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Entenda a polêmica do IBGE e o mapa-múndi invertido

calendar_month 17 de maio de 2025
7 min de leitura

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou no último dia 7 uma nova versão do mapa-múndi com o Brasil no centro. A imagem é chamada de “mapa invertido”.

Segundo o órgão, o mapa destaca os países que integram os Brics, o Mercosul, as nações de língua portuguesa e o bioma amazônico.

Também estão sinalizadas cidades brasileiras ligadas a fóruns internacionais: o Rio de Janeiro, como capital dos Brics; Belém, como sede da COP 30; e o Ceará, onde ocorrerá o Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global.

“A novidade busca ressaltar a posição atual de liderança do Brasil em importantes fóruns internacionais como o Brics e o Mercosul e na realização da COP 30 no ano de 2025”, afirmou o presidente do instituto, Marcio Pochmann, em uma rede social.

Ele também declarou que o mapa-múndi invertido “estimula a reflexão sobre como nos vemos nesse novo mundo em que as transformações ocorrem mais rapidamente e exigem um protagonismo brasileiro ainda maior”.

Mapa-múndi com Brasil no centro — Foto: IBGE

Mapa-múndi com Brasil no centro — Foto: IBGE

Pochmann está no centro de uma crise dentro do IBGE, órgão responsável por indicadores econômicos como o Produto Interno Bruto (PIB) e a inflação oficial.

Em janeiro, mais de 600 servidores assinaram uma carta aberta acusando o presidente do instituto de autoritarismo. Técnicos temem a perda de credibilidade do órgão.

Na época, Pochmann afirmou que os servidores que o criticam estariam mentindo. A fala agravou ainda mais a tensão interna.

O que são os Brics

O Brics, citado por Pochmann, é um grupo formado por 11 países: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

Segundo o site oficial do grupo, ele “serve como foro de articulação político-diplomática de países do Sul Global e de cooperação nas mais diversas áreas”.

No fim do ano passado, o então eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, exigiu que os países membros do Brics se comprometam a não criar uma nova moeda ou apoiar um substituto do dólar, sob pena de sofrerem tarifas de 100%.

Em abril, diante da guerra comercial entre Estados Unidos e China, o governo chinês passou a pressionar por uma reunião extraordinária dos ministros de Comércio do Brics. O objetivo é discutir os impactos das tarifas norte-americanas.

Para isso, a China tenta convencer o Brasil — que ocupa a presidência rotativa do grupo — a convocar o encontro.

O que é o Mercosul

O Mercosul é um bloco comercial criado para promover a integração regional. Foi formado originalmente por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

Mais tarde, a Venezuela foi incorporada, mas está suspensa por ruptura da ordem democrática. Em 2024, a Bolívia entrou oficialmente no grupo.

Diante das novas barreiras comerciais impostas pelos EUA, o bloco tem buscado aproximação com a Europa.

Após 25 anos de negociações, o Mercosul fechou, no fim de 2024, um acordo de livre comércio com a União Europeia. O tratado prevê a redução de tarifas e maior facilidade para investimentos.

O acordo, no entanto, ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos nacionais de todos os países do bloco para entrar em vigor.

COP 30 será em Belém

A COP 30, Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, está prevista para novembro deste ano, em Belém (PA).

O encontro deve discutir medidas para conter o avanço da crise climática global. A principal meta é implementar o Acordo de Paris, firmado em 2015, que estabelece o limite de 2°C no aquecimento global até o fim do século.

Para isso, é considerado essencial ampliar os investimentos em preservação ambiental nos países em desenvolvimento. O objetivo é alcançar um volume de financiamento internacional de até US$ 1 trilhão por ano.

Polêmica

Em mais um capítulo da crise interna que se arrasta há meses no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), técnicos do órgão manifestaram repúdio à iniciativa da gestão do atual presidente, Marcio Pochmann, de lançar uma nova versão do mapa-múndi invertido. A publicação volta a trazer o Brasil no centro do mundo, mas desta vez com a perspectiva invertida, o sul figura no topo da imagem. Segundo parte dos trabalhadores, atos da atual direção configuram desvio institucional.

Segundo a executiva nacional do sindicato de trabalhadores do instituto, o Assibge-SN, a publicação não foi construída pelas áreas técnicas e parece atender à agenda pessoal de Pochmann.

“O mapa em si não apresenta nenhuma incorreção técnica, e poderia compor, em conjunto com outras representações, atlas e materiais didáticos, trazendo um debate bem-vindo sobre as representações cartográficas e sua expressão política. O que avaliamos como bastante problemático é o lançamento de um produto que não foi construído pelas áreas técnicas, não teve um lançamento adequado, e parece atender a agenda pessoal do presidente Marcio Pochmann”, manifestou a executiva nacional do sindicato, em posicionamento enviado ao Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Já o núcleo sindical dos servidores lotados no edifício alugado pelo IBGE na Avenida Chile, no centro do Rio de Janeiro, divulgou um manifesto em repúdio ao lançamento, que considera “um gesto sem respaldo técnico reconhecido pelas convenções cartográficas internacionais”. A unidade Chile, que teve trabalhadores deslocados para um edifício no Horto, na zona sul da capital fluminense, é a maior do IBGE, concentrando cerca de 700 trabalhadores das principais diretorias do órgão: Diretoria de Pesquisas, Diretorias de Geociências e Diretoria de Informática. As diretorias abrigam os servidores responsáveis pela análise e divulgação dos principais indicadores macroeconômicos do País.

Mapa-múndi invertido: “compromete a credibilidade do IBGE”

“Trata-se de uma iniciativa que, em vez de informar, distorce; em vez de representar a realidade com rigor, cria uma encenação simbólica que compromete a credibilidade construída pelo IBGE ao longo de décadas de trabalho sério, imparcial e respeitado globalmente”, declara o manifesto. “Também se fere o princípio da eficiência, pois a adoção de padrões gráficos não reconhecidos confunde a educação, prejudica comparações internacionais e deslegitima produtos oficiais.”

Os servidores lembram ainda no texto que a atual polêmica “não é um caso isolado”, referindo-se à publicação pela atual gestão do documento Brasil em Números 2024, em janeiro do ano passado, que incluiu um prefácio assinado pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, exaltando realizações de sua gestão. Na ocasião, a direção do IBGE ignorou os alertas do corpo técnico sobre “o desvio institucional”.

“A responsabilidade por esses desvios recai inteiramente sobre a atual gestão do IBGE, que, em vez de proteger a função pública do Instituto, tem insistido em empurrá-lo para o campo da imagem, da alegoria, da ação promocional. Não há desculpa técnica, jurídica ou pedagógica para esse tipo de prática. Nenhum país se torna mais respeitado por estar no centro de um papel. A grandeza internacional se conquista com políticas públicas consistentes, instituições confiáveis e dados transparentes – não com encenações visuais”, afirmou o núcleo sindical.

Segundo os servidores, os atos recentes teriam violado três princípios constitucionais da administração pública: finalidade administrativa, uma vez que o IBGE tem como função produzir informação técnica e objetiva, e não material simbólico ou político; impessoalidade, por servir à sociedade e não a narrativas de governantes ou gestões; e moralidade administrativa, porque os recursos públicos devem ser usados com integridade e respeito à função estatal.

“A gestão atual do IBGE vem falhando, repetidamente, em proteger o valor técnico e a integridade institucional do órgão. O IBGE não pertence a pessoas. Pertence ao Estado, à sociedade e ao futuro. O Brasil não precisa estar no centro do papel. Precisa estar no centro da honestidade técnica, da responsabilidade pública e do compromisso com a verdade. Por isso dizemos, com serenidade firme: não ao mapa da vaidade. Sim à ciência, à integridade e à maturidade institucional”, defendeu o núcleo sindical.

Com G1/Estadão

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