A cena se repete em consultórios e emergências veterinárias: um cão que horas antes corria pela casa passa a arrastar as patas, perde a coordenação, deixa de sustentar o próprio peso. A família chega com uma pergunta única – e pesada: ele volta a andar?
Por muito tempo, a resposta dependia quase exclusivamente do “tamanho” do dano e do que a cirurgia conseguia resolver. Hoje, a neurologia veterinária tem um conceito que muda o enquadramento do problema: neuroplasticidade. Não é promessa. Não é milagre. É a capacidade do sistema nervoso de se reorganizar – e isso amplia a janela clínica para recuperar função, especialmente quando diagnóstico, descompressão e reabilitação entram cedo na equação.
A médica-veterinária pós graduada em neurologia Fabiana Puntel define o ponto central: “A neuroplasticidade é a capacidade intrínseca do Sistema Nervoso (SN) de modificar sua estrutura e função em resposta a estímulos ambientais, experiências ou injúrias”. No contexto veterinário, ela descreve mecanismos como “sinaptogênese reativa, fortalecimento de vias redundantes e a capacidade de redes neuronais assumirem funções de áreas lesadas”. E faz um alerta importante: “Não é um evento estático, mas um processo dinâmico de remodelamento sináptico”.
Para o leitor leigo, uma analogia ajuda: é como se o sistema nervoso fosse uma malha de estradas. Uma lesão medular pode bloquear uma via principal. O organismo, quando encontra condições biológicas favoráveis e recebe estímulos certos, tenta abrir desvios, reforçar caminhos secundários e redesenhar rotas para fazer a informação chegar ao destino. O mapa não volta a ser o original, mas pode voltar a funcionar.
Esse raciocínio não elimina limites. Ele desloca o foco da pergunta “vai voltar ao normal?” para algo mais clínico e útil: qual é a chance de recuperar função e qualidade de vida – e o que pode ser feito para aumentar essa chance?
Por que a medula piora mesmo após o “estouro” inicial
Quando um cão sofre uma injúria medular, o dano não se resume ao primeiro impacto. Fabiana explica que após o insulto inicial (a injúria primária) ocorre a injúria secundária, um conjunto de eventos que pode ampliar a extensão do problema.
Ela detalha quatro pilares desse processo:
Desequilíbrio iônico: “efluxo de potássio e influxo massivo de cálcio intracelular”
Excitotoxicidade: “liberação excessiva de glutamato, levando à morte neuronal”
Isquemia e estresse oxidativo: “formação de radicais livres e peroxidação lipídica das membranas neuronais”
Cicatriz glial: “proliferação de astrócitos (astrogliose) que, embora proteja o tecido íntegro, cria uma barreira física e química (proteoglicanos) que impede a regeneração axonal”
Aqui cabe outra analogia rápida: é como se a área lesionada virasse um canteiro de obras. Primeiro há o dano; depois vem a resposta inflamatória, o “tumulto bioquímico”, e por fim uma espécie de cercado protetor (a cicatriz glial). Esse cercado impede que o problema “espalhe” para regiões saudáveis, mas também dificulta que as fibras nervosas voltem a atravessar o local como antes.
Esse detalhe explica por que tempo e estratégia importam: o que acontece nas primeiras semanas não é apenas “esperar melhorar”. É um período em que o sistema nervoso está definindo se vai caminhar para adaptação funcional ou para bloqueio.
Regenerar não é o mesmo que recuperar
Na clínica, tutores costumam associar recuperação a “regeneração”. Fabiana separa os dois conceitos com precisão. “Regeneração neural refere-se ao crescimento físico de novos axônios ou neurônios. No cérebro e medula, ela é extremamente limitada pela falta de células de Schwann e presença de inibidores da mielina (Nogo-A)”. Já nos nervos periféricos, a regeneração “é mais eficiente”.
O que sustenta a melhora clínica em muitos casos de medula, portanto, é outra via: “Reorganização neural é a base da recuperação funcional no sistema nervoso central. O cérebro ‘reencaminha’ sinais através de sinapses pré-existentes, mas latentes, ou cria novos circuitos para contornar a área lesionada”.
Em linguagem direta: o sistema não “conserta a peça quebrada” como um cabo trocado; ele aprende a operar com outro circuito. É por isso que um animal pode voltar a caminhar, urinar melhor e ter boa qualidade de vida e ainda assim manter déficits residuais detectáveis no exame neurológico.
Fabiana resume: “Recuperação funcional vs. neurológica completa não são sinônimos. Um paciente pode atingir recuperação funcional (consegue caminhar, urinar e ter qualidade de vida), mas manter déficits neurológicos residuais, como ataxia proprioceptiva ou ausência de reflexos específicos.” E ela reforça o alvo realista da clínica: “O foco na medicina veterinária é majoritariamente a funcionalidade.”
A “marcha espinhal” e a autonomia de circuitos
Existe um ponto pouco conhecido fora do meio técnico: cães e gatos podem ter uma capacidade adaptativa particular após lesões medulares, especialmente por mecanismos da própria medula. Fabiana explica: “Cães e gatos apresentam uma plasticidade notável, especialmente na medula espinhal, devido à maior autonomia dos Geradores de Padrões Centrais (GPC). Isso permite que alguns animais desenvolvam a ‘marcha espinhal’ (deambulação reflexa sem conexão cerebral direta), algo raramente observado em humanos adultos de forma funcional.”
A analogia aqui é quase inevitável: é como se a medula tivesse “rotinas automáticas” de movimento, capazes de ser treinadas e refinadas mesmo quando a comunicação com o “comando central” (o cérebro) está comprometida. Isso não vale para todo caso e não significa retorno pleno, mas ajuda a entender por que alguns pacientes recuperam marcha funcional mesmo após quadros que pareciam fechados.
O “roteiro” típico depois da lesão
Fabiana descreve que, em lesões medulares, a recuperação segue uma lógica baseada na anatomia das fibras. Ela sintetiza em três etapas: “Propriocepção: as fibras mais superficiais e calibrosas (as primeiras a falhar, as últimas a voltar); Motricidade voluntária: retorno de tônus e suporte de peso; e sensibilidade dolorosa profunda (DP): “é o último baluarte. Se preservada ou recuperada precocemente, o prognóstico para deambulação é excelente.”
Esse ponto é central por dois motivos: guia a leitura clínica e organiza expectativas do tutor, que muitas vezes interpreta qualquer movimento como “dor consciente” ou qualquer reflexo como “melhora definitiva”.

Arte: Giuliano De Luca/O Presente Pet/ChatGPT
Onde a medicina decide urgência e chance
Quando se fala em “fatores prognósticos”, falamos dos elementos que aumentam ou reduzem a probabilidade de um desfecho funcional. Fabiana lista os decisivos: Neuroetologia da lesão: “lesões agudas (ex: extrusão de disco Hansen Tipo I) têm dinâmica diferente de compressões crônicas”; Localização: “lesões em intumescências (C6-T2 ou L4-S3) afetam o neurônio motor inferior e tendem a ter pior prognóstico funcional para membros específicos”; Grau de disfunção: “a presença de dor profunda é o divisor de águas entre o tratamento cirúrgico com 90% de sucesso vs. 50% ou menos”; Tempo: “o intervalo entre a perda da dor profunda e a descompressão cirúrgica é crítico (idealmente <24–48h)”.
Aqui, outra analogia útil: é como um incêndio em um painel elétrico. Você pode cortar a energia e impedir a expansão do dano (a cirurgia/descompressão). Mas, se o calor já derreteu trilhas essenciais, a chance de recuperar o circuito muda. E a velocidade com que se atua pode definir se o dano vai ficar contido ou se vai se ampliar.
Por que o primeiro mês pesa tanto
Apesar de a neuroplasticidade existir ao longo da vida, Fabiana delimita um período especialmente relevante: “os primeiros 14 a 30 dias pós-insulto são cruciais”. É nessa fase que “a redução do edema e a modulação da cicatriz glial permitem que a fisioterapia e os estímulos sensoriais promovam a sinaptogênese de forma mais eficaz”.
Essa afirmação conversa diretamente com o que a reabilitação moderna defende: não é esperar o corpo “resolver sozinho” para depois tentar recuperar; é agir cedo para preservar músculo, articulação e padrão motor – enquanto o sistema nervoso está mais responsivo a estímulos.
Os erros mais comuns do tutor
Na ponta final do atendimento, a neurociência vira orientação prática. Fabiana alerta que o principal equívoco é “a interpretação do reflexo de retirada como sinal de dor consciente”. Ou seja: o tutor vê a pata se mexer e acredita que o animal está “sentindo dor profunda”, mas “um arco reflexo espinhal (que não requer o cérebro)” pode produzir aquela resposta sem significar melhora do prognóstico.
Outro erro é interromper o repouso cedo demais: “a interrupção do repouso que o animal apresenta os primeiros passos pode levar à piora da extrusão discal em casos não cirúrgicos”. Em tradução direta: o cão dá um ou dois passos, a família comemora e “libera” – e isso pode custar caro.
Neurologia moderna
Fabiana descreve uma mudança de paradigma: “A transição do tratamento puramente conservador para o uso de diagnóstico por imagem avançado permitiu intervenções precoces.” E acrescenta: “A fisiatria neurofuncional e o uso de células-tronco e fármacos adequados mudaram o paradigma de ‘esperar para ver’ para ‘reabilitar imediatamente’.” Para ela, há um reconhecimento crescente de urgência: “tratando a medula espinhal com a mesma urgência que tratamos um trauma cranioencefálico”.
Ela também delimita limites atuais com clareza: “Avançamos com cirurgias minimamente invasivas, controle de dor neuropática e reabilitação intensiva”, mas a ciência ainda esbarra: “A regeneração total de axônios após transecção medular completa e a reversão da mielomalácia hemorrágica progressiva”.
Por que fisioterapia muda o desfecho
Se a neurologia define o terreno biológico, a reabilitação atua sobre aquilo que pode ser treinado, preservado e reorganizado. A fisioterapeuta veterinária doutora Keyla Regina Wust descreve o papel do seu trabalho em termos objetivos: “A fisioterapia direciona, estimula e potencializa a reorganização do sistema nervoso”.
Ela detalha os efeitos pretendidos: “promovendo estímulo à neuroplasticidade, reativa vias motoras e sensitivas, previne atrofia e complicações secundárias, modula dor e inflamação, treina função, estimula o sistema nervoso a reorganizar conexões e evita regressões”.
Outra analogia ajuda: é como reprogramar um sistema após uma pane. Se há circuitos redundantes ou rotas alternativas, o corpo precisa reaprender a usá-las. E esse reaprendizado depende de repetição correta, carga adequada e estímulo consistente – o que a fisioterapia tenta fornecer.
Keyla é direta sobre a pergunta central: o estímulo motor influencia a reorganização neural? “Sim, influencia diretamente. O estímulo motor é um dos principais gatilhos da neuroplasticidade dependente de atividade. Sem estímulo, o sistema nervoso reorganiza menos; com estímulo direcionado e repetitivo, ele reorganiza mais, melhor e de forma mais rápida.”
Quando descreve o que acontece no organismo, ela amplia a visão: “Durante a reabilitação neurológica, não estamos apenas ‘movimentando o paciente’. Estamos induzindo uma cascata neural, muscular, vascular e bioquímica.” E reforça o objetivo: “estimular plasticidade neural, manter músculo viável, melhorar perfusão, modular inflamação e treinar função, não apenas movimento.”
Precocidade como estratégia
Keyla defende que “o ideal é que a reabilitação seja iniciada o quanto antes, desde que o paciente esteja clinicamente estável”. Na fase aguda, ela lista objetivos claros: “controle de edema, modulação da dor, manutenção da amplitude articular, prevenção de atrofias musculares e lesões por decúbito, redução da perda de representação motora e manutenção das vias neurais parcialmente preservadas ativas”.
Ela compara com o cenário tardio: “quando a reabilitação começa de forma mais tardia, já é comum observar atrofia muscular importante, diminuição da amplitude de movimento e instalação de compensações inadequadas. Consequentemente, o tratamento tende a ser mais longo”.
Ganhos esperados
Keyla descreve uma sequência “relativamente previsível” de ganhos:
- melhora sensorial (“reativação das vias neurológicas”)
- ganho de tônus e recrutamento muscular
- melhora do controle postural e sustentação
- retorno gradual da marcha (“apoio assistido até a marcha funcional”)
- redução da dor e espasticidade
- melhora global de resistência, força e qualidade de movimento
Limites
Ao mesmo tempo, ela cita limites: muitas vezes o bloqueio não é “falta de técnica”, mas “biológico e estrutural”. Entre os limites mais comuns estão contraturas, fibrose, atrofias severas, dor crônica, doenças sistêmicas concomitantes e obesidade. Em lesões graves, há quadros como “lesão medular completa sem dor profunda, evolução para mielomalácia progressiva e lesões extensas associadas à instabilidade vertebral”. Nesses casos, o foco pode migrar de “recuperar plenamente” para “qualidade de vida, conforto, prevenção de complicações secundárias e adaptação funcional”.
Esperança baseada em ciência
“Alinhar expectativa é uma das partes mais delicadas do processo”, diz Keyla. Mas ela define a linha correta: “alinhar expectativa não é diminuir a esperança, é oferecer uma esperança baseada em ciência”. Ela descreve a conversa que precisa ocorrer cedo: esclarecer prognóstico e explicar que “o tempo sem movimento está relacionado ao tempo de reabilitação”. E conclui: “cada paciente é único, cada grau de lesão possui um potencial biológico diferente, cada caso terá seu próprio tempo de tratamento e de resposta.”

Foto: Giuliano De Luca/O Presente Pet
Peto voltou a andar
A história de Peto, um Shih Tzu de sete anos, tem todos os elementos que fazem o leitor entender a neuroplasticidade fora do laboratório. Ele não é um exemplo “perfeito”; é um caso real, com medo, urgência, decisões, complicações e reconstrução. Tratado pela doutora Keyla, ele recuperou os movimentos após uma lesão séria na coluna vertebral (veja vídeo do Shih Tzu recuperado).
A tutora Jaqueline Huzbach, de Toledo (PR), descreve a sensação inicial em estado bruto quando ele perdeu os movimentos após a lesão: “O que passou pela nossa cabeça? Mil coisas ruins, mil coisas. O Peto… o mais esperto. Não podia ter acontecido isso.”
A família correu para atendimento em Toledo. O primeiro veterinário suspeitou de quadril. “Achou que poderia ter sido um probleminha no quadril… não na coluna.” Peto foi medicado, mas “não era mais o Peto feliz, que amava brincar, hiperativo”, lembra Jaqueline.
No dia seguinte, sem melhora, a família buscou diagnóstico por imagem. “Meu esposo e meu irmão levaram o Peto para Cascavel fazer uma ressonância. E, para nossa tristeza, o Peto teve uma lesão na coluna.”
Veio a urgência: “teve que ser operado às pressas porque poderia não voltar mais a andar”. A cirurgia foi realizada em Toledo, e o pós-operatório trouxe uma das cenas mais duras para um tutor: ver o animal com vontade de levantar, sem conseguir. “O pior era a gente ver o Peto e pensar que ele queria caminhar. Ele estava limitado, arrastando a parte inferior do corpo.”
Peto ficou em repouso cerca de 15 dias. “Nós ficamos aflitos nesses 15 dias”, diz Jaqueline. Foi nesse intervalo que surgiu a indicação para a fisioterapia: “um professor nos recomendou a clínica da Dra. Keyla”. A mudança no tom da casa é descrita em uma frase: “realmente a nossa esperança voltou. Apareceu uma luz no fim do túnel.”

Foto: Giuliano De Luca/O Presente Pet
Plano de reabilitação e uma rotina
Keyla relata que Peto chegou “no pós-operatório imediato” com “reflexos presentes, porém diminuídos”, um achado que ela considera “extremamente importante, pois indica prognóstico favorável”. Ela descreve o que foi feito: “desde o início, priorizamos o processo regenerativo, estimulando e potencializando a reorganização do sistema nervoso”. O trabalho incluiu “alongamentos, mobilizações articulares e estímulos específicos”, para “manter o corpo preparado enquanto o sistema nervoso se reorganizava, evitando regressões”.
Jaqueline descreve a rotina com precisão emocional: “a Dra. Keila começou no trabalho com o Peto duas vezes por semana e a gente levava o Peto até Rondon”. A viagem virou parte da vida do cão: “isso virou uma rotina para o Peto. Ele adorava, sabia que ia para a clínica”.
O protocolo inclui na fisioterapia de Peto incluiu controle de dor e regeneração tecidual, magnetoterapia, laser terapêutico, hidroterapia, ozonioterapia, acupuntura, além de exercícios.
A família enxergou a neuroplasticidade acontecendo
Entre todas as etapas, Jaqueline destaca uma como divisor emocional: a hidroterapia. “Foi ali o momento mais marcante”, conta. E descreve com riqueza visual: “a gente via através da água da piscina, do vidro, o Peto mexendo as perninhas e caminhando. A Dra. Keila apoiando a parte de trás e o Peto movendo as patinhas traseiras.”
Na linguagem da neurologia, esse é o ponto em que o tutor percebe que o sistema nervoso não está “desligado”. Ele está tentando reorganizar. Na linguagem de Jaqueline, é quando a esperança deixa de ser abstrata.
Keyla reforça o papel dessa etapa no protocolo: “a inclusão da hidroterapia no protocolo foi essencial para o treino de marcha. A repetição controlada do movimento acelerou a recuperação funcional.”
Jaqueline cita ainda ozonioterapia e descreve algo que, para o tutor, vale como evidência concreta: “eu nunca senti o Peto com dor depois que ele começou esse tratamento”. Ela relata o efeito comportamental: “ele voltava das sessões como cachorrinho novo. Queria brincar.” E fala da intensidade do próprio cão: “nem para ir para Rondon ele dormia, pela ansiedade de chegar na clínica”.
Recuperar também é adaptar a casa e aprender a cuidar
A reabilitação não ficou restrita à clínica. Jaqueline descreve aprendizados práticos: “a gente aprendeu muito como cuidar, do potinho de água, do potinho de ração”. Em casa, houve uma intervenção simples, mas decisiva: piso liso. “A dificuldade maior era um piso liso, mas trocamos por tapetes mais emborrachados, antiderrapantes.”
Os “passinhos” começaram. “O Peto começou a dar seus passinhos, os passos começaram a aumentar.” Ela se emociona: “realmente só quem passa por isso sabe”.
No caminho, surgiram complicações típicas de pacientes neurológicos: bexiga. “Apareceram problemas de infecção na bexiga porque ele perdeu a sensibilidade.” Hoje, relata, ele usa fralda “só para o xixi”, enquanto evacuação é normal. “Agora nós vamos começar com um processo de desfralde. Ele sente que precisa fazer xixi, antes ele perdia a urina sem sentir.”
Essa parte do relato é importante porque mostra o que a neurologia chama de função autonômica e o tutor chama de rotina doméstica: higiene, manejo, paciência, adaptação.
Um ano depois: funcionalidade, sequela e qualidade de vida
O trauma de Peto ocorreu em novembro de 2024. Hoje, menos de um ano após a alta da fisioterapia, Peto está bem, acima como seus tutores. “Em novembro de 2025 fez um ano. Hoje graças a Deus está bem, faz a caminhada matinal com o pai, até querendo correr”.
O desfecho não é “perfeito”, e isso dá credibilidade. “Ficou uma sequela da pata esquerda, que ficou um pouquinho lenta, mas hoje o Peto se locomove, o Peto corre, ele brinca”. Keyla resume com a mesma chave clínica: “Peto já recebeu alta da fisioterapia. Ficou com uma pequena sequela, mas tem qualidade de vida, autonomia e vive muito feliz. E isso é o que realmente importa.”
Fabiana, do ponto de vista neurológico, encaixa essa realidade no conceito de recuperação funcional: “um paciente pode atingir recuperação funcional, mas manter déficits neurológicos residuais”. É a ciência descrevendo, com precisão, o que Jaqueline viu em casa.

Arte: Giuliano De Luca/O Presente Pet/ChatGPT
O que essa história ensina para outros tutores
Jaqueline conclui a trajetória com uma frase repetida mais de uma vez: “Quem ama cuida. Quem ama não desiste.” E descreve algo que muitos tutores reconhecem: não é só o animal que é tratado. “Não é só o cão, a gente… é a nossa emoção, a emoção dos tutores.” Ela fala em vínculo e em amparo: “ela (Keyla) que nos confortava quando a gente chegava lá, às vezes desanimado, ela animava a gente”.
O relato da tutora tem um ponto de serviço público: “eu nunca tinha ouvido falar em fisioterapia para cães e realmente existe”. E ela amplia o desejo: “eu gostaria que todos os cães tivessem acesso às técnicas”.
Esse aspecto dialoga como Keyla onserva a evolução da área. “A fisioterapia veterinária tem evoluído significativamente, na consolidação científica, no avanço tecnológico e no reconhecimento profissional”. Ela relata “expansão das técnicas e protocolos baseados em evidências” e “incorporação de recursos mais modernos, eficazes e menos invasivos”. E conclui: “a ampliação dos casos tratados tem comprovado, na prática, a eficácia da fisioterapia, tanto na recuperação neurológica e ortopédica quanto no manejo da dor e no controle de condições crônicas”.
Peto não voltou “intacto”. Voltou funcional, que é, muitas vezes, a diferença entre uma vida limitada e uma vida possível. A medula não foi “consertada” como um cabo trocado; foi reensinada a trabalhar com outros caminhos. Para Jaqueline Huzbach, isso tem uma forma concreta: “ver o Peto feliz”. Para a neurologia, tem nome e mecanismo: neuroplasticidade, reorganização neural, janela crítica de estímulo.
Com O Presente Pet
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