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É preciso refletir sobre as nossas crianças – por Silvana Nardello Nasihgil

calendar_month 26 de fevereiro de 2019
4 min de leitura

Hoje, lendo alguns artigos de Psicologia que falam da infância e da adolescência, me surgiram muitos questionamentos. Traçando um paralelo entre a ciência e a prática da Psicologia, preciso admitir que os teóricos tiveram muito trabalho, pois produziram conhecimento muito pontual e condizente com a realidade observada no cotidiano.

Então… vivemos em uma época de muitos estímulos. As crianças nascem e não têm o desejo de ter algo, pois, ainda muito pequenas, sequer conhecem a respeito do mundo consumista e as opções. Contudo, os pais já começam a aparelhar o mundo do bebê. Não faltam objetos eletrônicos que fazem barulho e movimentos de toda a natureza para atrair a atenção, e milhares de bugigangas que deixam os bebês meio zonzos. Mal começam a engatinhar e chega o tablet, a televisão e muitos brinquedos com o intuito de desenvolver os sentidos.

Nessa parafernália toda, muita gente dá o que pode e o que não pode, esquecendo que nada nesse mundo substitui a atenção e o amor.

Essas crianças vão crescendo, e com elas uma grande parcela de pais e mães vão ampliando o leque de objetos, os quais, muitas vezes, vêm para preencher muito mais a fantasia dos pais do que propriamente das crianças.

E chega a hora de ir pra escolinha, cada um no seu momento. Aos pais cabe decidir, por entenderem que é chegada a hora ou por necessidade. Aqui, creio eu, começa o martírio infantil. Agora que a criança já caminha, fala e sabe perguntar, então é o momento de não perder tempo. E essa criança muito provavelmente irá precisar de uma agenda física, porque será agregada à sua vida uma infinidade de responsabilidades.

Responsabilidades??? Sim!!!

Serão cobradas coisas que substituirão o brincar, o interagir com outras crianças e mesmo com a família. Serão cobradas atitudes perante a vida que na maioria das vezes a pouca idade não consegue compreender.

Vejo hoje crianças de cinco, seis anos de idade que sem saber porque, sem sequer compreenderem seu lugar na família e no mundo, sem terem descoberto dons ou habilidades, são colocadas em aula de informática, piano, violino, teclado, inglês, judô e muitos outros cursos que, segundo os pais, virão para ampliar a área de conhecimento e lhes preparar para um futuro promissor.

Será que é isso mesmo??? Como faremos com um adulto que foi exigido desde a mais tenra idade a dar conta de uma agenda que muitos adultos sequer conseguem cumprir?

Como se formará um adolescente e como chegará a fase adulta tendo sido impedido de ser criança, tendo passado a infância tendo que mostrar resultados. Não são poucas as crianças em que os pais exigem as melhores notas. É comum ver isso postado em redes sociais. Não os ajudam a aprender sobre a vida e os conteúdos didáticos; exigem que sejam os melhores num sistema ditatorial, cobram um desempenho acima da média, que, sem compreender muito as razões, terão que cumprir.

Então, muitos pais, em um pensamento egoísta, se referem a esse comportamento como algo que seja feito por amor, e que no futuro seus filhos agradecerão. Será mesmo???

Será que crescer é isso? Ser feliz é isso? Ter um futuro garantido é assim? Será esse o melhor caminho a seguir?

Aí a vida vai respondendo… Nunca tivemos tantas crianças apáticas, depressivas e adolescentes com tão pouco amor próprio. Está cada dia mais evidente que exigir de alguém algo para a qual não tenha maturidade irá reverter em sofrimento e esse sofrimento só Deus sabe aonde vai dar.

Será que estamos distorcendo a vida? Não seria mais prudente investir no ser humano, na semente que está germinando, dado-lhes o que precisam para crescerem e se desenvolverem saudáveis, física, mental e emocionalmente?

Será que a matéria básica não deve ser o amor, acolhimento, escuta, um projeto de vida para essa criança onde esteja no viver: o brincar, aprender a rir sem medo, não construir preconceitos, partilhar, se comunicar, amar, se permitir ser amada, se desafiar como ser humano, aprender limites, cuidar de si e dos outros, viver socialmente, estudar, é claro, e tantas outras coisas básicas do bem viver?

Será que é necessário para competir nesse mundo cada vez mais exigente que as crianças pulem essa fase da infância? Que lhes seja abstraído o direito de viver como criança?

Dentre tantas coisas que li, me restaram esses questionamentos, aos quais me reservo ao direito de não respondê-los. Por serem muito íntimos, respeito cada um e o direito de criarem seus filhos dentro daquilo que creem ser o melhor. Mas, tomo a liberdade de sugerir que cada pai ou mãe se pergunte também e busque responder para si, porque eu creio que muitas respostas virão desses questionamentos.

 

Silvana Nardello Nasihgil é psicóloga clínica (CRP – 08/21393)

 
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