O sistema cooperativista do Oeste do Paraná estruturou-se a partir de uma forte convergência de interesses econômicos e políticos, com intenso apoio estatal. No entanto, os colonos que aqui se estabeleceram tinham uma tradição associativista desde os seus locais de origem, moldada pela necessidade de resolver os seus problemas de forma coletiva.
A história conta que Willy Barth, diretor da colonizadora Maripá, orientava os corretores que iam aos Estados do Sul para vender as colônias de terras, de que teriam que dar preferência de venda àqueles agricultores familiares com “pendor associativista” e que participassem de congregações religiosas.
Conforme os dados do Censo Agropecuário de 2017, em média 54% dos estabelecimentos agropecuários das regiões de Toledo, Cascavel e Campo Mourão são associados a cooperativas. A região de Toledo se destaca com 65% de agricultores associados, mostrando que o “pendor associativo” dos pioneiros se manteve nas gerações seguintes.
Esta marca tradicional certamente estava incorporada nos pioneiros que fundaram as cooperativas na região Oeste nas décadas de 60 e 70. No entanto, as ações governamentais, através do Programa Iguaçu de Cooperativismo, com crédito subsidiado e assessoria técnica, alavancaram as cooperativas de meros postos de comercialização de produtos para ativos agentes do agronegócio internacional, atuando em toda a cadeia produtiva, desde o fomento ao plantio, até a transformação agroindustrial e a exportação.
A visão do cooperativismo, como agente do desenvolvimento regional através da diversificação de atividades e da agroindustrialização, foi introduzida principalmente por assessores em cooperativismo, principalmente aqueles provenientes da antiga Associação de Crédito e Assistência Rural do Paraná (Acarpa). Prova disso é que, atualmente, as quatro maiores cooperativas que atuam na região Oeste têm na sua direção agrônomos remanescentes da assessoria em cooperativismo daquele órgão, hoje Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná).
O crescimento vertical das cooperativas agroindustriais também teve efeitos excludentes sobre uma significativa camada de agricultores Esta exclusão pode ser devido à reduzida escala de produção dos estabelecimentos ou à incapacidade do associado em se adequar às exigências ambientais e de qualidade, ou por opção do agricultor em negociar a sua produção diretamente com empresas cerealistas.
No entanto, uma parcela destes agricultores familiares formou novas organizações, sendo que somente na região de Toledo há registradas quatro cooperativas e 26 associações atuando na comercialização de produtos diversos da agricultura familiar, que agregam cerca de 1,5 mil associados e faturam em torno de R$ 6 milhões ao ano.
Se as grandes cooperativas, inicialmente apoiadas com fartos recursos públicos, hoje andam com as próprias pernas, as pequenas cooperativas e associações da agricultura familiar também contam com apoio governamental, tanto através dos programas de aquisição de alimentos como em programas especiais de estímulo a investimentos, como o Coopera Paraná, que apoia a estruturação destas organizações.
Desta forma, o cooperativismo e o associativismo persistem na região Oeste, sendo alternativa de segurança para os agricultores familiares ante a exploração de monopólios privados e multinacionais.
Urbano Mertz é engenheiro agrônomo do IDR-Paraná e presidente do Conselho de Desenvolvimento Agropecuário de Marechal Cândido Rondon
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