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Rondonenses projetam cenário esportivo pós-pandemia do coronavírus

calendar_month 28 de abril de 2020
10 min de leitura

O coronavírus tem provocado mudanças em todos os segmentos da economia e afetado o convívio social em praticamente todo o planeta. No setor esportivo, as restrições impostas para conter o avanço da Covid-19 também impactaram as atividades. Competições foram adiadas, outras canceladas e os treinamentos suspensos.

Seja em ginásios, estádios ou outras praças o esporte vive de receita proveniente de público nas bilheterias e outros ganhos com venda de bebida e lanche, mas principalmente movimenta recursos consideráveis com publicidade e propaganda, além de patrocínios e salários pagos aos jogadores e dirigentes.

Nomes de expressão no cenário esportivo, o narrador e apresentador Andeson Picolo, do Picolo Esporte Clube, e o ex-bandeirinha e ex-árbitro de futebol Roberto Braatz, em entrevista ao O Presente, fazem uma análise deste cenário inédito e inesperado. Eles avaliam o aprendizado que o período de pandemia do coronavírus deixará para o esporte e projetam o que esperar do futuro.

 

MENOS RIVALIDADE

Picolo entende que o segmento esportivo vai perder demais em termos financeiros. “Os clubes passam por muitas dificuldades. No futsal as equipes profissionais do Estado estão sem trabalhar, patrocinadores retiraram patrocínio porque você não tem como retornar mais aquilo que foi combinado. Não temos previsão de quando as competições serão retomadas, porém acredito que antes de agosto isso não deve acontecer”, opina. “Baseado em tudo isso, nesse reflexo, o que fica de aprendizado é algo mais interior. Penso que como cidadãos vamos aprender a ter uma relação mais tranquila com o próximo, verificar quanto faz falta um simples aperto de mão. No setor esportivo, onde há muito contato, em que somos passionais e o torcedor vive a emoção, aí essa situação deverá ser dimensionada de forma diferente”, pontua.

O legado da pandemia, avalia o narrador e apresentador, estará na relação interpessoal entre os desportistas. “A rivalidade menos acirrada consequentemente transborda para fora das quatro linhas em uma situação que imagino positiva. Casos de torcedores que sempre protagonizaram brigas nos acessos aos estádios, um exemplo é em São Paulo onde há torcida única, o que deixa de abrilhantar o espetáculo, isso pode ser um caminho para a diminuição. Talvez o legado seja diminuir brigas, vítimas e ter uma torcida um pouco mais sadia. Dentro das quatro linhas tudo vai depender da saúde financeira de cada clube”, salienta.

 

COMPETIÇÕES

Em relação às competições, Picolo imagina que a Copa do Brasil não sairá tão prejudicada, pois é mais rápida e em formato mata-mata. “Não exige calendário extenso. Já os Estaduais não deveriam ser concluídos como o regulamento previa. Neste caso, dá-se os títulos a quem venceu a 1ª fase, Caxias campeão do 1º turno do Campeonato Gaúcho, Flamengo campeão da Taça Guanabara e Santo André no Paulista. Não teremos datas e acho que seria proibido menos de 66 horas em campo, mas estão tentando. Assim ainda teríamos possibilidade de realizar 38 rodadas no Campeonato Brasileiro”, expõe.

Uma modalidade com muitos adeptos no Paraná é o futsal. Caso não ocorresse a paralisação, a Federação estaria realizando o Paranaense Série Ouro. “Como tem mais tradição e a Federação Paranaense está oferecendo via parceria com Sicredi, uma situação que nunca foi oferecida antes para os clubes, o ideal seria acontecer a Série Ouro e a Liga Futsal Paraná ver com os clubes se essencialmente teríamos condições de realizar a competição neste ano”, sugere, emendando: “A Liga Nacional inicialmente foi adiada, depois foi dito aos clubes não ter data para começar. Se mantiverem 20 ou 21 clubes no formato todos contra todos e depois mata-mata aí fica impossível. Isso pode ser revisto, pois as secretarias estaduais e municipais de Saúde deverão ser consultadas, pois a maioria dos ginásios são dos municípios. Os clubes teriam de conseguir uma anuência, o que não será fácil porque cada prefeito pensa diferente”.

 

Narrador e apresentador Anderson Picolo, do Picolo Esporte Clube: “O legado que teremos desta pandemia estará na relação interpessoal entre os desportistas, com rivalidade menos acirrada, o que, consequentemente, vai transbordar para fora das quatro linhas em uma situação que imagino positiva” (Foto: Joni Lang/OP)

 

MARECHAL

O recém-criado Marechal Futsal, sob a direção da Jaclani Futuro, iria estrear na Série Ouro quando foi anunciada a paralisação da equipe em virtude da prevenção ao novo coronavírus. “Houve negociação com atletas e remanejamento, a partir da aceitação da maioria. O que digo aos patrocinadores é para quem puder, que mantenha o patrocínio para que as equipes voltem fortes quando as competições forem retomadas. Quem não puder deve negociar porque ninguém coloca dinheiro sem ter, pois o comércio ficou fechado. A preocupação é como os clubes vão se manter, o que hoje ainda é prematuro”, enaltece Picolo.

No que tange à Copagril Futsal, que em novembro anunciou a suspensão do projeto profissional, o narrador esportivo diz se tratar de uma decisão que gostaria que não tivesse sido acertada. “Não gostaríamos de estar vivendo essa pandemia que no país assola principalmente São Paulo e de maneira devastadora outras partes do mundo. Talvez tenha sido momento para refletir visando daqui um ano, dois anos restabelecer o projeto em parceira com o Marechal Futsal e voltar a uma Liga Nacional, pois hoje ficou uma lacuna”, avalia.

 

REDUÇÃO

Conforme Picolo, o reflexo financeiro no esporte é evidente, em especial no futebol. “É palpável. Os clubes remanejam gastos no mundo todo. Acredito nos próximos anos numa redução para recuperar perdas deste ano. Deve haver consenso entre clubes, dirigentes remunerados, comissão técnica e atletas. Talvez isso faça nosso país ter uma realidade, pois não podemos imaginar jogador e treinador ganhando R$ 700 mil a R$ 1 milhão no país, então ou o atleta se adapta ou fica sem clube para jogar. Não adianta dez ou 12 clubes pensarem assim e Palmeiras e Flamengo pagarem salários exorbitantes, porque não há mercado lá fora para todos esses jogadores. Isso reservado às devidas proporções valerá ao futsal, basquete, vôlei e outras modalidades. Acho que o valor vai diminuir para que possamos nos adaptar a uma realidade que seja proporcional àquilo que o nosso país tem hoje de saúde financeira”, evidencia.

Ele entende que no período pós-pandemia o público comparecerá em menor escala às praças esportivas, ao menos em um primeiro momento. “Haverá redução normal, pois o cidadão ficará receoso, mas vagarosamente retornará. Patrocinador reduz, folha de pagamento reduz porque terá menos torcedores. Esse consenso é a chave para que os clubes se adequem à realidade financeira do país. Como reflexão, temos de analisar o quanto nesse período nos fez falta a relação interpessoal, quanto está difícil não ter oportunidade de fazer o que fazíamos dez, 20 vezes ao dia que era apertar a mão. Passamos a Páscoa sem abraçar familiares, Dia das Mães será sem abraçar e cumprimentar em respeito às exigências de saúde”, ressalta.

 

BEM COMUM

Ex-árbitro assistente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e Federação Internacional de Futebol (Fifa), com atuação na Copa de 2010 na África do Sul, Roberto Braatz acredita que as equipes esportivas, ligas de futsal, futebol e de outras modalidades ficarão mais próximas e pensarão mais em um bem comum, com salários mais condizentes com a realidade no caso de atletas e dirigentes.

“Até então era individualizado, a exemplo do que era visto no Campeonato Brasileiro, com diferença de valores muito grandes. A tendência é dos clubes se preocuparem em como trabalhar as crises que virão, inclusive acredito que hoje pensam nisso. Um exemplo é a NBA (basquete norte-americano), que deve ter pré-temporada porque o dirigente pensa em vender um espetáculo. No Brasil o Santo André estava para chegar na elite do Campeonato Paulista há dois meses, mas hoje é um clube praticamente acabado. Isso porque por ser equipe menor os contratos são temporários, com três meses, diferente da elite, que possui contratos de um, dois ou três anos. Metade dos jogadores não possuem contratos, o clube não tem mais estádio, pois o prazo era quatro meses e não pode receber verba da CBF por não ter vínculo e não disputar nenhuma série. Essas questões serão repensadas sobre o que fazer para manter as bases”, analisa.

 

COMPROMETIMENTO

Em termos de comprometimento financeiro, Braatz afirma que o reflexo nas finanças é inevitável. “Um exemplo está em Rondon. O Marechal Futsal tinha elenco contratado, mas como mantê-lo? Cada um dentro da sua capacidade, mas isso é custo. Como manter e depois como retornar? Digo isso porque daqui a pouco alguém com estrutura melhor oferece outro contrato, então modifica todo cenário. Hoje vejo ser repensado o valor astronômico dos salários dos jogadores, principalmente os do topo, nível A. Em todas as equipes se fala em redução, mas se conseguir fazer as pessoas entenderem daqui a pouco é capaz dessa redução se perpetuar e gerar uma divisão de renda no futebol. Todavia, é um processo complexo, a exemplo de agora, quando dois sheiks compraram times ingleses, então a realidade é distorcida”, comenta.

Para ele, é possível que o futebol volte ao patamar de antes, mas quem sabe leve três ou quatro anos e provavelmente em uma realidade pé no chão. “Preciso estar bem agora, mas o dinheiro da televisão também não é mais suficiente por estar reduzido, ou seja, hoje o público é uma renda super importante garantida aos times. Quem sabe os clubes se tornarão mais sociais em breve. A tevê está com dificuldades e quer retornar, pois tem contratos, mas onde está esse dinheiro? Ele já não existe mais! Os Estaduais até podem voltar sem público, a CBF vai fazer protocolo de remanejamento sobre como realizar o acesso dos jogadores, contudo estará vinculado ao que as autoridades de saúde vão falar”, evidencia.

A expectativa é de que os campeonatos voltem com portões fechados para que possam ser realizados, opina Braatz. “Entre eu não ter dinheiro nenhum e ter o dinheiro da televisão, é melhor eu ter o dinheiro da televisão e muitos clubes já pegaram antecipado. No país provavelmente vão passar para televisões abertas para que a mídia e os patrocinadores tenham suas marcas visualizadas. Os Estaduais vejo bastante comprometidos. Um exemplo é o Paraná, com jogos só na Capital. Isso vai afetar a forma de fazer esporte como um todo no país e no mundo”, considera.

O ex-árbitro da CBF e da Fifa entende que os campeonatos de futsal podem ser realizados sem maior dificuldades por serem mais rápidos e melhor adaptáveis, todavia alerta: “Futsal com ginásio fechado é quase inviável, então acredito que terá menos público”.

 

Ex-árbitro assistente da CBF e Fifa, Roberto Braatz: “É possível que o futebol volte ao patamar de antes, mas quem sabe leve três ou quatro anos e provavelmente em uma realidade pé no chão. Quem sabe os clubes se tornarão mais sociais em breve” (Foto: Joni Lang/OP)

 

DISTRIBUIÇÃO

De acordo com ele, a CBF tem consciência de que os times pequenos revelam muitos jogadores em todas as competições. “Aí a CBF deve fazer como já houve no passado, de uma melhor distribuição de renda entre os filiados, como é observado na Copa do Brasil”, pontua.

Braatz sugere que as pessoas respeitem as exigências, mas não fiquem 100% inativas neste momento. “Que sigam com atividade física para fortalecer a saúde até a pandemia passar. Vemos que ainda há desinformação, contudo o Brasil é privilegiado por ser um dos grandes países que resolve esta situação com risco menor, menos infecção. Vamos repensar e sair fortalecidos. Estamos aprendendo a ver o mundo de forma diferente, sob um modo de vida e questão social mais próximo das pessoas”, finaliza.

 

O Presente

 

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