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03 de dezembro: dia de reflexão sobre o uso de agrotóxicos – por Juliane Vanderlinde Hort

calendar_month 7 de dezembro de 2018
7 min de leitura

 

Era meia-noite, e a cidade indiana de Bhopal estava adormecida, como em qualquer outra noite. As famílias humildes viviam ao redor de uma fábrica de químicos, da Union Carbide, uma multinacional americana fabricante de agrotóxicos. Os químicos produzidos tinham um componente letal: isocianato de metila (ICM). Devido à falta de manutenção, equipamentos de segurança desativados, e uma série de problemas existentes e ignorados desde o início do funcionamento da fábrica, uma das válvulas dos enormes tanques de ICM explodiu e a nuvem tóxica silenciosamente se espalhou sobre a cidade de Bhopal. Por volta da 01 hora da manhã, os moradores despertaram sentindo um forte cheiro, olhos ardendo, nauseados e com falta de ar. Era apenas o começo da trágica madrugada do dia 03 de dezembro de 1984.

Caos e pânico surgiram. Apenas por volta das 02 horas da manhã um alarme soou alertando a população que gritava nas ruas sobre o vazamento de gás da usina, mas era tarde demais. As pessoas não podiam enxergar e estavam sendo asfixiadas pela densa e silenciosa nuvem tóxica. As mães não sabiam que tinham perdido os filhos. E os filhos não sabiam que suas mães tinham partido. Os homens não sabiam que tinham perdido suas famílias.

Os corpos começaram a ser recolhidos ao amanhecer, por volta das 04 horas da manhã. Hospitais estavam lotados de sobreviventes que carregariam as sequelas pelo resto de suas vidas. O número de óbitos continuou subindo e em 72 horas já eram mais de oito mil mortos. Outros milhares morreram nos meses seguintes. O solo e as águas subterrâneas ficaram completamente contaminadas pelo ICM. Hoje o local da antiga fábrica de agrotóxicos está abandonado e acredita-se que mais de 150 mil pessoas sofreram sequelas e contraíram doenças como câncer, cegueira, danos no fígado e nos rins após a contaminação. Bhopal tem alta incidência de crianças com problemas congênitos e deficiência de crescimento, câncer e outras doenças crônicas. Nenhum funcionário de primeiro nível da Union Carbide foi julgado sobre o que aconteceu em Bhopal. O governo indiano pediu US$ 3,3 bilhões de indenização, mas a empresa concordou em pagar US$ 470 milhões, acordo finalizado na Justiça e cujo valor é considerado totalmente insuficiente (Fonte: BBC News Brasil, 2014).

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. A região Oeste do Paraná, de predominância agrícola, usa de forma exacerbada agroquímicos que podem colocar em risco a saúde humana. Agrotóxicos podem causar intoxicações agudas, cujos sinais e sintomas são enjoos, vômitos, dor de cabeça e mal-estar. Contribuem também para as intoxicações crônicas, que podem ocorrer ao longo de décadas e são caracterizadas principalmente pelos cânceres e depressão. A 20ª Regional de Saúde de Toledo, que abrange o município de Marechal Cândido Rondon, elaborou um plano estadual de atenção às pessoas expostas aos agrotóxicos, com a intenção de monitorar a população. Estamos em uma região agrícola, portanto todos estão expostos, desde trabalhadores rurais até residentes de áreas urbanas, vizinhos de campos de pastagens e lotes baldios, onde constantemente se observa as capinas químicas realizadas sem qualquer proteção de quem está trabalhando ou aviso prévio para a família que mora ao lado, por exemplo.

A utilização de agrotóxicos e a produção de sementes transgênicas revolucionaram a história da alimentação mundial. Com o discurso de que a fome no mundo seria solucionada, a artificialização da produção de alimentos trouxe consigo uma bagagem de problemas ambientais e de saúde pública. A produção convencional, em grande escala, também conhecida como monocultura, ofereceu benefícios econômicos significativos, aumentando a produtividade e rendimento alimentar, mas não acabou com a fome mundial. Evidências científicas sugerem que a utilização de agrotóxicos tem afetado negativamente a saúde do ser humano e do ambiente, pois as poderosas e resistentes moléculas dos agrotóxicos podem ser detectadas em todas as áreas ambientais, como o ar, a água e o solo. Estão se acumulando nas geleiras do Polo Norte há anos, e no corpo humano são capazes de ultrapassar a barreira que protege nosso sistema nervoso, penetráveis apenas por remédios de tarja preta. Ainda, as poderosas moléculas de agrotóxicos já foram detectadas no alimento mais precioso que existe na natureza, o leite materno.

Atualmente vivemos em um cenário em que a biotecnologia ultrapassou as expectativas e necessidades da humanidade. A produção de agrotóxicos, transgênicos, medicamentos, antibióticos, vacinas, anestesias e muitos outros produtos químicos e biológicos foram desenvolvidos e são indispensáveis no contexto atual. O que devemos buscar em paralelo à evolução dessas tecnologias é a reflexão do modo que são utilizadas e se temos, por exemplo, a clareza de suas consequências imediatas e futuras. Temos que pensar quais os riscos e benefícios que teremos ao utilizar a tecnologia, a exemplo dos antibióticos, que possuem horário e data para serem administrados, do contrário, o corpo pode desenvolver resistência, sendo necessária a administração de antibióticos cada vez mais fortes.

Conforme colocado por Alessandra Algeri, engenheira ambiental, o dia 03 de dezembro é um dia de reflexão a favor do uso consciente de agrotóxicos. Foi pactuado no Plano Regional de Atenção à Saúde das Populações Expostas aos Agrotóxicos a promoção de uma utilização sem excessos e quando realmente se necessita. Atualmente, a venda e uso de agrotóxicos é muito alta, e, pior ainda, é o uso de agrotóxicos já proibidos no país, adquiridos com facilidade em nossa região de fronteira. Estudos mostram que com o monitoramento de insetos e outras pragas é possível reduzir em mais da metade o uso de fungicidas e inseticidas, minimizando os custos e maximizando os lucros. É fundamental repensar o modelo atual de produção agrícola que prega o uso exagerado dos agrotóxicos. Devemos pensar em nossa saúde e de nossos filhos, pois a prevenção é sempre mais fácil, econômica e menos dolorosa que a remediação.

A produção orgânica de forma agroecológica, sem uso de agrotóxicos e transgênicos, ainda é uma realidade distante para muitos agricultores por envolver altos custos iniciais, maior necessidade de mão de obra e ainda uma grande restauração do solo e mudança na forma de produção. Não é fácil. A utilização consciente e correta do agrotóxico e o uso correto de equipamentos de proteção individuais e coletivos são grandes avanços para saúde humana e ambiental. O trabalhador pode buscar auxílio com a Emater e a Secretaria de Agricultura de Marechal Cândido Rondon.

O consumo de produtos da agricultura familiar e orgânicos são ações que podem ser realizadas por todos. Ao contrário do que muitos pensam, alimentos provenientes da agricultura familiar e orgânicos podem até custar menos que alimentos da agricultura convencional. Para além disso, produtos in natura ou minimamente processados, normalmente vendidos em feiras de pequenos agricultores, são muito mais saudáveis e devem ser a base da nossa alimentação. Em Marechal Rondon é possível encontrar produtos orgânicos em mercados, feiras de pequenos agricultores e na Acempre, uma feira permanente de produtos orgânicos agroecológicos, anexa à Praça Willy Barth. O trabalhador também pode contar com auxílio do Capa, Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia, que possui como princípios o associativismo, a solidariedade, a sustentabilidade e o respeito ao meio ambiente e promove alternativas para a permanência da famílias no campo.

O dia 03 de dezembro de 1984 foi marcado pela maior tragédia química da história mundial, ocorrida na cidade de Bhopal, na Índia. Que esse dia nos traga a missão de refletir sobre como está sendo produzido nosso alimento e de que forma isso pode estar afetando o solo, a água, o ambiente e a saúde humana para a nossa geração e as gerações futuras.

 

A autora é doutoranda bolsista da pós-graduação em Desenvolvimento Rural Sustentável da Unioeste e integrante do GT Agrotóxicos da 20ª Regional de Saúde de Toledo. Desenvolve trabalhos sobre o tema sob orientação do professor doutor Alvorí Ahlert, docente da Unioeste. O texto contou com a colaboração de Rafael Heinrich, nutricionista especializado em saúde pública e coordenador executivo do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional de Marechal Rondon.

julivanderlinde@hotmail.com

 
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