Como nunca antes, estamos passando por uma crise de falta de água em nossa região. Uma região originalmente rica em recursos hídricos que hoje sofre intensa falta de água em várias frentes: para a indústria, para a agricultura e para o consumo humano.
Muitos culpam a escassez de água à falta de chuvas em nossa região. A culpa seria da “La Niña” ou de algum outro fenômeno, porque há controvérsias entre os próprios climatologistas sobre as razões do bloqueio atmosférico no Sul do Brasil.
Uma das origens de chuva em nossa região é a umidade que vem da Amazônia, que os cientistas denominaram de “rios voadores”. A umidade que é formada pela floresta amazônica, que, impedida pela cordilheira dos Andes, migra para irrigar o Sudeste e o Sul do Brasil.
Talvez a falta de água se deve à redução dos “rios voadores”, tendo em vista o intenso processo de desmatamento da região amazônica. Nos últimos 12 meses, foram derrubados e queimados 11 mil quilômetros quadrados da floresta, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Talvez a redução de chuvas seja mesmo reflexo do aquecimento global, causado pela saturação da atmosfera pelo gás carbônico, que em 70 anos foi de 280 ppm (partes por milhão) para mais de 400 ppm, o que provoca o chamado efeito estufa.
Em todo caso, falta-nos água e discutimos o que fazer. Enquanto alguns insistem em furar mais poços artesianos, outros já falam em trazer água do Lago de Itaipu. Os poços artesianos também precisam de reposição de água das chuvas, pois não são, como muitos acreditavam, fontes inesgotáveis de água, que poderiam abastecer para sempre um frigorífico, que consome três mil metros cúbicos de água por dia.
Já tentamos buscar água no Aquífero Guarani, mas uma broca quebrada aos 900 metros de profundidade e a presença de água com excesso de flúor parece que desencorajou outras iniciativas neste sentido.
E os rios ou arroios da nossa região já viraram córregos. A nossa PCH Moinho no Rio Guaçu trabalha com 20% da capacidade pela falta de água. Para quem conheceu o Guaçu há 50 anos, um rio profundo e limpo, hoje é apenas um arroio lamacento, sem condições de abastecer uma cidade.
O Brasil é signatário dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Embora muitos ainda achem que a preocupação com o meio ambiente é “modismo”, os cientistas do clima definiram 17 objetivos para os ODS. O ODS-6 trata da gestão da água e define metas de reuso, de eficiência na distribuição, fala sobre a restauração dos ecossistemas e orienta sobre a gestão integrada por comitês de bacia.
Não podemos apostar que a normalidade das chuvas e a abundância de água voltem naturalmente. A escassez de água já afeta nossa geração e afetará de forma muito mais drástica as gerações futuras, caso não façamos nada.
Urbano Mertz é engenheiro agrônomo do IDR-Paraná, presidente do Conselho de Desenvolvimento Agropecuário de Marechal Cândido Rondon e membro do Comitê de Bacia do Paraná 3
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