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De Marechal Cândido Rondon para o mundo… de bicicleta!

calendar_month 9 de junho de 2017
15 min de leitura

Por Cristiano Viteck

 

"Aos 19 anos deixei a casa da família pela primeira vez e fui morar em Marechal Cândido Rondon, onde a minha vida começou a mudar de uma maneira inimaginável. A cidade tinha uma realidade diferente: uma grande parcela da população se deslocava pelas ruas e avenidas com a utilização da bicicleta. Como eu gostava de pedalar desde pequeno, a atividade passou a ser praticada diariamente. No entanto, novos acontecimentos me fizeram conhecer outras possibilidades oferecidas pela bicicleta, entre elas, viajar. Essa descoberta me levou a realizações inacreditáveis”.

 

É assim que Nelson Gomes de Souza Neto começa a contar sua história como ciclista aventureiro, no recente livro biográfico “A vida por outros caminhos: as expedições de bicicleta que mudaram uma história”. A obra cobre o período de quase uma década de cicloturismo selvagem – como define o autor -, que iniciou pelas ruas da cidade rondonense e parece não ter mais limites e nem fronteiras.

Neto nasceu na cidade de São Paulo (SP) em 1985 e, entre uma mudança e outra, aos 12 anos foi com a família para Foz do Iguaçu. Chegou a época do vestibular e, então, em 2005, com a aprovação mudou-se para Marechal Cândido Rondon para cursar História. Levava uma vida normal de universitário, até que o fim do relacionamento com a namorada marcou o início da transformação do pacato estudante.

Triste com a situação, para não ficar sozinho no apartamento começou a pedalar pelas ruas da cidade. A cada dia, como ia tomando gosto pelas pedaladas, avançava sempre um pouco mais. Certa vez chegou ao fim da ciclovia que leva até o frigorífico de aves da cidade. Daquele local, a vista do horizonte se estende por incontáveis quilômetros. “A curiosidade me instigava a descobrir o que tinha além. A reação foi como um despertar”. Nascia ali, naquele momento, um aventureiro obstinado sobre duas rodas.

Neto não parou mais. Os limites da cidade já eram pequenos. A estrada o desafiava. Veio a primeira viagem de bicicleta: para Foz do Iguaçu, reencontrar a família. Logo depois vieram outras, maiores e mais difíceis, sozinho ou acompanhado. Travessia do Paraná, saindo também de Marechal Rondon. Travessia do Oceano Atlântico ao Pacífico. Viagens por Estados brasileiros nas regiões Sudeste e Sul. Depois, de Curitiba (PR) a Buenos Aires, na Argentina.

Todas estas jornadas – feitas com pouco dinheiro no bolso, mas muita vontade nas pernas – são minuciosamente contadas e fartamente ilustradas por fotografias no volume 1 do livro “A vida por outros caminhos”, ao qual até o final do próximo ano, Neto acredita, deverá se somar o volume 2, no qual contará, entre outros eventos, a viagem de 14 meses, sozinho, pela América do Sul.

Com o coração batendo forte pela paixão pelo ciclismo e pelo amor à esposa Fabi Gomes, também aventureira, e feliz com a excelente repercussão de seu livro, Neto concendeu entrevista ao Jornal O Presente. Respondeu direto da cidade italiana de Belluno, um dos pontos do roteiro da atual viagem dele pela Europa que foi viabilizada, é claro, pelos convites recebidos dos amigos que fez durante os últimos anos, viajando de bicicleta.

Aliás, pergunte ao casal onde fica a casa deles atualmente. Nem eles sabem, pois até o início de março moravam em Florianópolis (SC), mas após a publicação do livro deixaram a conhecida Ilha da Magia para viver na estrada. Definitivamente, é ou não uma vida por outros caminhos?

 

O Presente (OP): Você começou a se envolver com o ciclismo em um momento de crise emocional. O que a bicicleta te proporcionou naquele momento?

Nelson Neto (NN): Em Marechal Rondon comecei a namorar. Porém, o final do relacionamento me deixou muito mal. Jovem e com o coração partido, passei por um momento complicado em que nenhum pensamento positivo ganhava espaço na minha cabeça, pelo menos até o dia em que eu resolvi sair de casa para pedalar sem rumo pelas ruas e avenidas do município. A iniciativa me levou à saída da cidade em direção a Foz do Iguaçu, exatamente onde está localizado o frigorífico. Naquele ponto eu parei, observei a paisagem que estava na minha frente e fiquei extremamente curioso para saber o que tinha além do horizonte. Foi então que comecei a pensar na ideia de desvendá-lo de bicicleta. Voltei para casa com a perspectiva de que nem tudo estava perdido. Naquele momento a bicicleta representou, literalmente, a minha salvação. Os meus pensamentos ficaram voltados a conhecer aquele território pedalando. Minha tristeza havia se transformado em esperança.

 

OP: Como a paixão surgida pela liberdade proporcionada pela bicicleta se transformou em um forte interesse em praticar o cicloturismo de grandes distâncias?

NN: Minha primeira viagem a Foz do Iguaçu me apresentou realidades, aprendizados e sentimentos que eu realmente não imaginava conhecer. O deslocamento com a bicicleta era mais lento se comparado com outros meios de transporte. Esse detalhe proporcionava a oportunidade de observar melhor tudo aquilo que estava ao meu redor. Além disto, eu tinha tempo – tão escasso nos dias atuais – para pensar, principalmente sobre aquela nova realidade e o comportamento das pessoas que encontrava pelo caminho. A incomum passagem de um ciclista viajante despertava as mais variadas reações. Contudo, notei que a minha aproximação com essas pessoas me fazia descobrir o lado extremamente humano delas. A maioria não hesitava em me ajudar de alguma maneira. Após terminar essa primeira viagem, minha vontade era conhecer outras culturas, pessoas e histórias. E isso o cicloturismo proporcionava de uma maneira incrível. A cada nova expedição eu também ficava surpreso em saber que os meus limites eram desconhecidos ao superar distâncias e situações que pareciam intransponíveis.

 

OP: Qual era a reação da família e amigos quando você iniciava uma nova aventura?

NN: Quando os amigos souberam a respeito da possibilidade da primeira viagem eu fui rapidamente taxado de louco. Para eles, viajar de bicicleta parecia uma atividade fora do normal. Como a reação não me ajudava a colocar o plano em prática, não comentei mais nada e mantive a iniciativa no anonimato até o momento da partida. Eu tinha ideia das dificuldades. Porém, nunca acreditei que era impossível e tampouco que se tratava de uma loucura da minha cabeça. Também procurei não contar nada para a família porque eu suspeitava que a reação não seria muito diferente. O meu pai sempre foi muito protetor e provavelmente não mediria esforços para me fazer desistir da “brilhante ideia”. Dessa maneira, a chegada a Foz do Iguaçu foi uma surpresa para toda a família. Espantados, perguntaram se eu tinha realizado a viagem em cima da carroceria de um caminhão. Carona? Não! Eu realmente havia acabado de pedalar pelo trajeto da Costa Oeste. Era tão inacreditável que meu pai nem mesmo me repreendeu. Após essa primeira experiência, amigos e familiares começaram a me apoiar ao perceber que, definitivamente, não era uma loucura e existia um planejamento e todo um cuidado, principalmente nas expedições realizadas posteriormente. Assim, toda vez que eu voltava vivo de uma viagem eu aumentava a minha credibilidade, sobretudo, com a família.

 

OP: Além do esforço necessário para superar a distância e os imprevistos, quais são as principais dificuldades encontradas nas viagens?

NN: Sem dúvida são aquelas relacionadas à natureza. A principal talvez seja uma unanimidade entre os ciclistas: o vento contra. Quando ele aparece os esforços se multiplicam exigindo muito mais da parte física e psicológica. Os extremos também são um grande obstáculo na estrada. Pedalar com muito calor ou muito frio requer cuidados especiais para não ficar pelo meio do caminho. O relevo montanhoso também entra na lista. Superar as subidas mais íngremes é um desafio e tanto. Quando o assunto é referente às dificuldades e obstáculos na estrada, as pessoas geralmente perguntam sobre a questão da violência e o trânsito. É evidente que as duas temáticas não podem ser desconsideradas, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo. Ninguém está isento de ser vítima delas, contudo, é possível minimizar os riscos. Em uma década na estrada nenhum caso mais sério ocorreu comigo.

 

OP: Teve algum momento, em alguma expedição, em que as dificuldades – excluindo as financeiras – lhe fizeram pensar em desistir?

NN: Uma vez aconteceu uma situação em que me perguntei: o que estou fazendo aqui? Foi no Norte do Chile, durante a expedição realizada em 2007/2008. A equipe se separou e cada um seguiu sozinho ao destino final. Cheguei a um povoado para montar acampamento e passar a última noite da viagem. Fui solicitar a permissão para pernoitar no terreno pertencente à polícia chilena. Na época meu espanhol era muito básico, mas um policial autorizou minha presença. Aliviado, montei o acampamento e fui ao banheiro público em frente ao posto policial. No entanto, quando voltei para a barraca, o mesmo policial me barrou no portão e questionou em um tom nada amistoso: aonde você vai? Estranhei aquele comportamento e expliquei que tinha recebido a autorização para pernoitar no local. Apesar de não dominar o idioma local, não era possível que eu tinha entendido errado. Eu jamais permaneceria em um posto policial sem a devida autorização. Assustado, a primeira ideia que apareceu foi montar acampamento na calçada, mas fui advertido de que não era permitido. Indignado pela situação, quase chorei enquanto colocava a bagagem na bicicleta e me perguntava o que eu estava fazendo naquele maldito local. Não pensei em desistir, pois naquele momento essa decisão não adiantaria nada. Voltei a pedalar pelo povoado para procurar um local para pernoitar. Encontrei algumas pessoas que se solidarizaram com a minha situação e ofereceram o quintal de uma casa para eu dormir.

 

OP: A solidão é uma companheira da viagem. Como lidar com ela?

NN: Durante as várias horas na estrada eu pensava na minha família e amigos, mas para não deixar a solidão predominar em sua plenitude eu também fazia outras reflexões. Afinal, o precioso tempo me permitia a grandeza de simplesmente pensar. Eu observava, por exemplo, as plantações que encontrava pelo caminho e começava a pensar como funcionava o complexo ciclo que era realizado até aquele alimento parar na mesa das casas e, muitas vezes, no lixo, resultando em enorme desperdício em uma sociedade onde muitas pessoas passam fome. Eu também utilizava o tempo disponível para pensar e me colocar no lugar do outro e não fazer julgamentos sobre comportamentos que, a princípio, não conseguia compreender. Como a monotonia praticamente não existe em uma viagem de bicicleta e cada quilômetro apresenta uma surpresa, o que não falta é companhia, mesmo que elas estejam relacionadas “apenas” a pensamentos.

 

OP: Você iniciou a vida no ciclismo em Marechal Rondon, que já foi conhecida como a cidade das bicicletas. Passou também por incontáveis cidades brasileiras. A estrutura urbana no Brasil convida as pessoas a escolherem a bicicleta como um meio de transporte no dia-a-dia?

NN: A estrutura urbana destinada exclusivamente à utilização da bicicleta no Brasil é muito pouco convidativa. Entendo que a convivência harmônica entre veículos, bicicletas e pedestres é possível somente com muita educação sobre o trânsito voltada para todos aqueles que fazem parte dele, inclusive o ciclista. Porque não adianta você ter uma excelente rede de ciclovias e ciclofaixas se, ao sair dela, você não sabe como se comportar no trânsito. Assim como não adianta fazer a sua parte enquanto um ciclista consciente se o motorista não respeitar a sua presença e compreender que você também faz parte do trânsito. Por isso a educação é fundamental. Eu costumo dizer, se é possível viajar de bicicleta, tem que ser possível utilizá-la no dia-a-dia.

 

OP: Em seu livro, em vários momentos você contrapõe o estilo de vida que escolheu como cicloturista com outro estilo que é entendido como normal pela sociedade. Quais são os pontos positivos e negativos de viver “a vida por outros caminhos”?

NN: Não consigo pensar em um ponto negativo. Conhecer o mundo a partir da perspectiva de quem utiliza a bicicleta possibilita uma aproximação maior com as pessoas e a realidade em que elas estão inseridas. Isso permite que você tenha opiniões e reflexões próprias a partir daquilo que observou com os próprios olhos e não somente porque alguém falou ou estava escrito em uma revista ou apareceu na televisão. Esse conhecimento prático revela inúmeras surpresas, pois muitas vezes apresenta um mundo diferente daquele que foi ensinado para a gente. Os paradigmas são quebrados quando você compreende que não existem verdades absolutas e que definições e reproduções sobre um povo, uma cidade ou um país podem ser totalmente equivocadas. A partir deste entendimento é possível se tornar mais flexível, independentemente da situação. Este estilo de vida também ensina a valorizar mais as coisas, desde aquelas simples até as relações pessoais. Além disto, você aprende que os seus limites – na estrada e também fora dela – muitas vezes são desconhecidos e que os obstáculos dificilmente são instransponíveis.

 

OP: Para quem tem interesse em iniciar no cicloturismo, quais as principais dicas?

NN: Em primeiro lugar, acreditar que é possível. Depois é procurar uma bicicleta confiável para não ficar pelo meio do caminho. Isso não significa que você seja obrigado a comprar uma bicicleta moderna e cara. Iniciei no cicloturismo com uma simples bicicleta – de ferro e apenas 18 marchas. Procure se preparar física e psicologicamente porque na estrada (assim como na vida) tudo pode acontecer e quando a balança desequilibrar, um lado pode ajudar o outro desde que esteja preparado para essa missão. A liberdade sem os devidos cuidados pode ser muito perigosa. Cair na estrada sem muito planejamento pode resultar em situações complicadas e inesperadas. Portanto, não hesite em pesquisar bastante para onde você deseja viajar, o que pretende conhecer e como será o seu estilo de viagem. Planejamento financeiro também é fundamental. No mais, prepare-se para conhecer um universo surpreendente e esteja consciente que após a primeira viagem, você nunca mais será o mesmo.

 

Viagens de Nelson Neto com bicicleta

• 2006: Marechal Cândido Rondon a Foz do Iguaçu (PR) – 175 km – sozinho – 1 dia.

• 2007: Travessia do Paraná – Marechal Cândido Rondon a Matinhos (PR) – 736 km – sozinho – 5 dias.

• 2007/2008: Do Atlântico ao Pacífico – Foz do Iguaçu a Antofagasta (Chile) – Passagem pelo Paraguai e Argentina – 2.420 km – acompanhado – 17 dias.

• 2008/2009: Curitiba ao Rio de Janeiro – 1.025 km – acompanhado – 7 dias.

• 2010: Foz do Iguaçu a Belo Horizonte (MG) – 2.437 km – acompanhado – 30 dias.

• 2010: Expedição de Inverno – Curitiba a Buenos Aires – Roteiro: PR, SC, RS e Uruguai – 1.680 km – acompanhado – 13 dias.

• 2010/2011: Expedição de Verão – Foz do Iguaçu a Florianópolis – 1.193 km – acompanhado – 9 dias.

• 2012/2013: Volta pela América do Sul – saída e chegada em Foz do Iguaçu. Roteiro: Paraná, Mato Grosso do Sul, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Roraima, Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo – 21.265 km – sozinho – 434 dias.

• 2014: Volta ao Parque Nacional do Iguaçu – 400 km – acompanhado – 4 dias.

• 2016: Expedição de 10 anos – Vale Europeu (SC) – 300 km – acompanhado – 3,5 dias.

 

(*) Detalhes e fotos das

expedições em:

www.cicloturismoselvagem.com.br.

 
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