Não é trivial encontrar o agropecuarista Alessandro Meneghel, 57 anos, nas ruas de Cascavel. Muito menos obter a primeira entrevista após todos os desdobramentos do duelo dele com o policial federal Alexandre Drummond Barbosa, em frente à antiga Bielle Club, que culminou com a morte do agente em abril de 2012.
O editor do Pitoco deparou-se com Meneghel – casualmente – no ponto de caldo de cana na Rua Manaus. Era meio da tarde de segunda-feira (06). Abordar o ruralista era a certeza de receber um não. “Pode me conceder uma breve entrevista?”, foi a pergunta. “Sim, mas sem sensacionalismo!”, respondeu Meneghel. Confira.
Pitoco: como está a vida?
Alessandro Meneghel (AM): Melhorou bastante agora. Lógico, nunca esperava o que aconteceu comigo. Hoje estou morando e trabalhando na fazenda, investindo em solo, em tecnologia. Tô seguindo a vida, com minha família, filhos, netos…
Pitoco: vendeu uma parte da área?
AM: Não, meu irmão estava querendo vender, da parte da herança dele, não da minha. Trabalho sobre 1,5 mil alqueires na fazenda Chaparral.
Pitoco: como está a lavoura?
AM: Milho não foi bom pela geada e seca. Trigo foi mais ou menos, mas a soja promete, tá indo bem…
Pitoco: e a política?
AM: Continuo pensando igual: sou de direita, contra invasão de terras, contra nego pegar o que é dos outros.
Pitoco: vota para reeleger Jair Bolsonaro?
AM: Não posso votar. Ainda estou cumprindo pena. Mas se pudesse, votaria nele. É o que deu mais liberdade para o produtor rural, mais segurança. Na minha fazenda vejo a patrulha rural lá, a polícia está mais atuante.
Pitoco: PM é comandada pelo governador, certo?
AM: Sim, é polícia estadual, mas veja a questão da arma. Sem arma vai fazer o que, ficar à mercê do bandido? Então, essa liberação do Bolsonaro para a pessoa andar armada dentro da propriedade, dentro de sua residência, sou a favor, sempre fui.
Pitoco: o que você tatuou aí nos braços?
AM: Raul e Lara, meus netos. Pamela e Alessandro Junior, meus filhos. Agora vou tatuar Antonio e Alessandra, filhos do Junior que vão fazer dois anos…
Pitoco: qual é sua situação civil hoje, à luz da lei?
AM: Estou respondendo na Justiça ainda. Posso sair de casa dentro de uma limitação territorial.
Pitoco: prisão domiciliar?
AM: Não sei explicar, não sou jurista, mas a situação em que estou foi definida pelos desembargadores por três a zero, unanimidade.
Pitoco: tem que se recolher em determinado horário?
AM: Não tem nada disso. Só não posso fazer besteira, não posso dirigir bêbado, assaltar banco, como também ninguém pode fazer isso (risos).
Pitoco: arrependimento?
AM: Muito grande. Minha família sofreu muito. Em relação à minha defesa, não, inventaram muita coisa. Minha camionete não teria 14 tiros se eu tivesse atirado nele primeiro, né? Só isso já mostra que eu levei primeiro os 14 tiros. Como é que ele ia me atirar morto, já viu isso?
Pitoco: qual seu projeto de vida a partir de agora?
AM: É viver feliz, ver se arrumo alguém para namorar e ficar tranquilo, de boa…
Pitoco: dorme bem?
AM: Não, não, não. Tomo remédio para dormir, tomo antidepressivo. Passei situação difícil. Peguei uma rebelião braba na penitenciária. Vi gente degolada.
Pitoco: você foi negociador na rebelião?
AM: Negociei, sim, e usaram aquilo contra mim. Pedi para acalmar. Pedi para conversar com o comandante. Aí o pessoal da facção pediu para eu tomar a frente, para ajudar…
Pitoco: se você não negocia…
AM: Se não interfiro ia ficar muito pior, ia morrer mais gente. Tinham dois agentes que iriam morrer. Um policial, tal de Marcão, já estava para ser morto. Eu intervi, pedi, apelei. Não que eu tenha resolvido tudo. Lá dentro você é apenas mais um.
Pitoco: você tinha liderança na facção?
AM: Inventaram que entrei na facção. Com o dinheiro que tenho, pra que vou mexer com facção? Os caras entram nisso para enriquecer. Rico eu já era e sou. Absurdo que não tem cabimento.
Pitoco: gastou muito com a defesa?
AM: Advogado é caro, lógico, mas não vou entrar neste mérito. Cada um gasta o que pode e até o que não tem para ficar livre.
Pitoco: como é sua rotina?
AM: Acordo às 06 horas, vou olhar a roça, ver áreas que têm que passar veneno. Aí saio para dar uma volta de jet-ski. Fiz uma represa lá. Faço uma pescaria, refresco a cabeça e cuido da roça. Tem que ficar em cima. É percevejo, é ferrugem, é doença que dá na soja, tem que olhar de perto.
Pitoco: descreva como era o ambiente que encontrou na penitenciária…
AM: Pior lugar do mundo para um homem de bem, que não mexe com coisa errada. Agora, para bandido que vive do crime, vira uma rotina. Pra gente que não vive nesse meio é sofrido. Regras rígidas. A gente sofre muito, pensa até em se matar.
Pitoco: por ser um milionário na prisão, foi extorquido?
AM: Fui visado por alguns agentes, por quererem mostrar autoridade. Era uma rigidez que não mostravam para outros presos. Me isolaram.
Pitoco: não tem medo de vingança quando sai à rua?
AM: Se quiserem me matar, posso andar com 300 seguranças que vão me pegar. Não mataram o traficante ali no Mato Grosso, fronteira com o Paraguai? O cara andava com um comboio de seis carros blindados. Mataram o cara com uma ponto 50.
Pitoco: você está armado?
AM: Não ando armado mais. Não vou dar motivo para me pegarem e colocar de volta naquele inferno. Então é só Deus que me protege mesmo.

Alessandro Meneghel: “Não posso votar, estou cumprindo pena. Mas se pudesse, votaria nele (Bolsonaro). (…) Estou respondendo na Justiça ainda. Posso sair de casa dentro de uma limitação territorial” (Foto: Jairo Eduardo/Pitoco)
“Não ando armado mais. Não vou dar motivo para me pegarem e colocar de volta naquele inferno. Então é só Deus que me protege mesmo”
Relembre o caso
Alessandro Meneghel foi preso no dia 04 de outubro de 2019 para cumprir pena de 29 anos e um mês, em regime fechado, pela morte do policial federal Alexandre Drummond Barbosa. Ele já havia cumprido, antes da sentença, períodos de reclusão e de prisão domiciliar. O ruralista foi solto no dia 13 de novembro de 2019, após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de que réus condenados só poderão ser presos depois de esgotados todos os recursos. Não há nenhuma medida cautelar imposta pelo juiz de execução da pena. Na prática, isso quer dizer que Meneghel sai em liberdade total, sem uso de tornozeleira eletrônica, locais ou horários determinados para circulação.
Pitoco