte de maneira repentina para longe de sua casa e ressalta de modo comovente o sofrimento do marido pela morte dela. No mundo grego, as canções fúnebres eram entoadas sobre o morto, e os funerais eram muito bem elaborados, como pode ser percebido em várias passagens da Ilíada, da Odisseia e das tragédias gregas.
O livro de Lamentações, cuja autoria é atribuída ao profeta Jeremias, é constituído por uma série de canções de lamento pela destruição de Jerusalém ocorrida em 586 a.C. O livro continua sendo lido nos dias atuais diante do Muro das Lamentações, único remanescente visível das edificações relacionadas ao templo definitivamente destruído pelos romanos em 70 d.C.
Exemplos de lamentos sobre cidades, podem ser encontrados também na literatura Suméria de modo a lembrar as lamentações de Jeremias. Apesar das semelhanças, críticos consideram como improváveis as ligações diretas entre o texto de Jeremias e os equivalentes sumérios. As manifestações enfim, fazem parte de uma ampla tradição literária e refletem a resposta humana universal à calamidade e ao sofrimento.
Numa perspectiva cristã, há, contudo, uma luz ao final do túnel. Não obstante ao sofrimento, o livro do Apocalipse traz uma promessa que enche de esperança aquele que crê: “Ele lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. Todas essas coisas passaram para sempre”.

Por Tarcísio Vanderlinde. O autor pesquisa sobre povos e culturas do Oriente Médio.
tarcisiovanderlinde@gmail.com
@tarcisio_vanderlinde2023
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