Duas datas importantes na história da Itaipu Binacional são comemoradas neste mês: a sua criação, em 17 de maio de 1974; e o início da produção de energia, em 05 de maio de 1984. A “obra do século”, como foi chamada à época, é hoje a maior usina do mundo em geração de eletricidade. Só nestes cinco primeiros meses de 2018, a usina produziu 36,4 milhões de megawatts-hora (MWh).
Como nossa área técnica gosta de comparar, toda essa energia acumulada em 2018 seria suficiente para atender o consumo de eletricidade do Brasil inteiro por 28 dias ou, ainda, quase mais dois anos e meio do consumo paraguaio, os dois países sócios no empreendimento. Nem mesmo aqueles que estudaram, projetaram e construíram Itaipu poderiam acreditar que seria possível extrair tanta energia das águas do Rio Paraná.
Resultado de um trabalho incansável de diplomatas e juristas do Brasil e do Paraguai, com base em análises e projeções técnicas que se estenderam ao longo de muitos anos e culminaram com a assinatura do Tratado de Itaipu, em 26 de abril de 1973, a usina binacional nasceu oficialmente 13 meses depois, numa solenidade em que foram empossados os integrantes do primeiro Conselho de Administração e da Diretoria.
Sob o comando dos primeiros diretores-gerais – José Costa Cavalcanti, pelo Brasil, e Enzo Debernardi, pelo Paraguai -, Itaipu foi constituída para “estudar, projetar, dirigir e executar as obras que tem como objeto, pô-las em funcionamento e explorá-las, podendo, para tais efeitos, adquirir direitos e contrair obrigações”, como estava previsto no Tratado à qual a binacional se submete. Itaipu é “um modelo admirável de cooperação internacional”, como disse o jurista Miguel Reale, um dos principais responsáveis pelos estudos jurídicos que levaram ao documento assinado por Brasil e Paraguai.
Itaipu foi surpreendente desde o início das obras, que nunca foram paralisadas mesmo com graves crises econômicas enfrentadas pelo Brasil, na década de 1980. E foi assim, com a persistência de seus dirigentes e com o trabalho hercúleo desenvolvido no canteiro de obras e nas fábricas que forneceram as máquinas para a usina, que Itaipu iniciou a produção de energia.
Ainda de forma tímida, gerando inicialmente apenas para o sócio paraguaio, Itaipu produziu em sete meses, com duas unidades geradoras em operação, 277 mil MWh. Hoje parece pouco, comparando-se, por exemplo, ao total produzido ao longo destes cinco meses de 2018. Mesmo assim, a produção de 1984 seria suficiente para atender o consumo de eletricidade de uma cidade de mais de 200 mil habitantes.
Depois dos números grandiosos dos nove anos da etapa de obras – 40 mil trabalhadores no período de pico, lançamento de concreto suficiente para construir um prédio de dez andares a cada hora -, vieram os sucessivos recordes de produção, quebrados ano a ano e, às vezes, até mês a mês. A instalação de mais duas unidades geradoras, que passaram a operar nos anos de 2006 e 2007, ampliou essa “vocação” para os recordes. E foi assim que, em 2016, Itaipu atingiu o que parecia impossível: produziu no ano 103 milhões de MWh, recorde mundial absoluto. Nem os estudos mais otimistas poderiam prever que, um dia, Itaipu ultrapassaria a marca anual dos 100 milhões de MWh, embora já se soubesse que a usina binacional seria vital para garantir o futuro do Paraguai e fundamental para atender ao consumo crescente de energia elétrica do Brasil, principalmente das regiões mais industrializadas.
Toda essa riqueza gerada em energia, hoje equivalente a 16% do consumo do Brasil e 90% do Paraguai, representa ainda inúmeros benefícios, traduzidos pelos royalties pagos pela exploração energética do uso do reservatório. Só referente a esses recursos, Itaipu já pagou mais de US$ 11 bilhões para os dois países. Esses investimentos são aplicados em infraestrutura, educação, desenvolvimento, tecnologia e ações sustentáveis, entre outras. No lado brasileiro, a ampliação da missão da usina permitiu uma atuação em programas e ações nos 54 municípios da região, beneficiando direta e indiretamente mais de 1,3 milhão de pessoas.
A usina de Itaipu vive hoje uma nova realidade, mas os desafios estão sempre presentes. O principal deles, claro, é gerar energia limpa e renovável, que influencia fortemente as matrizes energéticas do Brasil e do Paraguai, reduzindo a dependência de fontes poluentes. Mas cabe a Itaipu, com a sua missão ampliada, atuar tendo como foco a responsabilidade social e ambiental, contribuindo para impulsionar o desenvolvimento sustentável dos dois países, com ações em parceria e em consonância com as recomendações dos organismos internacionais mais respeitados, como no caso da plataforma global da ONU, que preconiza a agenda 2030 com 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e 169 metas.
Neste mês de maio, com suas duas comemorações – o “nascimento” e o início de sua vida ativa -, a usina de Itaipu é para o mundo o melhor exemplo de como a cooperação entre países pode contribuir para o crescimento econômico e o fortalecimento da integração e da verdadeira amizade entre os povos.
Marcos Stamm, diretor-geral brasileiro da Itaipu Binacional