Diante de informações recentes, o agronegócio e demais segmentos produtivos do país terão de buscar apoio e medidas do Poder Público para preservar sua competitividade e manter espaços duramente conquistados no mercado globalizado. Se o custo do transporte rodoviário, responsável pela movimentação de 63% das cargas do país, já vem reduzindo há décadas a lucratividade e viabilidade do agronegócio e demais cadeias produtivas, a situação só tende a piorar diante de iniciativas inusitadas de concorrentes.
A União Européia, por exemplo, planeja diminuir em 50% o transporte de cargas por rodovias do continente, até 2050. Os objetivos do ousado plano, que já recebeu investimentos de R$ 100 bilhões, são reduzir o fluxo de caminhões nas estradas, as emissões de gás carbônico e o poder de operadores privados do transporte de mercadorias.
A meta, no entanto, não será alcançada com facilidade devido às dificuldades de mudanças no sistema regulatório, ao custo elevado da construção e manutenção de novos trechos de ferrovias e à lentidão na movimentação de trens.
Ainda em 1992, vale recordar, países europeus definiram a estratégia de buscar reverter a predominância das rodovias como principal meio de transporte de cargas em seus territórios e em 2001 governos se comprometeram a impedir o aumento do transporte de cargas pelas rodovias, na concorrência com as ferrovias.
Já em 2011, foi estabelecida meta de transferir 30% do que era transportado pelas rodovias para os trens até 2030. Para 2050, o transporte rodoviário só poderá movimentar até 50% das cargas em trajetos de mais de 300 quilômetros. Os investimentos para atingir esses objetivos foram estimados em 28 bilhões de euros.
Apesar desses compromissos, a Corte de Auditoria da Europa vem alertando para as dificuldades de implementação da ousada estratégia, na medida em que o desempenho do transporte ferroviário ainda é considerado insatisfatório pelos segmentos produtivos.
Conforme levantamento da instituição continental, não houve aumento de participação de trens no transporte de carga transportadas na Europa entre os anos de 2000 e 2016. Entre 2011 e 2016, a participação do transporte ferroviário ficou paralisada e até caiu em algumas regiões.
A falta de regulamentação da medida entre os 28 países do bloco, obstáculos administrativos e demora na passagem de fronteiras, estariam entre os principais obstáculos para a mudança do modelo de transporte, mantendo a média de velocidade de trem de carga em apenas 18 quilômetros por hora, em determinadas ferrovias.
A malha ferroviária da Europa é de 216 mil quilômetros de extensão, mas diante das dificuldades citadas, exportadores ainda consideram o transporte rodoviário como opção mais eficiente e econômica. Com isso, as cargas transportadas por caminhões ainda são três vezes maiores do que as movimentadas por trens.
Mesmo assim, a participação de trens passou a ser de 17,8% da média de cargas movimentadas na Europa, mas alguns países avançaram bem mais. Na Letônia, 60% das cargas já estão nos trens, na Áustria mais de 42%, na Suécia 38% e na Alemanha 23%.
Na Suíça, que não integra a União Européia, 48% das cargas estão em cinco mil quilômetros de ferrovias, com transito de 140 trens em cada linha por dia, passando por 671 túneis e seis mil pontes. Além disso, são cobradas taxas de caminhões e o peso de cargas é limitado nos Alpes.
O autor é deputado federal pelo Paraná licenciado e chefe da Casa Civil do Governo do Estado
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