A vida tem um problema sério: ela não aceita rascunho.
Tudo acontece em versão definitiva. O que foi dito, foi. O que não foi, também. O tom errado fica. O silêncio mal calculado vira ruído. Não existe Ctrl+Z para aquela resposta atravessada, nem “voltar ao parágrafo anterior” depois de uma decisão tomada no impulso.
No texto, não.
O texto oferece aquilo que a vida raramente permite: a edição.
Escrever é esse pequeno luxo civilizatório de poder reler o próprio tropeço e decidir se ele merece ficar ali ou se pode ser suavizado. Na vida, o tropeço vira tombo. No texto, vira estilo – se bem editado.
Talvez por isso a gente escreva tanto sobre o que já passou. Não é nostalgia. É tentativa de ajuste fino. Um esforço tardio de colocar vírgulas onde, na prática, a gente só conseguiu falar aos berros. Ou de cortar excessos que, no calor do momento, pareciam necessários.
A vida não aceita cortes. O texto, sim.
Na vida real, você manda uma mensagem atravessada e descobre três horas depois que ela foi lida, relida e interpretada por alguém num dia péssimo. No texto, você percebe o exagero, apaga o adjetivo desnecessário e finge que sempre foi equilibrado.
Na vida, você chega atrasado. No texto, você reorganiza a ordem dos fatos e vira alguém que “chegou no momento certo”.
Não é mentira. É edição.
Há quem chame isso de autoengano. Eu prefiro chamar de sobrevivência. A edição não muda os fatos, mas muda a forma como eles respiram. Dá espaçamento. Cria parágrafos onde antes era tudo um bloco só, sufocante.
O curioso é que a maturidade talvez seja isso: aprender a editar melhor — mesmo sem poder apagar. Na vida, a gente não corrige o erro, mas aprende a não repetir o mesmo parágrafo. No texto, pelo menos, a gente consegue fechar melhor a ideia.
Talvez escrever seja uma maneira educada de pedir desculpas ao tempo. Ou de explicar, com mais calma, aquilo que a pressa não deixou claro quando ainda estava acontecendo.
A vida segue em versão final, sem revisão, sem prova tipográfica. O texto não. O texto permite pausa, releitura, corte seco ou vírgula piedosa.
E no fim das contas, talvez seja por isso que escrever continue sendo necessário: não para mudar o que foi vivido, mas para torná-lo compreensível.
A vida acontece.
O texto, a gente edita.
Por Giuliano De Luca. Ele é jornalista. Editor-chefe do Jornal O Presente Rural e do O Presente Pet