O Comitê de Política Monetária (Copom) impôs um aumento de 0,75 ponto percentual na taxa Selic, que passou de 2% para 2,75%, no último dia 17. A taxa não recebia aumentos há seis anos e vinha em uma queda vertiginosa, considerando que, em 2015, a Selic estava em 14,25%.
O que não foi novidade para os economistas, em virtude dos anúncios dos boletins econômicos, chamou a atenção de parte da população: por que um aumento em uma taxa reguladora em um momento de pandemia?
De acordo com o economista e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), campus Toledo, Jandir Ferrera de Lima, a taxa Selic é justamente um instrumento para diminuir a pressão no Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). “Selic significa Sistema Especial de Liquidação e Custódia do Banco Central (BC) e é por meio dela que se faz a negociação dos títulos públicos e federais. A taxa Selic baliza os juros básicos da economia brasileira, em especial aqueles que remuneram esses títulos negociados no dia a dia do mercado. Os títulos públicos federais são o meio pelo qual o governo federal capta dinheiro para custear as suas contas”, explica, sintetizando: “Se o governo precisa de dinheiro além dos impostos arrecadados, ele capta isso no mercado financeiro por meio desses títulos públicos e federais, que são balizados pela taxa Selic”.
POR QUE AUMENTOU?
A taxa Selic, aponta Lima, é a base dos juros cobrados no Brasil e é definida em função da meta de inflação. “Quando a meta de inflação oscila para cima, o governo federal, por meio do Banco Central, que é o responsável pela política monetária, mexe na taxa Selic. Uma inflação mais alta faz com que o BC aumente a Selic para tentar reverter a alta nos preços”, expõe.
O economista explica que a taxa Selic ajuda a diminuir a inflação, uma vez que torna o crédito mais caro. “As pessoas demandarão menos dinheiro, pedirão menos empréstimos para consumir e principalmente financiar. O financiamento de imóveis e de automóveis fica mais caro. O crediário pessoal fica mais caro e, com isso, as pessoas tendem a diminuir o nível de consumo. Diante disso, os empresários diminuem os preços para atrair os consumidores com preços melhores. Consequentemente, diminui-se a inflação”, menciona.

Economista e professor da Unioeste, Jandir Ferreira de Lima: “Quando a meta de inflação oscila para cima, o governo federal, por meio do Banco Central, mexe na taxa Selic. Uma inflação mais alta faz com que o BC aumente a Selic para tentar reverter a alta nos preços” (Foto: Divulgação)
QUEDA NAS COMMODITIES
Com a taxa de juros mais alta, Lima pontua que investidores internacionais que apostam em títulos públicos federais também são atraídos. “Esses investidores trazem dólares para o Brasil. Com uma entrada significativa de dólares, a taxa de câmbio, ou seja, a relação entre o real e uma moeda estrangeira, faz com que o real se valorize e o valor do dólar diminua. Com a queda do câmbio, os preços que são margeados pelo dólar também sofrem impacto positivo”, informa.
Os preços altíssimos cotados no mercado internacional tendem a diminuir. “Com a estabilização do câmbio, mercadorias como petróleo, soja e demais commodities têm o preço diminuído em reais”, exemplifica.
RENTABILIDADE DOS INVESTIMENTOS
Para aqueles que possuem recursos sobrando, o momento pode ser vantajoso, avalia o economista. “Por meio do Tesouro Direto, pode-se comprar títulos públicos federais ou então aplicar nos fundos de renda fixa. As pessoas deixam de consumir para ganhar dinheiro com a taxa de juros mais alta”, menciona.
Por outro lado, o investimento nesse momento fica dificultado, observa Lima. “O dinheiro fica mais caro e as pessoas adiam o consumo. Quem iria investir prefere aplicar o dinheiro e ganhar com a especulação dos títulos públicos. O empresário que buscaria dinheiro no mercado financeiro vê as taxas de juros mais altas. De certa forma, o aumento da Selic diminui a rentabilidade dos investimentos”, enaltece.
Segundo ele, a Selic abaixo da inflação não atrai investidores em algumas ocasiões. “Por outro lado, mesmo com o aumento em 0,75 ponto percentual, alguns investimentos seguem atrativos. Por exemplo, investimentos em imóveis que têm taxas diferenciadas nos bancos. Para aqueles que vão aplicar no mercado financeiro, a poupança fica mais atrativa do que algumas aplicações com taxa de administração altas”, detalha, orientando: “Varia de investidor para investidor o que fazer com o seu dinheiro, mas, como a taxa de juros no mercado imobiliário ainda está muito baixa, eu diria que imóvel continua sendo uma boa opção”.
IMPACTO NA INFLAÇÃO
O professor da Unioeste diz que tanto o crédito mais caro, a pressão para empresários diminuírem margem de lucro, a entrada de dólares na economia brasileira quanto a diminuição na taxa de câmbio e a consequente queda no preço das commodities causam um impacto na inflação. Então, comenta ele, mesmo que os investimentos fiquem minguados, o objetivo do Banco Central é atingido.
“O foco da alta da Selic é o controle da inflação que nos últimos 12 meses passou da casa dos 5%. Isso fez com que o BC tomasse medidas drásticas para amenizar os preços”, enfatiza.
MARGEM PARA MAIS AUMENTOS
Tendo em vista que a taxa Selic está bem abaixo da inflação, Lima expõe que há muita margem para que o BC aumente a Selic. “A taxa Selic é usada como instrumento no combate à inflação. Então, enquanto a inflação estiver acima da meta a tendência é a Selic aumentar gradativamente, até que os preços se acomodem”, projeta.
Por outro lado, a Selic se manteve estável nos últimos anos justamente pelo fenômeno contrário, a queda acentuada da inflação. “Isso aconteceu pela queda das commodities no mercado internacional, pela estabilidade do câmbio e pelas expectativas positivas de crescimento da economia brasileira antes da pandemia. Houve também a questão da crise econômica, quando as empresas tiveram dificuldades de vendas e se obrigaram a diminuir margens de lucro. Nesse cenário, a inflação ficou estável”, rememora o economista.
VARIAÇÃO CAMBIAL
Na avaliação dele, muito da alta da inflação está ligada à variação cambial. “O dólar saiu de quase R$ 4 e chegou a mais de R$ 5,5. O aumento do câmbio pressionou o preço das commodities. Então, bastante do que hoje estamos sofrendo de inflação está ligado a essa variação cambial. Se o aumento na taxa Selic conseguir atrair investidores internacionais e nós aumentarmos o fluxo de dólares no mercado interno, além de aumentar a confiança dos investidores, acredito que a medida do BC pode, a médio e longo prazo, conter parte da alta inflacionária”, avalia.
RETOMADA DA ECONOMIA
Mesmo com as estratégias tomadas pelo Banco Central para conter a inflação, o professor da Unioeste destaca que a retomada da economia por completo depende de uma série de fatores. “Primeiramente, precisamos da vacinação maciça da população, porque enquanto as pessoas não estiverem imunizadas e com eficácia da vacina teremos esse abre e fecha, lockdown e risco de apagão em algumas áreas”, enfatiza.
Lima afirma que outro fator determinante é a retomada da confiança dos investidores. “Isso deve acontecer não só em relação ao crescimento da economia, mas também sobre ações do governo, principalmente na área de infraestrutura. O Brasil sempre foi dependente de investimentos públicos na área de infraestrutura e agora os governos priorizam outros investimentos. Deveria haver uma agenda de investimentos nesse setor”, entende, emendando que uma escapatória para essa problemática é a parceria público-privada: “Concessão de rodovias, ferrovias e aeroportos poderiam ser nessa parceria, mas as propostas esbarram em interesses regionais e, além disso, seriam de médio a longo prazo”.
Outro elemento para a retomada da economia, na opinião do economista, é a reestruturação do setor público. “As pessoas querem o melhor retorno dos seus impostos. Para isso, uma série de ações e reformas em áreas estratégicas do governo vêm sendo desenhadas. Uma delas foi a da previdência, mas existem outras áreas que precisam de reformas, como a reforma política, administrativa e assim por diante. É preciso uma ampla discussão com a sociedade, com servidores públicos, organizações da sociedade civil para que haja um consenso nessas reformas”, finaliza.
O Presente