Giros e mais giros nos dedos, passando de uma mão para a outra sem deixar cair, ao redor do tronco, girando no nariz, na testa… o hand spinner (ou fidget spinner) é a febre do momento entre crianças e adolescentes.
Fabricado na maioria dos casos em plástico, embora seja feito em outros materiais como o metal, o objeto possui três pontas e pode girar de dois a quatro minutos dependendo da força do impulso. Enquanto os pequenos equilibram o apetrecho, inventam maneiras mais difíceis e inusitadas de fazer os movimentos.
Comercializado como um aparato terapêutico para crianças e também adultos, diversos mitos rodeiam o “boom” do hand spinner. Entre as principais crenças está a de que o objeto atua como “antiestresse” para adultos e crianças é um dispositivo para melhorar condições de ansiedade, falta de concentração, déficit de atenção, autismo, hiperatividade, estresse e até mesmo para perder maus hábitos, como roer as unhas ou passar muito tempo ligado no celular, tablet ou no computador. “O hand spinner é só um brinquedo. Apesar desta concepção dele promover uma melhora na ansiedade ou no déficit de atenção, ele é só mais um brinquedo que pode ser usado para facilitar algumas características de crianças”, declara a psicóloga Márcia Saar.
Assim como o ioiô, o tazo, a mola “maluca” e o pião, o hand spinner é um brinquedo que produz um movimento repetitivo e, consequentemente, a criança ficará atenta a este movimento. “Ela vai treinar a coordenação motora fina, a habilidade dela em passar o spinner de um dedo para o outro, em conseguir girar em volta do corpo sem ver, em girá-lo cada vez mais rápido”, diz a profissional. “É provável que, assim como todos esses outros brinquedos, a febre do hand spinner também passe daqui um tempo”, completa.
Apesar de a coordenação motora fina da criança poder ser aprimorada, como o objeto não passa de um brinquedo, cada criança utilizará da forma que for mais conveniente para ela. “Às vezes a criança está tão agitada com algo, dispersa com muitas coisas que o hand spinner traz ela para um movimento repetitivo e contínuo, mas isso não trabalha questões como o déficit de atenção, por exemplo. Não há nenhum estudo científico que certifique a eficácia dele como tratamento terapêutico”, afirma.
O pequeno Gabriel Marcelo Lemes, de oito anos, não deixa mais o spinner de lado. Ele estima que, entre seus colegas de sala de aula, são apenas cinco ou seis que não possuem o brinquedo. “É tipo uma beyblade, é um brinquedo. Não vejo muita função nessa questão de estresse ou ansiedade”, diz, recordando um dos “antepassados” do hand spinner – um mangá e anime infantil baseado em um brinquedo de mesmo nome semelhante a um pião.
O estudante conheceu o objeto por meio do irmão mais velho, de 16 anos, que como muitos outros adolescentes ficou sabendo do hand spinner pela internet. “Meu filho mais velho me mostrou o spinner e disse que queria então comprei para os dois, mas não avalio que houve mudanças comportamentais significativas em nenhum deles”, comenta a mãe de Gabriel, Graciele Denise Buth.
Ela diz que o filho mais novo é mais ansioso que o mais velho, porém, mesmo que esteja com o spinner está envolvido em alguma outra atividade, como utilizando o computador, por exemplo. “Vejo que ele precisa extravasar, estar mexendo com alguma coisa, então nesse sentido o spinner ajuda, e ele também deixou o celular um pouco mais de lado, mas é basicamente um brinquedo a mais que ele tem à disposição”, resume.
Socialização
Um dos aspectos que o aparato pode ser favorável para o desenvolvimento emocional da criança está na socialização promovida pelo brinquedo. Algumas crianças, diz Márcia, têm maior dificuldade de linguagem e começam a se destacar na parte motora. “Para essas o hand spinner ajuda muito porque a criança começará a se destacar entre os colegas de sala, na escola, porque ele não tem uma habilidade linguística tão grande, mas ele tem uma habilidade motora, e emocionalmente isso ajuda muito”, aponta.
Para problemas de ansiedade, ela menciona que por produzir um movimento repetitivo, ao invés de a criança ficar batendo ou balançando a perna, por exemplo, ela passará a girar o brinquedo, entretanto, o objeto em si não controlará a ansiedade. “Existem técnicas de controle de ansiedade que são muito mais efetivas, como a respiração diafragmática, técnicas de relaxamento, a meditação que pesquisas apontam que abaixa o nível de consciência e relaxa as crianças, entre outras técnicas de autocontrole muito mais efetivas”, declara a psicóloga.
Do ponto de vista da melhora da atenção, por exemplo, dependendo o tipo do hand spinner, ele pode até prejudicar o desenvolvimento da criança, já que alguns modelos dispõem de luzes de LED e até tocam música via Bluetooth. “A criança pode acabar prestando mais atenção nessas distrações do que no movimento do brinquedo em si”, alerta.
Cautela
É justamente por se tratar de um brinquedo que o hand spinner também estimula a competitividade entre as crianças, o que pode não ser totalmente positivo. Se por um lado facilita a socialização para aquelas que possuem dificuldades com habilidades linguísticas, de outro estimula competições e disputas acerca de quem tem o melhor brinquedo e quem faz as melhores manobras. “O lado positivo disso é que tira um pouco o foco deles da tecnologia, apesar de que a competitividade também é estimulada em jogos de videogame, por exemplo”, compara a especialista.
Professores também têm enfrentado uma batalha contra o hand spinner, que está presente na maioria das escolas. Muitos alunos levam o apetrecho para dentro de sala de aula e o objeto de estimular a concentração oposto: atrapalha o andamento das atividades escolares. “Ele é um brinquedo e precisa ser usado com cautela. Ele não é prejudicial em termos de comportamento, mas também não vai curar problemas como o déficit de atenção”, reforça Márcia.
Gabriel conta que, em sua escola, foi estipulado pela coordenação o dia da semana que os alunos podem levar o spinner para a instituição e em que horário podem brincar com o objeto. “Está bem controlado para que não seja usado indiscriminadamente porque é um brinquedo como qualquer outro”, reforça a mãe.
De olho no spinner
Para ter objetivo terapêutico, a psicóloga comenta que o uso do hand spinner precisaria ter acompanhamento. Seria necessário, por exemplo, combinar com a criança que quando ela ficar ansiosa, ela pegue o hand spinner e, por um determinado tempo, ela mexa com ele. “Poderia ser utilizado como um recurso terapêutico, mas precisa de acompanhamento e supervisão assim como a massinha, a argila e a areia que na clínica são utilizados desta forma, todavia, por si só não são terapêuticos”, expõe.
Na contramão do objeto, que vem como mais um brinquedo para a coleção de opções à disposição dos pequenos existem diversos recursos e atividades lúdicas citadas pela psicóloga que são extremamente benéficas para as crianças. “Montar quebra-cabeça, jogos de memória e de tabuleiro são opções que além de cumprir esse objetivo também unem a família, então os pais devem estar atentos a isso”, observa.
Assim como outros brinquedos e recursos tecnológicos, os pais devem observar de que forma o objeto está sendo bom para o filho e devem saber dosar. “Apesar de melhorar a coordenação motora fina, ele não pode ser dado à criança deliberadamente. É preciso verificar se na escola, por exemplo, é permitido, em quais horários ou dias a criança pode levar e também entre os coleguinhas está tendo uma competitividade ou se o filho sabe como levar apenas na brincadeira”, orienta Márcia.