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Erosão dos solos, 40 anos depois! – por Urbano Mertz

Há 40 anos, a extensão rural pública, em parceria com a assistência privada, desenvolveu a técnica dos terraços em nível na região de Toledo, um meio para conter a erosão de solos.

Acreditávamos ter encontrado a solução para este grave problema. Eram os murunduns em nível, verdadeiras montanhas para conter a água da chuva, construídos de forma integrada em toda a microbacia. Mas não, com chuvas de 190 milímetros em 24 horas, como as que ocorreram no último fim de semana*, formavam-se lagoas entre os murunduns, e se algum estourasse, estava feita a catástrofe. Então melhoramos, aproximamos a distância entre os murunduns, e nada de solução.

Há 30 anos trouxemos as técnicas de plantio direto para a região, acreditando que o preparo do solo para o plantio era o problema. Pesquisadores e pioneiros do plantio direto deram palestras e orientações. Foram realizados inúmeros encontros e seminários com participação de técnicos e agricultores. O plantio direto foi, sem dúvida, um avanço tecnológico importante para o plantio de soja e milho safrinha, o qual se desenvolveu no mesmo período. E os agricultores, com aval dos técnicos, abaixaram os murunduns, pois o plantio direto reduzia o escorrimento superficial de água. Mas não, com chuvas de 190 milímetros, concentradas em 24 horas, o plantio direto com terraços rebaixados não era a solução.

Há 20 anos, com apoio da pesquisa, implantamos os terraços de base larga, os basões, verdadeiras bacias de contenção da água. Foi um novo avanço, pois permitiu plantar em toda a extensão do terreno, inclusive morro abaixo. Mas a erosão persistiu, pois chuvas contínuas de 190 milímetros não infiltram no solo na mesma velocidade em que caem. Qual é, então, a solução?

A erosão não é culpa do solo, da chuva ou da tecnologia errada. Há 30 anos, quando implantamos o plantio direto, pesquisadores nos alertavam sobre a importância da rotação de culturas com adubos verdes. Seria a solução para solos argilosos, que compactam com plantio intensivo de soja e milho, reduzindo a infiltração de água. Adubos verdes também ajudam na formação de uma boa camada de palha sobre o solo, condição básica para o plantio direto.

Mas, por que os técnicos não recomendam, ou por que os agricultores não adotam a adubação verde? Certamente, os técnicos ainda recomendam, pois nos dias de campo em estações experimentais a importância das plantas de cobertura sempre é demonstrada. Os agricultores não utilizam porque não veem retorno financeiro imediato, e porque o sistema de produção de grãos é profundamente atrelado ao crédito rural e ao comércio de sementes, adubos e agrotóxicos, onde este aparente desperdício de área não é tolerado. É importante constatar isso porque a solução passa por uma mudança de foco das políticas agrícolas.

Algumas alternativas podem ser avaliadas: o Estado remunerar, ou oferecer condições especiais de crédito de custeio ao produtor que deixar anualmente parcela da área com adubação verde. Ou intensificamos os sistemas de fiscalização e penalização dos infratores!

Importante lembrar que o solo não é um bem como qualquer outro, de livre-arbítrio a quem comprou. O produtor somente comprou um direito temporário de uso; o solo pertence à sociedade e às futuras gerações. Por isso, todos os meios devem ser utilizados para conservá-lo produtivo.

 

* Dias 21 e 22/05/2020: 191,3 milímetros, média na região (https://www.agricolahorizonte.com.br/registro-de-chuvas-e-geadas/)

 

Urbano Mertz é engenheiro agrônomo do IDR Paraná Iapar/Emater e presidente do Conselho de Desenvolvimento Agropecuário de Marechal Cândido Rondon

 

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