O Presente
Geral

Fatores de risco são “populares”, mas mesmo pessoas sem agravantes têm chances de sofrer um infarto, alerta cardiologista rondonense

calendar_month 17 de dezembro de 2021
9 min de leitura

Branquidão, alteração na respiração e dor no peito de forte intensidade. Os sintomas que antecedem o infarto não são os mais específicos e podem até mesmo não acontecer. Pessoas sem doenças prévias e relativamente jovens têm sido acometidas pelos temidos ataques cardíacos, que podem surgir quando menos se espera.

No caso do quatro-pontense Carlos Clovir Braun, o mal súbito veio enquanto dirigia sua motocicleta, recentemente, e, aos 46 anos, ele não resistiu.

Há poucos dias, o diretor-geral da Rede Costa Oeste de Comunicação e sócio-proprietário da empresa MP Comunicação – Grupo MP, Moacir José Hanzen, foi outra vítima do infarto. Ele estava no trânsito quando o ataque cardíaco aconteceu e foi a óbito com 56 anos.

Para compreender melhor os fatores de risco e de prevenção ao infarto, a reportagem de O Presente conversou com o cardiologista Eduardo Luís Backes, que atende em Marechal Cândido Rondon.

Segundo ele, o infarto, de modo geral, acontece devido ao fechamento de uma artéria coronária. “Em geral, essa obstrução se dá pela ruptura de uma placa de gordura que, consequentemente, expõe o conteúdo lipídico que está em seu interior. Acontece uma agregação de células que formam um coágulo e, com isso, ocorre a trombose da artéria coronária. Isso desencadeia dor no peito, sintomas de falta de ar, suador frio, palidez cutânea e todo aquele cenário típico do infarto”, explica, mencionando que “sempre é um evento muito grave”.

 

Infarto e infarto fulminante

Ataque cardíaco e infarto são sinônimos, menciona o cardiologista. A diferença está no infarto fulminante, que se refere a casos em que a morte acontece. “Esse termo deve ser empregado também quando as vítimas morrem em até um dia depois do início dos sintomas do infarto. A princípio, as pessoas entendem como se fosse o momento em que o indivíduo está conversando, se queixa da dor no peito e cai morto, mas na verdade não. O infarto fulminante diz respeito a todos os casos em que se desencadeia uma síndrome coronária aguda e nas primeiras 24 horas o quadro evolui para óbito”, pontua.

No linguajar médico, ele destaca que mais frequentemente se utiliza o termo morte súbita, ao invés de infarto fulminante.

Cardiologista Eduardo Luís Backes: “Nem todo infarto vem de surpresa. Coisas que há 90 dias uma pessoa fazia e já não consegue mais, como alguma caminhada que agora precisa parar no meio do caminho e descansar, são sinais que devem ser observados” (Foto: Divulgação)

 

Ataques

De acordo com Backes, as pessoas costumam confundir o infarto do miocárdio e o acidente vascular cerebral, conhecido como AVC. “Às vezes falam apenas ‘ataque’, mas precisamos saber se foi no coração ou na cabeça. O ataque cardíaco, ou o infarto, é a obstrução de um vaso coronário com dano ao músculo cardíaco enquanto o infarto de uma artéria cerebral é o AVC (acidente vascular cerebral). Um AVC isquêmico, por exemplo, é a obstrução de um vaso cerebral. É o ataque cerebral”, diferencia.

Em ambos os casos, todavia, a assistência médica imediata é a alternativa que dá mais chances de vida ao paciente. “Se o paciente tem uma situação de infarto dentro da unidade hospitalar, ele vai ter mais chances. Da mesma forma, se tiver algum indivíduo que tem noção de manobras de ressuscitação cardiopulmonar e, prontamente, inicia manobras, isso vai melhorar o prognóstico do paciente”, ressalta.

 

“Tempo é músculo”

Segundo ele, o paciente que dá entrada no hospital com indícios de infarto passa por um eletrocardiograma, avaliação médica e exames laboratoriais para dosagem das enzimas cardíacas. “Na parte terapêutica, há remédios trombolíticos que diluem o coágulo que está obstruindo a coronária, senão opta-se pelo cateterismo de emergência”, comenta.

Existe uma máxima na cardiologia quando o assunto é infarto: “tempo é igual a músculo”. Conforme o médico, quanto mais tempo demorar para reestabelecer o fluxo sanguíneo da artéria, maior será a área de músculo cardíaco lesado. “Após seis horas do início do infarto a parede muscular do coração que foi afetada já tem um dano definitivo, chamado fibrose. Nesse meio tempo, mesmo que se restabeleça o vaso coronário, esta parede não vai se recuperar e há uma sequela definitiva. Por outro lado, infartos graves, se atendidos em um curto período de tempo, podem deixar o paciente isento de qualquer sequela”, enaltece.

 

A maioria sobrevive

Apesar do caráter repentino e frequentemente grave, o cardiologista rondonense destaca que a maioria das pessoas acometidas pelo infarto sobrevive ao evento, quando há assistência médica necessária. “Estima-se que cerca de 30% das pessoas que sofrem infarto evoluem a óbito antes de chegar ao serviço de emergência. Quando há o atendimento médico imediato, a taxa de mortalidade cai para menos de 10%. Então, de cada dez pacientes, em geral nove conseguem sobreviver ao infarto”, menciona.

Entre aqueles que sobrevivem, estatísticas apontam que cerca de 10% dos pacientes podem evoluir a óbito devido a complicações no decorrer do primeiro ano. “O terceiro ou quarto mês pós-infarto são o ápice de complicações agudas dentro do curto prazo pós-tratamento”, enfatiza.

 

Existe prevenção?

A prevenção de infarto acontece por meio do tratamento adequado das condições de risco, como obesidade, tabagismo, estresse, tensão, diabetes, colesterol alterado e outros. “Além disso, o envelhecimento e fatores genéticos hereditários também interferem na ocorrência do infarto. Essas duas situações não têm como combater, mas os fatores modificáveis fazem diferença e o tratamento é relativamente simples, com exames laboratoriais, avaliação médica, estilo de vida saudável, sono adequado, restrição de estresse, atividade física regular e medicação, quando necessário”, expõe.

O clínico geral auxilia no tratamento dos fatores de risco, contudo o cardiologista é o profissional indicado para o paciente que tem dor no peito. Mais a fundo, é possível realizar uma estratificação de risco de infarto do paciente, reunindo uma série de informações e exames. “Essa estratificação considera faixa etária, fatores de risco a que está exposto e histórico familiar do paciente. Diante disso, nós traçamos um risco potencial para esse paciente. Juntamente, existem ferramentas adicionais, como o teste ergométrico, exame de ecocardiograma, que é um ultrassom do coração, avaliação de artérias coronárias pelo método de angiotomografia, cateterismo cardíaco e ressonância magnética do coração”, pontua.

 

Sinais que antecedem

De acordo com Backes, pacientes que têm doença coronariana crônica, mesmo que ainda não diagnosticada, apresentam sinais com bastante antecedência ao infarto. “Conforme aumentam a intensidade do exercício físico as pessoas sentem dores precordiais e incômodo no peito, que às vezes pode irradiar para a região cervical anterior e para o braço. Esses sintomas desencadeados pelos esforços podem alertar um caso de doença crônica no coração, ou seja, que já existem placas de gordura com o acometimento das coronárias. Com isso, há um maior risco”, frisa.

“Nem todo infarto vem de surpresa”, afirma ele. Em muitos casos, o paciente manifesta essa limitação aos esforços, sente dores no peito ao ponto de parar a atividade e depois retomar. “Coisas que há 90 dias ele fazia e já não consegue mais, como alguma caminhada que agora precisa parar no meio do caminho e descansar, são sinais que devem ser observados”, exemplifica.

 

Vítimas jovens em desvantagem

Na mesma linha dos casos mencionados no início da reportagem e outras vítimas jovens que faleceram devido ao infarto, Backes observa que 95% dos infartos ocorrem em pessoas acima de 40 anos. “Há propensão em pensar que o jovem, por ter uma saúde mais íntegra, teria mais condições de resistir ao infarto, mas isso nem sempre é verdadeiro. Com o passar dos anos, pessoas idosas e pacientes que já têm lesões coronárias desenvolvem uma circulação colateral. Ou seja, apresentam vasos coronarianos ‘extras’, que são interligações entre as coronárias. Dessa maneira, quando ocorre a obstrução de um vaso coronário, o idoso tende a suportar melhor a ocorrência do infarto devido a essas interligações. O paciente jovem, em geral, tem as coronárias calibrosas e sadias e nenhum grau de circulação colateral. Então, se houver obstrução de um dos ramos principais coronarianos, não existe nenhum outro caminho de suprimento de sangue para aquele território acometido”, explica.

A desvantagem dos pacientes jovens, por outro lado, é amenizada pelos baixos riscos de ocorrência de infarto. “Pessoas com menos de 40 anos representam 5% do total de infartos. Entretanto, principalmente em cidades menores, como Marechal Rondon, quando um jovem é vítima do infarto geralmente a população se comove”, enaltece.

 

Chances pequenas

“Para ter um infarto não é necessário possuir fatores de risco. Todo paciente, mesmo saudável, tem uma chance pequena de evoluir com uma síndrome coronariana aguda”, informa o cardiologista.

Quando um infarto é registrado em um paciente jovem, sem problemas de saúde e praticante de esporte, as pessoas se perguntam como isso pode acontecer. Backes diz que, infelizmente, é possível. “Pelas estatísticas, a gente percebe que o evento cardiovascular de infarto ocorre geralmente em pacientes com mais idade, portadores de comorbidades ou com riscos sobrepostos. Por outro lado, o paciente sem nenhuma condição agravante tem baixo risco para infarto, mas ainda existe uma chance pequena”, reforça.

 

Números em Marechal Rondon

O cardiologista menciona que houve uma diminuição no número de ocorrências de infarto e doenças coronarianas devido à pandemia. “Trabalhamos com medicina preventiva, porque não queremos tratar infarto, queremos prevenir. Os diagnósticos de doença coronariana foram menores, porque houve uma menor procura. Com relação ao infarto agudo do miocárdio, em determinado mês há mais ocorrências e em outros um pouco menos. No infarto existe o fenômeno da sazonalidade e há mais registros no inverno, assim como os acidentes vasculares cerebrais”, expõe.

 

O Presente

Clique aqui e participe do nosso grupo no WhatsApp

 
Compartilhe esta notícia:

Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.
Este website utiliza cookies para fornecer a melhor experiência aos seus visitantes. Ao continuar, você concorda com o uso dessas informações para exibição de anúncios personalizados conforme os seus interesses.