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Consumo de leite tende a continuar elevado neste ano

calendar_month 27 de abril de 2021
6 min de leitura

O mercado de lácteos é bastante variável. Segundo pesquisadores do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, o ano de 2020 foi marcado por adversidades. Do lado da demanda, a pandemia de coronavírus resultou em mudanças bruscas no comportamento do consumidor. Do lado da oferta, o clima prejudicou a atividade, devido às irregularidades das chuvas e às secas extremas, especialmente no Sul do país. Esses dois fatores, combinados, proporcionaram um ano de desequilíbrios entre a oferta e a demanda e de elevação substancial dos preços no campo.

Já para 2021, o Cepea observa que a disponibilidade de matéria-prima deve permanecer limitada, especialmente no primeiro trimestre do ano, com volumes de leite abaixo da média registrada para o mesmo período de 2020. Esse cenário se deve ao clima desfavorável no ano passado (tempo seco e temperaturas elevadas, que prejudicaram as pastagens) e ao aumento contínuo nos custos de produção (os valores dos dois principais componentes da ração, o milho e o farelo de soja, atingiram patamares recordes).

Para o supervisor de Fomento e Política Leiteira na Frimesa, presidente do Conselho de Sanidade de Marechal Cândido Rondon e participante do comitê técnico da Associação Paranaense de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), médico veterinário Eduardo Portugal, os preços pagos aos produtores devem ser melhor para aqueles que focarem na qualidade do produto ofertado.

 

O Presente Rural (OPR): Estamos praticamente entrando na fase crítica da pastagem, que ainda é uma ferramenta importante na alimentação dos animais da produção de leite. Qual a perspectiva para os produtores de leite nesse inverno?

Eduardo Portugal (EP): O inverno sempre favoreceu a cadeia láctea, do produtor até a indústria. Nós estamos vivendo um momento instável pela falta de chuvas e querendo ou não a nossa região tem a cultura das pastagens de inverno. Então, a necessidade de você ter uma comida disponível é fundamental. Dessa forma, estamos aguardando com essa expectativa do período de parição das vacas. Porque o inverno sempre elevou os preços do consumidor, porque o consumidor brasileiro tem essa cultura de aumentar o consumo do café com leite, do queijo. Aliás, o queijo foi o produto da pandemia. Foi o produto mais vendido no país durante a pandemia, o queridinho do Brasil. Houve esse “boom” do consumo e agora uma reação invertida pelo aumento da soja e do milho e o custo de produção da ração, que ficou muito caro. Mas existe um aumento relativo na entrada de leite.

 

OPR: A Frimesa entrou em várias regiões do Paraná e outros Estados. Qual é a perspectiva do rebanho leiteiro nessas regiões onde a Frimesa atua?

EP: Nós temos uma semente muito bem plantada, não somente no Oeste do Paraná, mas também no Sudoeste, nas cidades de Capanema e São João, em Santa Catarina, na cidade de Aurora, e no Mato Grosso do Sul temos, em Mundo Novo, uma unidade nossa. No Paraná tudo começou com a importação das novilhas uruguaias, lá no final dos anos 1980, quando importamos 14 mil novilhas uruguaias, junto com as cinco cooperativas filiadas. E concomitante a isso, no Governo do Estado entrou o PIA (Programa de Inseminação Artificial). A nossa região, naquela época, consumia 40% do sêmen do Estado. Então houve um “boom”, porque a nossa média de vaca há 30 anos era três litros de leite. A partir do momento que foram trazidos animais de fora, com genética holandesa, e mais sêmens disponíveis quando o produtor viu uma novilha de primeira lactação chegando a 20, 25 litros ele não acreditava.

 

OPR: Atualmente, qual é a média de produção?

EP: Hoje há aproximadamente 1,1 milhão de produtores de leite no país. Para se ter uma ideia, 30% destes produtores produzem 70% da produção nacional. Então, ainda estamos tecnificando a atividade. Temos que aumentar. Temos que entender que a atividade do leite é a única atividade mensal. Tirando hortifrutigranjeiro, é a única atividade que o produtor sabe que existia o famoso cheque do leite alguns anos atrás. Isso dá uma sustentação grande do giro do dinheiro.

 

OPR: Quais são as perspectivas de preço para o produtor? São boas?

EP: Quando você analisa e vê uma caixinha de leite longa vida a R$ 4,50, percebe que isso é 50% do valor numa caixinha. Então, o problema não é o que ele recebe, é o que sobra no momento pelo custo do insumo alto. Temos que lembrar que para cada quilo de ração que o produtor deixa de dar para a vaca é de 2,5 a três litros a menos de leite que produz, dependendo do nível genético do animal. Já está havendo uma seleção natural. Vimos que no suíno houve esse crescimento, as grandes propriedades de terminação, hoje vemos aviários com 25 mil aves. Para os players de leite hoje no Brasil o assunto mais discutido entre as grandes empresas é o sistema de captação. É ali que tem impacto. Se você pega uma empresa que tem custo de recepção de leite de R$ 0,40, tem custo de R$ 0,10. Imagina dentro da cadeia láctea na hora que chega ao ponto de venda a sua competitividade. Então agora houve uma evolução grande.

 

OPR: A tendência do produtor de leite é seguir esse caminho dos suínos e aves?

EP: Com certeza. Diminuir o número de propriedades e aumentar o volume. Porque inclusive, a pedido do diretor executivo (da Frimesa), Elias Zydek, hoje já estou trabalhando focado em certificação da propriedade – onde está o leite que eu preciso. A gente acompanha o processo de evolução. A Frimesa fez agora em abril a primeira exportação de queijo para a China. Já temos contato com o México para o leite condensado. No ano passado, quando houve um “boom” da nossa unidade, que cresceu, tivemos parceria com a Coreia por dois anos. Vendemos por dois anos queijo para a Coreia. Vai haver essa seleção natural e vemos o crescimento das empresas.

 

OPR: Todos os derivados de animais tiveram evolução de preços, conforme a matéria-prima. O leite não tem isso, por quê?

EP: Ele passou pelo “boom”, e agora nós estamos lançando produtos, como iogurtes, entramos nos gregos, lançamos alguns tipos de queijos diferentes e existe a evolução de parcerias. Você precisa ter parceria. Temos produtos finos, agora atinge quem? Qual a camada da população? Leite atinge todas as camadas, porque tem produtos de preços variáveis. Agora atinge de menor renda, como o leite e o iogurte. Tanto é que os R$ 600 do auxílio emergencial foram bastante usados para comprar leite, que foi o produto mais vendido durante a pandemia. Isso mostrou que o leite é um gênero de primeira necessidade. Agora que já saíram as outras parcelas do auxílio emergencial, tenho certeza de, por entender qual o consumo familiar, o leite vai se destacar novamente, mas não com a mesma intensidade do ano passado.

 

OPR: Há perspectivas de novos investimentos na unidade de Marechal Cândido Rondon da Frimesa?

EP: Nós já elevamos a nossa capacidade. Foram comprados cinco silos de 90 mil litros e três de 125 mil litros. Estamos reestruturando; já foi montado. Nós sempre precisamos ter processos de melhoramento.

 

O Presente Rural

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