O futebol tem tradição em Marechal Cândido Rondon, e não é só em função dos clubes que disputam competições esportivas. Isso se deve também aos grupos de amigos que se reúnem semanalmente, pela amizade e “cornetagem”, para “bater” uma bola.
O primeiro deles foi criado entre as décadas de 70 e 80: a Associação Atlética Amigos do Confúcio (3AC). De lá para cá, muitos outros foram fundados. Nos encontros semanais, não há necessidade de ser um exímio jogador de futebol, de campo, suíço e futsal. O que vale mesmo é a confraternização, as piadas, as análises dos lances, além da famosa “cornetagem”, que torna as reuniões esportivas animadas e descontraídas.
Fora das quatro linhas, a regra é básica: bom-humor, acima de tudo. Para os boleiros amigos, o que menos importa é o futebol; o que conta de verdade é a amizade.
Em entrevista ao O Presente, dirigentes de seis grupos revelam histórias e destacam fatos de suas equipes, as quais somam muitos anos de jogo e confraternizações.
Sociedade Esportiva Lucros e Perdas (Selup)
A ideia de criar a conhecida Sociedade Esportiva Lucros e Perdas (Selup) surgiu em uma reunião do Rotary Club, em 08 de outubro de 1976. O presidente do clube, Carlos Alberto Rodrigues (Bolinha), lembra que os jogos, no entanto, começaram em 1977, até que em 1979 o proprietário da Reveral, Írio Jacob Welp, que também fazia parte do time, cedeu gratuitamente a quadra de futsal da empresa. “Jogamos lá até meados do ano passado, quando passamos a praticar futsal na quadra da Congregação Cristo. Nosso compromisso é toda terça e quinta, das 19 às 20 horas, com mensalidade de R$ 20. Já o jantar é patrocinado por dois membros”, explica.
O grupo está formado por cerca de 25 amigos, com idade média dos 35 aos 70 anos.
Bolinha diz que o único episódio de indisciplina registrado ocorreu 15 anos atrás, sendo que mais tarde a pessoa pediu para sair da equipe. Ele relata que durante dois anos atuou como goleiro, mas como levou muita pancada, inverteu a posição. “Decidi distribuir ‘pancada’, no bom sentido. Ou seja, fui para a posição de pivô”, brinca.
Profissional da contabilidade, Bolinha arquiva em dezenas de agendas os principais registros da Selup. Ele relembra com saudosismo que o primeiro gol foi marcado em 17 de outubro de 1979, na época no Clube Roda D’Água. Até a última terça-feira (24), o veterano tinha catalogado 10.040 gols na sua carreira. “O gol dez mil foi marcado há um ano e meio, não me lembro de cabeça o goleiro, mas Gilson Metz passou a bola. Nas épocas áureas cheguei a marcar 40, 50 gols por mês, o que serviu de incentivo para eu anotar”, revela.
Bolinha menciona que a amizade é o que importa para o grupo, primando pelo companheirismo. E o segredo para praticamente 41 anos de convivência saudável está na boa distribuição do grupo. “Temos pessoas que trabalham em todas as áreas, até aposentados, e com faixa etária acima dos 30, 40, 50, 60 e alguns acima dos 70 anos”, expõe.
Para ingressar geralmente um membro convida o potencial candidato, que é avaliado por dois meses por membros de um conselho. “Se jogar como desejamos e brincar, daí convidamos oficialmente, sendo que o novo membro paga um jantar aos sócios. Além disso, temos regras como não xingar ou falar palavrão, o que gera suspensão. Dessa forma temos uma relação muito saudável”, aponta.

Associação Os Milionários
O Clube Milionários foi instituído na década de 1970 com futsal no Concórdia, até que uma nova leva de pessoas entrou no clube em meados de 1980, jogando no Concórdia e onde mais tivesse quadra. Segundo o presidente do clube, Rogério Grenzel, o início da configuração do clube até chegar aos dias atuais se deu em 1984, em média. “Nessa época assumimos o campo que era do Doutor Confúcio (Ailson Confúcio de Lima), em frente ao Hospital Rondon. Lá começamos a jogar futebol suíço e ficamos até comprar a área onde estamos hoje, adquirida da Apron (Associação dos Professores). A construção foi iniciada a partir de 1985 e é onde até hoje jogamos suíço em dois campos. Como a maioria deixou o clube porque parou de jogar, podemos dizer que são três gerações jogando futebol suíço. Sou um dos sócios mais antigos, o meu filho (Tiago) já jogou, assim como filhos de outros sócios já jogaram”, salienta.
Grenzel lembra que na época do campo do Confúcio as despesas eram rachadas, contudo quando decidiu-se pela construção da sede própria foi instituída mensalidade com chamada de capital em que todo mundo contribuiu. “Os sócios mais antigos contribuíram com valores muito elevados para construir a sede. A partir da Associação Os Milionários foi instituído que teríamos 52 sócios patrimoniais, o que se mantém até hoje, além de 30 sócios contribuintes. Temos atividades em uma sede muito bonita, uma área privilegiada, praticamente no centro da cidade, com dois campos de futebol suíço, instalações e sauna. Toda sexta-feira dois sócios pagam o jantar após o jogo”, comenta, emendando que interessados em se tornar sócios podem contatar com membros do clube.
As datas escolhidas para os jogos foram segunda e sexta, das 19 às 20h30 ou 21 horas. “Quando o futebol era apenas na sexta a gente assava bisteca numa churrasqueira de lata e tomava chope, daí dividia despesa, então jogava futebol e rebatida até duas, três horas da madrugada. Esse é um ponto que os membros antigos gostam de lembrar. Algumas vezes as mulheres não acreditavam que a gente jogava rebatida até de madrugada”, conta.
Além disso, a Associação Os Milionários viaja uma ou duas vezes por ano para assistir ao Gre-Nal ou ao jogo de um destes times, pois a maioria dos sócios é gremista ou colorado. Organizado, o grupo realiza promoções ao longo do ano para manter a estrutura em dia.

Associação Atlética Amigos do Confúcio (3AC)
Grupo criado em homenagem ao médico Ailson Confúcio de Lima, primeiro proprietário do Hospital Rondon. O presidente da Associação Atlética Amigos do Confúcio (3AC), Jorge Eckert, conta que os jogos foram iniciados no campo situado na quadra em frente ao Hospital Rondon, por um grupo de amigos do doutor Confúcio. Não há data oficial, mas foi entre a década de 1970 e 80.
“Não me recordo a data exata, podendo ter sido em meados de 1983 ou 1984. Começou lá até que uns quatro anos depois veio para a sede atual do 3AC. Como eu ingressei mais tarde, há 19 anos, acredito que o 3AC deve reunir três sócios-fundadores, sendo a maioria membros mais novos. Temos 55 sócios no total, sendo 30 patrimoniais e 25 contribuintes”, explica.
Os jogos são realizados todas as terças e quintas-feiras, geralmente a partir das 18 horas, distribuindo as partidas em dois tempos de 50 minutos cada, exclusivamente no futebol suíço. “Dizem que um dos fundadores seria o médico Confúcio, que teria convidado seus amigos, que depois adquiriram a sede para levar adiante este sonho. O principal motivo de se reunir é para jogar futebol, que por consequência leva à amizade e à cornetagem. Depois do futebol jogamos truco, conversamos, contamos piadas, comemos uma carne e tomamos cerveja”, detalha.
Além disso, uma curiosidade é que todo fim de ano são entregues prêmios de maior perdedor, maior ganhador, maior goleador, goleiro menos vazado e o mais corneteiro. “Todo mundo recebe um mimo do clube para incentivar esse entrosamento”, enaltece, emendando que a cada duas quintas-feiras é servido jantar patrocinado por dois sócios, que rateiam as despesas.
Uma observação é o sarro, pois a cornetagem é livre: “o cara nem joga bola de tanta cornetagem. Quem está fora só corneteia e se o jogador der um chapeuzinho ou meter a bola no meio da caneta, daí para e entrega para outro e em alguns casos o pessoal manda comprar uma redinha porque não aguenta até o final. É um clima muito gostoso. Acho que essa gozação mantém o grupo unido durante e após o jogo”, avalia.
Eckert diz que o ingresso no 3AC é permitido mediante convite apresentado por um sócio patrimonial, mas, como existe limite de 55 membros, o clube está na quantidade máxima de associados. Outra questão diz respeito a algumas regras, pois eventual caso de indisciplina é levado à comissão de ética que aplica uma pena séria, de 15 a 30 dias sem jogar. “São raros os casos como este, pois o clima de conversa, amizade e descontração é muito legal, tanto que ninguém marca compromisso nos dias dos jogos. Quem não participa de um encontro diz sentir falta desse clima de amizade e descontração, ou seja, hoje é uma necessidade”, ressalta.

Clube dos Amigos da Terça e da Sexta (CATS)
Um dos diversos grupos de futebol criado sem a intenção de formar uma equipe competitiva foi o Clube dos Amigos da Terça e da Sexta, carinhosamente apelidado de CATS. O presidente do clube, Wilmar Güttges, lembra que a ideia surgiu em 1998 através do então gerente do Banco do Brasil, chamado Valcurione, com a finalidade de reunir os amigos nas noites de sexta-feira para se divertir e jogar futebol sem a preocupação de ganhar e depois, claro, saborear uma carne, tomar uma cerveja e confraternizar. O grupo fundado tinha 12 pessoas e os jogos aconteciam na Associação Atlética Banco do Brasil (AABB).
“Registramos na mente alguns fundadores que estão desde o início nessa brincadeira: eu, Rui Basso, Arno Kunzler, José Marques Louro e o Polaco (Clair Skrosk), da Autoelétrica, que não joga, mas participa ativamente das festas. Nós não tivemos a preocupação de registrar fatos inusitados, tanto que temos poucas fotografias”, aponta.

Terça Futebol Clube (TFC)
Um dos clubes mais jovens entre os veteranos é o Terça Futebol Clube (TFC), criado no ano de 2004 com a finalidade de jogar futebol e promover confraternização entre amigos. Conforme o vice-presidente do TFC, Claudio Köhler (Claudinho), nesses 14 anos cerca de três pessoas saíram por razões particulares, como mudança de cidade. “A gente se reúne todas as terças-feiras com o principal objetivo de jogar futebol e se divertir, sendo que há vários anos dois integrantes organizam o jantar aos demais componentes, assim como aos convidados”, relata.
Ao longo desse tempo os jogos aconteceram em vários locais: Xande Sports, Arena Society até chegar na sede dos Técnicos Agrícolas.
“Quando começou em 2004, sem diretoria e conselho, tinha de 15 a 25 pessoas frequentando as terças-feiras. A partir da organização com conselho, diretor esportivo e presidente, o clube está bem estruturado e organizado, somando 28 membros ativos”, explica Claudinho. Ele acrescenta que o critério é algum integrante levar o seu convidado e depois esse nome é colocado à apreciação. Se não houver nada contra, esse convidado fica inserido no grupo. “Há uma mensalidade para custear despesas como locação do espaço e investimentos em material esportivo. Temos dois eventos anuais, como o Almoço da Picanha, realizado entre setembro e outubro, e o tradicional Boi no Rolete, na Festa do Município. Além do mais, todo fim de ano a gente procura fazer uma ação social contribuindo com uma entidade, que é aprovada pelo grupo”, enfatiza.

Clube dos Amigos das Segundas e Quintas (CASQ)
Roberto Nassar veio com sua família a Marechal Cândido Rondon no ano de 1997 trabalhar como professor da Unioeste e no ano seguinte, 1998, sentiu a necessidade de entrar em um grupo visando formar um novo círculo de convivência. “Fiz amizade com o Wilmar Güttges e com outras pessoas fundamos um clube para jogar nas sextas-feiras, o que depois também incluiu a terça-feira”, diz, destacando ter sido um dos criadores do atual CATS.
“Em 2012 eu senti a necessidade de me retirar para formar outro grupo, porque o CATS havia crescido muito, então eu fundei o CASQ – Clube dos Amigos das Segundas e Quintas. É um grupo heterogêneo, com pessoas de todos os segmentos da sociedade, importante para estabelecer relação de amizade e evidentes momentos de descontração. A vida já é tão complexa, estabelece normas e regras que você deve obedecer porque a sociedade vive dessa forma, e a gente sente necessidade de ter momentos de conversar, bater papo, falar sobre mulheres, futebol e política”, expõe Nassar.

Confira a reportagem completa na edição impressa do Jornal O Presente desta terça-feira (1º).