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A era do amor líquido

calendar_month 9 de junho de 2017
12 min de leitura

“É a história mais velha do mundo/Um destino que foi desenhado/O que mais alguém pode querer/Além de amar e ser amado?”. Os versos da canção “A História Mais Velha do Mundo”, do grupo paulistano O Terno, evidenciam uma necessidade básica do ser humano desde sempre: a busca por se relacionar com outras pessoas. Desde quando as pessoas se casavam com os membros da mesma igreja, no século 19, até os cliques necessários para dar um match (combinar) no aplicativo Tinder nos dias de hoje, as pessoas continuam a tentar encontrar a realização de desejos e a satisfação de vontades no campo amoroso.

Seja em um namoro, casamento ou numa simples ficada, o convívio sempre foi necessário para saciar esses desejos, para encontrar o par perfeito ou achar um parceiro casual. O que antes acontecia no meio de convívio de pessoa, hoje tem a possibilidade de acontecer por meio da internet. E essas novas oportunidades chegam por meio das redes sociais ou aplicativos, nos quais há uma quantidade maior de pessoas ao alcance de um clique, uma curtida, um comentário, uma combinação ou uma hashtag.

Entretanto, como dizia um velho ditado: “nem tudo é um mar de rosas”, e hoje é perceptível como o ato de namorar, se relacionar com outra pessoa, se tornou algo banal, quase que “descartável”. E justamente é esse cenário moderno dos relacionamentos amorosos que vem deixando mulheres e homens muito insatisfeitos. Dos consultórios terapêuticos às mesas de bar, o discurso parece o mesmo. São queixas sobre relações superficiais, descartáveis e interesseiras, desprovidas de conexão real.

O próprio termo “ficar”, antes restrito aos adolescentes, invadiu o vocabulário dos adultos, demonstrando a atual regressão e imaturidade nas relações afetivas. “Vivemos um novo tempo no que diz respeito às relações amorosas, aos sentimentos entre pares. A facilidade com que as pessoas têm encontrado para se relacionarem faz com que pulem algumas fases, até então muito pontuais e importantes, para apressadamente chegarem sem rodeios ao que lhe interessa”, explica a psicóloga Silvana Nardello Nasihgil. Conforme ela, a maioria dos atuais relacionamentos se resumem em apenas “ficar” e, com isso, muitos rejeitam a ideia de compromisso e supervalorizam o sexo casual. “O ‘ficar’ precede até mesmo a necessidade de saber o nome do outro, vem de um impulso gerado pela pressa de experimentar tudo o que se coloca disponível e que, talvez, logo pode não estar mais”, comenta a psicóloga.

 

Consequência

Essa rapidez com que as coisas do coração são tratadas, essa falta de critérios, tem gerado nas pessoas baixa autoestima, pois tudo parece muito volátil, sem consistência. O “ficar” não gera compromisso algum e, então, os pares não precisam estar na mesma sintonia. “As pessoas estão se apaixonando muito rápido e ‘desapaixonado’ na mesma velocidade. Muita gente é pega de surpresa no meio do caminho e não consegue lidar com a situação”, expõe Silvana.

 

Superficialidade

Segundo ela, são muitas as pessoas, tanto homens quanto mulheres, que enfrentam problemas no relacionamento por insegurança ou por temerem iniciar um namoro. De acordo com a psicóloga, uma das maiores angústias do ser humano é ficar sozinho. “Por essa razão existe uma grande preocupação em encontrar alguém em quem se acredita estar a felicidade. É extremamente comum que nessa busca pela pessoa ideal, bem como para a manutenção de uma relação, as pessoas tenham algum tipo de sofrimento psíquico e busquem ajuda”, pontua.

Embora essa superficialidade nos relacionamentos esteja mais presente e visível em meio aos jovens, Silvana diz que atende desde adolescentes com 15 anos a idosos com 80 que, por mais impossível que possa parecer, possuem essa insegurança de se relacionar ou enfrentam problemas no relacionamento já construído. “Independentemente da idade das pessoas, essa demanda de ordem emocional sempre existirá. É certo que de acordo com a idade existirá mais um tipo de angústia ou outro. Adolescentes e jovens não têm preocupação com família, condição financeira e profissional, enquanto que os adultos já têm esses quesitos que somam na desordem emocional”, enaltece a psicóloga.

 

Falta de comprometimento

Em sua grande maioria, jovens de todas as idades estão evitando assumir um relacionamento sério, seja por insegurança ou ainda por não terem encontrado a pessoa que considera ideal. No entanto, Silvana salienta que o motivo também pode ser outro: a falta de comprometimento. “Essa falta de comprometimento consigo próprio e consequentemente com os outros é fruto, muitas vezes, de uma liberdade dada pela família sem que os jovens tenham maturidade para vivê-la. A vida vai parecendo um parque de diversões e nesse contexto falta um projeto de vida, uma atitude necessária capaz de nortear as atitudes em relação ao futuro”, avalia.

 

Relações descartáveis

Os relacionamentos atuais estão avançando de maneira relativamente rápida. Essa facilidade, aliada à falta de comprometimento e seriedade nos relacionamentos, acaba gerando transtornos para muitas pessoas e faz com que as relações pareçam descartáveis. “Hoje está tudo muito simples, as pessoas se olham, ficam, namoram e, pior, começam a se amar em cinco dias. Também como começam, terminam por qualquer razão. Tem faltado foco na vida para encontrar o caminho, muitas vezes indo tão longe que retornar parece impossível”, constata a psicóloga.

Segundo ela, é nesse ponto que a terapia faz o seu papel, ou seja, quando o(a) psicólogo(a) é procurado(a), começa um movimento de ressignificação, a partir do qual se busca dentro dos sonhos e fantasias as possibilidades reais de uma vida mais suave e feliz. “É um caminho de retorno e autoconhecimento em que é possível viver uma nova história, ou fazer nova aquela que já existe”, menciona.

 

Responsabilidades

O namoro até onde sabemos é a fase do conhecimento entre os pares, a fase em que é importante saber do outro, na qual existirão desafios, e assim a relação pode crescer e se solidificar, bem como terminar. Com a aceleração dos contatos e a necessidade de tudo ser imediato, tem se perdido muito da essência daquilo que ainda tem importância nas relações amorosas. O resultado disso é que os interessados em algo mais profundo tendem a se frustrar e, muitas vezes, acabam por ficar longos períodos sozinhos, evitando, assim, o desgaste emocional de um relacionamento efêmero e sem futuro. “Vejo que esse tipo de comportamento está longe de ser modificado, então, cada pessoa deve ter a consciência daquilo que quer viver, daquilo que lhe serve e daquilo que realmente importa para si”, considera Silvana.

Na visão dela, cada pessoa é livre para fazer as suas escolhas, mas precisa saber que tem responsabilidades sobre elas. Quem escolhe amar, se amar e ser amado, saberá encontrar o caminho para isso se tornar realidade; quem escolher ficar, terá que conviver com o que acontecer”, enfatiza.

 

Quando casar?

Após anos, meses ou semanas de relacionamento, pode surgir a tão esperada, e ao mesmo tempo temida, pergunta: “quer casar comigo?”. Apesar das opções de resposta a essa pergunta se resumirem a sim ou não, a decisão não é tão fácil quanto parece. “Algumas pessoas têm maior maturidade emocional e se darão bem em um casamento, conseguindo administrar as responsabilidades mesmo com pouca idade. Outras pessoas, ao contrário, entram na fase adulta e mesmo após os 30 anos de idade ainda não compreenderam que casar é uma parceria, que requer um contrato entre o casal que deverá ser sempre atualizado”, ressalta a psicóloga.

Tanto para namorar como para casar, a profissional diz que é necessário um amadurecimento emocional, em que as pessoas tenham consciência das suas escolhas. “Hoje é possível vermos crianças que nem chegaram na puberdade, namorando, e para complicar ainda mais, com o aval dos pais. É importante que os pais expliquem para seus filhos em que um namoro implica, porque namorar não é brincar de vida, é preciso ter muita responsabilidade e maturidade”, frisa Silvana, enfatizando que o namoro é um período para conhecer o outro para uma futura relação de casamento, portanto, importa que as pessoas tenham maturidade fisiológica, além da emocional.

Psicóloga Silvana Nardello Nasihgil: “As pessoas estão se apaixonando muito rápido e ‘desapaixonado’ na mesma velocidade. Muita gente é pega de surpresa no meio do caminho e não consegue lidar com a situação”

Relacionamento sério pode dar certo, sim!

Provavelmente seria preciso o tempo de uma vida inteira em busca da fórmula mágica para o amor fácil e saudável e ainda assim não se chegaria a uma resposta. Há quem diga que saber amar passa por processos tão individuais que é impossível definir, de fato, o que seria, afinal, viver esse sentimento de forma plena.

Junto há quatro anos, o jovem casal Manoeli Cristina Hoffmann e Lucas Rohrer Zimmer, ambos com 22 anos, são um exemplo disso e mostram que um relacionamento sério pode sim dar certo, superando até mesmo a distância.

Os dois contam que se conheceram no ano de 2013, em um show, através de um amigo que tinham em comum. A partir de então, eles começaram a trocar mensagens pelo Facebook e por celular. O intuito, segundo o casal, era se conhecer melhor. “Na Oktoberfest do mesmo ano foi quando ficamos juntos pela primeira vez. Desde então mantivemos um relacionamento respeitoso, não queríamos apressar as coisas”, declara Manoeli.

Após seis longos meses de conversas, no mês de abril de 2014, Lucas tomou a decisão e resolveu pedir Manoeli em namoro. A data escolhida? O aniversário da jovem. “Ao longo desses seis meses conhecemos melhor um ao outro, assim como nossas famílias. Foi então que percebemos que estávamos prontos para o próximo passo que seria assumir um relacionamento sério”, conta Lucas.

Na opinião do casal, atualmente a maioria dos casais estão juntos apenas porque sentem a necessidade de ter alguém por perto, e acabam confundindo amor com carência. “Algumas pessoas se conhecem em um dia, no outro estão namorando, na semana seguinte já terminam e conhecem outra pessoa. Não compreendem que a relação deve ser valorizada”, destacam.

 

Para o amor não há distância

Mesmo morando em cidade diferentes, Manoeli em Mercedes e Lucas em Marechal Cândido Rondon, o casal acredita que a distância não interfere se o sentimento for realmente recíproco e verdadeiro. “Para um relacionamento se manter estável, duradouro e saudável é necessário, acima de tudo, aceitar e respeitar as diferenças, estar sempre juntos, tanto nos erros como nos acertos, diante das alegrias e tristezas, independentemente da situação, apoiando e amando um ao outro”, afirma Lucas.

Um dos principais problemas enfrentados em relacionamentos, principalmente aqueles de longa duração, é a desconfiança. Hoje em dia, muitos casais veem suas companheiras e seus companheiros como objeto de posse, e tal atitude acaba por desgastar até mesmo o mais profundo sentimento. Para Manoeli, tudo sempre irá depender de como é relação entre o casal. “Eu, particularmente, acredito que somos livres para “voar” junto, lado a lado. A partir do momento em que você não pode ser quem é ou fazer o que gosta, o relacionamento torna-se uma prisão”, comenta.

O casal ainda destaca que todo relacionamento deve ser firmado em alicerces de reciprocidade, companheirismo, respeito, confiança, fidelidade, compreensão e amor. “Namoro também é amizade, é ter alguém que goste de você pelo que você é e não pelo que você tem. É ter alguém em quem confiar, com quem possa dividir seus objetivos de vida, que esteja do seu lado nos momentos mais difíceis e, acima de tudo, é ter alguém para amar e ser amado também”, entende Manoeli. No entanto, a jovem também considera que namorar é dividir a vida com alguém diferente, com outra cultura, costumes, uma outra maneira de ver a vida. “Contudo, acredito que isso não seja um ponto negativo para os relacionamentos, muito menos um empecilho. Desde que exista respeito, não há nada que o amor não possa superar”, ressalta.

 

E o futuro?

Jovens, estudantes, decididos e com muita história para ser construída ainda, o casal revela que nunca é tarde para se pensar no futuro. “Nós vivemos o presente, mas também pensamos e fazemos planos para um futuro juntos. Quando penso na vida daqui a alguns anos, existe aquela sensação de que juntos iremos mais longe”, revela Lucas.

Manoeli, por sua vez, compartilha do mesmo sentimento do namorado e destaca com segurança ter encontrado alguém com quem ela quer dividir toda sua vida. “Essa sensação de que juntos no futuro é que me dá a certeza de que encontrei a pessoa certa para mim”, conclui.

Manoeli Cristina Hoffmann e Lucas Rohrer Zimmer estão juntos há quatro anos: “Algumas pessoas entram em relacionamentos, mas não compreendem que a relação deve ser valorizada”

 

 
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