O nome dele sempre é cogitado para disputar prefeituras, para ser candidato a deputado. Já até recebeu convite para ser secretário do de Agricultura do Paraná, mas o foco dele é um só: a Lar.
Aos 72 anos, Irineo da Costa Rodrigues vai completar três décadas à frente da cooperativa, e é assim que ele pretende continuar: vencendo desafios e prestando contas de um trabalho que visa resultados, muitos resultados.
A aposentadoria está nos planos?
É uma das perguntas que o Pitoco enviou por escrito para o presidente. Acompanhe.
Pitoco: Qual argumento o senhor usou para obter o apoio da assembleia no investimento em Marechal Cândido Rondon (Copagril)?
Irineo Rodrigues (IR): Historicamente a Lar e a Copagril são boas vizinhas. Nos damos muito bem e nos ajudamos. É uma confiança muito grande entre as diretorias e são quadros sociais muito parecidos, pequenas propriedades, maioria de origem alemã ou italiana. E isso nos faz muito parecidos no que tange à organização do quadro social. Podemos dizer que entre 15 e 18 meses já vínhamos conversando para nos unir para que pudéssemos ampliar a atividade da avicultura na área de ação da Copagril. Agora com a Lar fazendo a gestão dessa atividade, vamos ser mais eficientes, diluir os custos. E por isso esperamos ter um resultado melhor. Então nasceu uma aliança estratégica de intercooperação na atividade da avicultura, onde a Lar vai fazer a gestão dessa atividade, permitindo que os associados da Copagril ampliem sua produção avícola. A Copagril não tinha o desejo de ampliar a atividade, pois tinha outras prioridades, como ampliar a suinocultura, em função do projeto da Frimesa. A Copagril também adquiriu recentemente uma planta de processamento de soja em Marechal Cândido Rondon. Então queria se dedicar a essas outras atividades. E a Lar tem ido bem nas ampliações da avicultura, então, para nós, foi bem interessante. Claro que essa amizade que existe entre as duas cooperativistas, essa relação e confiança aumenta agora. Nós vamos poder trabalhar juntos em algumas outras atividades, como, por exemplo, fazer compras em comum. Vamos lembrar que tanto a Lar quanto a Copagril desenvolvem atividades de grãos no Mato Grosso do Sul, então os volumes são bastante grandes. Teremos uma sinergia maior entre as duas cooperativas, como, por exemplo, na área da logística. Nossos caminhões se encontravam recolhendo frango e entregando ração. Agora iremos regionalizar essa entrega da ração, do pintainho e a recolha do frango, evitando que tenhamos contra-frete. Assim, para o frango produzido na área de ação da Copagril, a ração será produzida em Entre Rios do Oeste, e o abate será feito em Marechal Cândido Rondon.
Pitoco: Qual foi o investimento total na aquisição da fábrica de rações e do frigorífico da Copagril? Outros ativos da Copagril podem ser absorvidos pela Lar? Quais?
IR: O investimento total na compra dos dois ativos, a indústria de rações de Entre Rios do Oeste e a planta de abate de frangos em Marechal Cândido Rondon, foi da ordem de R$ 410 milhões. Não existe uma perspectiva de se estender essa intercooperação com troca de ativos para outras atividades. Ela se resume somente à avicultura.
Pitoco: Qual a fonte de recursos para expansão da Lar em Marechal Rondon, Cascavel e Norte do Paraná? O grau de endividamento da cooperativa mantém-se em níveis saudáveis?
IR: A aquisição da planta de Cascavel ocorreu há três anos e foi um financiamento com origem no Banco do Brasil, a taxas normais de linha de crédito para cooperativa. É um investimento que vai se pagar antes do tempo que a Lar imaginava. Já a terceira planta, que é a aquisição do complexo industrial Granjeiro de Rolândia, nós temos até agora um contrato de aluguel que irá se encerrar no dia 31 de agosto de 2021. No referido mês de agosto a Lar pagará a primeira parcela. Nós obtivemos do dono da Granjeiro um prazo de pagamento que, portanto, nos deu uma condição de financiamento. A segunda parcela em agosto de 2022, a terceira em agosto de 2023, e a última parcela em agosto de 2024. É claro que não está descartado de nós obtermos até agosto do próximo ano uma linha de financiamento para pagar por essa aquisição e obter um prazo maior de amortização. Nós diríamos que a condição que conseguimos de aquisição com esses prazos de pagamento, praticamente um ano de carência referente ao período que a Lar está pagando aluguel, é compatível com a atividade. Já essa intercooperação com a Copagril, de um total de R$ 410 milhões, estamos pagando agora neste ano, em dezembro, R$ 150 milhões. Até o final do ano de 2021 pagaremos o restante dos R$ 260 milhões. Todos os investimentos que a Lar faz sempre passam por uma análise criteriosa. Temos uma equipe muito profissional para ver se essas atividades são geradoras de caixa, ou seja, se são capazes de gerar o resultado que tenha condições de amortizar pelo investimento. Agora, com a avicultura bem ampliada, diminuímos custos, porque não precisamos ter uma nova equipe comercial ou mais pessoas em outras áreas. O mercado está feito. Tínhamos só Matelândia, que é uma planta grande, com 21 anos de maturação. Quando adquirimos Cascavel, veio uma clientela, em Rolândia da mesma forma e agora com Marechal Cândido Rondon. Ou seja, estamos ampliando o leque de clientes, e isso torna a atividade bem sustentada em termos econômicos e financeiros. O que vamos oportunizar na área de ação da Copagril é a condição dos produtores que queriam ampliar a atividade, poderem ampliar, pois a Lar tem três plantas na região para abate de frango. E isso dá uma condição de um abate maior, e permite que os produtores sócios da Copagril ampliem suas atividades.
Pitoco: O frigorífico da Diplomata, em Capanema, está no radar de aquisições da cooperativa Lar?
IR: A planta de abate de frango de Capanema está fora do radar da Lar. Nós não olhamos muito para o Sul. Nós sempre dizemos que, para a região Sul, e não é diferente no Sudoeste, seja Pato Branco, Francisco Beltrão ou essa região que vai até Capanema, tem uma condição mais difícil para produzir milho, ou você faz milho no verão, ou soja. Já na região de Foz do Iguaçu, a beira lago para o Centro-Oeste, temos condição de plantar soja no verão e cultivar milho como segunda safra. Então é mais caro produzir frango, podemos dizer, do outro lado do Rio Iguaçu para o Sul do país. Porque tendo que escolher uma alternativa de produzir soja ou milho, esse produto fica mais caro, então aumenta o custo do frango abatido. Enquanto que nessas regiões do Oeste paranaense em direção ao Norte temos uma safra de soja e milho, então o custo do frango é menor. Está fora de cogitação da Lar pensar na Diplomata.
Pitoco: Em que termos se deu a reforma administrativa que o senhor promoveu, recrutando executivos para os escalões superiores? Quais resultados já são perceptíveis?
IR: Já faz três anos que a Lar tem uma nova governança corporativa. Nós instituímos uma diretoria executiva contratada que segue em nível de três superintendências. Felizmente nós tínhamos as pessoas no nosso quadro com capacidade para ocupar essas posições de executivos, que, junto com a diretoria eleita, que são os associados, nós formamos o G6. Um grupo de seis pessoas, onde as decisões são priorizadas e estrategicamente definidas pela diretoria e pelo conselho, junto com as superintendências e suas equipes são estudadas, chegando a conclusões em nível de diretoria e conselho para serem aprovadas. É de fato uma gestão que se profissionalizou muito nos últimos três anos, e claro que precisamos ir ao mercado para buscar alguns executivos, seja na área comercial ou financeira. Hoje temos um time completo que, de certa forma, está sendo bem admirado por quem conhece a Lar mais profundamente, como clientes, fornecedores e bancos. E também nós já podemos dizer que implantamos há dois anos uma nova auditoria externa, que é uma das quatro grandes auditorias do mundo, como se chama: uma das Big Four. Com isso temos chancela de uma auditoria externa com mais nome e muito renome, que tem condições de analisar todo o desempenho da Lar Cooperativa, e quando encerramos o balanço, por eles é auditado e os pareceres que são emitidos nos dão essa chancela de que a Lar tem uma gestão eficiente, com muita transparência e os resultados que apresentamos são fidedignos, o que gera uma confiança muito grande. Os resultados são perceptíveis, sobretudo porque a Lar tem ampliado muito seu faturamento e isso dilui custos, o que tem ajudado muito no desempenho da Lar.
Pitoco: O senhor tem pretensões políticas? Seu nome foi cogitado recentemente, nas eleições de 2018…
IR: Meu nome já foi cogitado para disputar prefeituras e não só em um único município, como também cogitado para ser candidato a deputado, seja estadual ou federal. Recebi o convite para ser secretário do Estado da Agricultura e eu declinei. Penso que tenho um trabalho que precisa ser completado na Lar Cooperativa. Sobretudo com esses últimos desafios, e eu gostaria, até por ter um perfil mais técnico, de vencer esses desafios e prestar contas daquilo que estamos fazendo, demonstrando através de resultados. Penso também que agora nesse mês de dezembro, completando 72 anos com um perfil mais técnico, não irá me sobrar tempo para pensar na política, que também não é meu perfil por ser mais técnico. Não sou uma pessoa muito popular. Não tenho o perfil para essa atividade. Então está fora de cogitação o Irineo ocupar cargo público ou disputar alguma eleição. Devo procurar fazer bem feito o que estou fazendo na Lar e deixar um legado de uma cooperativa organizada, que pratica verdadeiramente os princípios do cooperativismo, mas que, ao mesmo tempo, é uma cooperativa de resultados e que está no mercado em igualdade de condições com grandes companhias.
Pitoco: Defina-se presidente, como pessoa física, quem é você?
IR: Eu sou engenheiro agrônomo. Cheguei no Paraná em janeiro de 1974, portanto já são 47 anos de vida profissional no Oeste do Paraná. Desenvolvi minhas atividades iniciais na Emater de Matelândia e depois um período também fui para a chefia regional da antiga Acarpa, que é hoje a Emater, onde morei em Cascavel três anos. Saí do serviço público, pois eu tinha a pretensão de ser produtor. Saí para arrendar terras e eu tinha uma propriedade em Matelândia. Depois surgiu, em dificuldades, a antiga Sudcoop, hoje Frimesa. Fiquei na diretoria da Frimesa por três anos, depois mais três anos como diretor-secretário da Cotrefal, que hoje é Lar Cooperativa. De 1987 a 1991 só fiquei nos meus arrendamentos de terras. Prestava algum serviço técnico como engenheiro agrônomo, e a partir de 1990 assumi a presidência da atual Sicredi Vanguarda, sendo presidente por dez anos. Em 1991 assumi a presidência da Cotrefal, que hoje é a Lar Cooperativa, e estou há 30 anos dirigindo a Lar. Era uma cooperativa pequena. Quem olhar os números de como era em 1990 o tamanho da cooperativa, perceberá que a Lar evoluiu muito. Hoje é uma cooperativa moderna, com uma marca bem evoluída, reconhecida e com produtos de qualidade. Tenho três filhos: um é médico veterinário, outro é engenheiro agrônomo e o terceiro atua na área de tecnologia da informação. Todos com a idade média entre 38 e 43 anos. Estão cuidando dos negócios particulares da nossa família, dos arrendamentos de terra, focados na área de grãos. No passado desenvolveram outras atividades, como leite, produção de ovos, frangos, suínos, inclusive pecuária de corte. Mas hoje estamos na área de produção apenas de soja e milho.
Pitoco: Qual é o seu projeto para o futuro? Tem um calendário para “aposentadoria”? Está preparando um sucessor?
IR: Profissionalmente com energia e capacidade de fazer e empreender, vivo o melhor momento da minha vida pessoal e profissional, saúde e tudo mais. Penso que, enquanto eu acordar de manhã e tiver muita vontade de ir para o trabalho, vou ficar trabalhando naquilo que eu faço, ou seja, na Lar Cooperativa, ou na atividade particular. Gosto muito de ler, mas me falta tempo. Então também quando já não estiver na vida profissional, vou me dedicar muito mais à leitura, obviamente com atividade física e cuidando da saúde, como faço sempre. Poderei acompanhar melhor o trabalho dos meus filhos e netos, com mais tempo para irmãos, sobrinhos, afilhados e para os amigos. Não penso em aposentadoria. Acho que não tenho perfil para dizer que vou me aposentar. E quanto à sucessão, essa nova governança na Lar, com três executivos contratados e três associados eleitos pelos próprios associados, formam o colegiado, que é o chamado G6. Então, se uma peça sair, isso não terá solução de continuidade. É possível dizer que a sucessão na Lar está rigorosamente desenhada. Sempre vai ter um dos associados na presidência, outro como diretor primeiro vice-presidente, um terceiro como diretor segundo vice-presidente, e mais seis associados do conselho de administração. Cabe a esses nove líderes da Lar desenharem o futuro, ajudarem a definir e aprovarem a estratégia, e assim os planos de ação, operacionais e principalmente táticos, que irão dimensionar um cronograma. As metas e as formas de serem alcançadas cabem mais ao corpo técnico da cooperativa, sendo gerencial e profissional, sob os olhares da diretoria que estão no dia a dia acompanhando e executando também.

Sítio Rodrigues, em Matelândia, base onde Irineo Rodrigues começou a expandir o território em busca do espaço vital (Foto: Divulgação)
QUEM É IRINEO RODRIGUES?
Irineo da Costa Rodrigues é natural de Canguçu, pequena cidade de 55 mil almas na região de Pelotas (RS), conhecida como a Capital brasileira do minifúndio. Os pais dele eram pequenos produtores. Irineo estudou no colégio agrícola e depois graduou-se em Engenharia agronômica na Universidade Federal de Pelotas.
A propósito, o atual governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é de Pelotas.
Irineo chegou a Matelândia na primeira metade dos anos 1970. Ingressou na Acarpa. Chefiou o órgão em Cascavel. Adquiriu uma pequena área de terra “dobrada” em Matelândia. Nominou-a Sítio Rodrigues e associou-se à Sudcoop, hoje Frimesa.
Dali a pouco já presidia a Sudcoop, quando transferiu a sede de Francisco Beltrão para Medianeira.
Irineo teve três filhos no primeiro casamento com a professora Vera.
Separado, no início dos anos 1990, uniu-se com sua secretária, Janete, com quem convive até o presente. Logo após a separação, já presidente da cooperativa, morou em uma pensão para estudantes no Bairro Cidade Alta.
Na Cotrefal, subiu rapidamente de mero associado para secretário e presidente. A posse foi em janeiro de 1991, em assembleia com mais de cinco mil pessoas e cerimônia religiosa comandada pelo bispo dom Olívio, de Foz do Iguaçu.
A rara janela para a presidência em uma cultura de líderes longevos no cooperativismo abriu-se quando o então presidente da Cotrefal, Ignácio Aloysio Donel, queixou-se de cansaço. Já avançado na idade, disse que precisava de uma pausa para refletir.
Irineo assumiu o cargo e não largou mais. Aos 72 anos, vai completar três décadas à frente da Lar.
Por Jairo Eduardo, editor do Pitoco