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Fisioterapia devolve movimento e qualidade de vida aos pets

Conheça a história do shih tzu que perdeu o movimento das patas traseiras e está voltando a andar graças às sessões de fisioterapia


calendar_month 30 de março de 2025
12 min de leitura

Peto, um Shih Tzu de seis anos, viu sua rotina mudar de forma inesperada. Em um dia comum, o cão correu até o portão para receber seu tutor Selvino Hulzbach, de Toledo. Mas o balançar do rabo não foi o mesmo. Voltou correndo para dentro de casa, mas Selvino e a esposa Jaqueline perceberam imediatamente que algo estava errado. Peto ficou mais quieto e se movimentava pouco. No dia seguinte, uma consulta ao médico veterinário relevou um trauma grave na coluna, que apenas algumas horas mais tarde tiraria por completo os movimentos das patas traseiras do animal.

O desespero tomou conta de Jaqueline e do marido. O seu filhote passou, em um dia, de um cachorro agitado e feliz para um animal apático e que não podia caminhar. “Ele correu pra frente, foi até o portão para receber meu marido e já voltou pra dentro de casa. Notamos de imediato que tinha alguma coisa diferente. No outro dia fomos ao veterinário e, mesmo já medicado, ele não conseguia mais ficar em pé”, lembra. Para Peto, usar fralda, rastejar pela casa e tomar medicamentos para controlar a dor pelo resto da vida poderia ser o seu destino. Mas a fisioterapia veterinária vem mudando esse jogo.

A técnica é relativamente nova, começou a aparecer no Brasil em 2010, mas vem ganhando espaço (apesar do ceticismo de parte da classe profissional – leia mais abaixo) porque tem ajudado a reabilitar os animais de estimação que sofrem vários tipos de traumas, doenças e condições específicas, a exemplo de Peto. “Ele operou de uma lesão na coluna e na semana seguinte começou a fazer a fisio”, conta Jaqueline, que ficou sabendo da fisioterapia por indicação do médico veterinário que fez a cirurgia.

O diagnóstico, explica a médica-veterinária e especialista em Fisioterapia Keyla Regina Wust, foi uma protrusão do disco intervertebral, condição em que os discos que se encontram entre as vértebras se desgastam, deslocam ou rompem, comprimindo a medula espinhal. Keyla explica de forma didática: “O Peto teve uma lesão no disco e perdeu os movimentos das patas traseiras. Assim como nós temos a coluna vertebral, no meio dela passa a medula. E entre as vértebras tem um disco gelatinoso. Eu gosto de usar um exemplo mais didático, como se fosse um Babaloo, durinho por fora e macio e com líquido por dentro. Esse disco tem a função de amortecer os impactos e, às vezes, impactos mais fortes, ele rompeu. Isso gerou uma lesão medular e um processo inflamatório no Peto”, destaca.

Problemas secundários e avanços

Além disso, a lesão provocou outros problemas no Shih Tzu. Ele ficou com bexiga neurogênica e dificuldade de evacuar por alguns dias. A reabilitação iniciou-se logo na semana seguinte à cirurgia para atacar essas três frentes. “Peto agora está voltando a andar, mas chegou sem os movimentos das patas traseiras. Também já está controlando o xixi, mas chegou aqui com a bexiga neurogênica, que é quando eles não conseguem fazer xixi sozinhos e precisamos massagear. Depois passou a ter incontinência urinária, quando a urina goteja. Agora ele está fazendo normalmente, em jatos. Ele também ficou alguns dias sem conseguir fazer cocô, mas agora está conseguindo. Todos problemas justamente por conta da lesão”, explica Keyla.

A reabilitação, que já está em seu terceiro mês de tratamento com sessões duas vezes por semana, mostra sinais de evolução, mesmo que lenta. “Ele já tem começado a dar passinhos sozinho na água e no solo. Ele ainda não caminha, mas já se levanta. Tenta realizar alguns passinhos, mas cai devido a fraqueza muscular e incoordenação motora ainda presentes. O cão acaba perdendo muita massa muscular e isso acaba debilitando bastante o paciente pois é muito tempo sem caminhar. A literatura diz que com três dias em desuso do membro já é visto uma considerável perda da musculatura”, afirma Keyla.

Tratamentos e técnicas

Dentro do tratamento, diversas técnicas e aparelhos são empregados para acelerar a regeneração tecidual e controlar a dor. “Dentro da fisioterapia são utilizadas várias técnicas, entre elas os aparelhos que irão fazer controle de dor e a regeneração tecidual. Temos também exercícios terapêuticos, hidroterapia, ozonioterapia e acupuntura. Todos ajudam a fazer controle de dor e regenerar aquilo que foi lesionado”, explica Keyla.

No caso de Peto, foram utilizadas técnicas como magnetoterapia, laser terapêutico, além de acupuntura, exercícios passivos e hidroterapia, com caminhadas em uma esteira submersa em água morna e ozonizada. “A magnetoterapia, por exemplo, tem a função de fazer controle energético, anti-inflamatório e acelerar a regeneração da lesão. Além do disco, a cirurgia gera uma lesão interna, nos tecidos próximos (músculo, pele). Esse aparelho tem o intuito de acelerar a regeneração dos tecidos. Sem contar que ele vai ajudar a estimular a parte neurológica pela passagem dos impulsos nervosos”, detalha. E, sobre o laser: “Ele tem a finalidade também de ajudar na regeneração tecidual de uma forma diferente, dando mais energia para que a célula consiga chegar até seu foco e agir naquilo que é fundamental. São dois aparelhos que trabalham com a mesma finalidade, mas estimulam a célula de formas diferentes. E ambos são indolor (não causa dor) ”, exemplifica a especialista.

A fisioterapia também pode lançar mão da outras técnicas, como a eletroperapia, mas Keyla usa apenas em casos mais graves. “Eu não gosto de utilizar muito na veterinária a eletroterapia porque os cães não toleram muito a corrente elétrica. Também é necessario retirar os pelos para que o eletrodo seja colocado no local correto e a corrente elétrica seja emitida, e muitos tutores não gostam. Mas quando a dor é intensa acabo associando com demais técnicas”.

As etapas

Cães e gatos que passaram por traumas geralmente ficam arredios e podem se sentir amedrontados em ambientes não conhecidos. A especialista explica que fatores como tempo em hospitais ou clínicas, as injeções, a distância dos tutores e a dor podem tornar o animal agressivo na hora de uma reabilitação. “As primeiras sessões sempre são as sessões um pouco mais difíceis e complicadas, porque muitas vezes o paciente já chega com quadro de dor, já vem com o histórico de estar seguidas vezes em internamento, pós-operatório, já ficou longe de seus tutores para fazer procedimentos. Então as primeiras sessões sempre são mais difíceis, tanto que alguns cães se tornam agressivos. No entanto, depois da terceira ou quarta sessão eles começam a perceber a melhora do quadro de dor, percebem que não receberão injeções, pois às vezes o medo deles é a injeção. O paciente vai entendendo que aos pouquinhos com a manipulação também vai começar a aliviar o desconforto e ele já se sente mais confiante”, aponta.

Por isso, Keyla destaca que entre as principais etapas a primeira é se certificar que o animal não esteja sofrendo com dor. “A fisioterapia é feita por etapas. Nenhum paciente vai chegar aqui e já vai fazer exercício. Primeiro é preciso controlar a dor. Se o animal tem dor, não vai evoluir, não vai conseguir executar o exercício de forma correta. Mesmo um paciente medicado, podem haver ainda quadros de dor. A primeira etapa é tirar o paciente de uma crise de dor”, reforça.

Com a dor sob controle, os exercícios passam a ser incorporados de forma gradual. “Com evolução, passa a incluir exercícios. Alguns pacientes fazem exercícios ativos, que eles mesmos realizam o movimento, estimulados com petiscos ou com brinquedos. E existem os passivos, que são aqueles exercícios que nós precisamos fazer para reensinar o corpo e o sistema neurológico para que entenda que possui capacidade de fazer esse movimento”, explica. Além disso, para estimular a postura e o equilíbrio são empregados exercícios de estação e de equilíbrio, utilizando bolas, discos prorpioceptivos e pranchas de equilíbrio.

No caso de Peto, os exercícios isométricos, geralmente parados no lugar, ajudam a retomar força, equilíbrio e coordenação nas patas traseiras. “Ele tem uma lesão que compromete mais os membros pélvicos, então priorizo esses membros, fazendo mais carga de peso na região pélvica. Vamos elevar a parte da frente em um degrau ou superfície para descarregar mais peso na parte de trás, por exemplo. Isso vai trabalhar a força muscular, o equilíbrio e a coordenação motora, além de reforçar a musculatura abdominal e vertebral”, exemplifica a especialista.

Keyla ressalta que o tempo de tratamento pode variar amplamente, de alguns meses a mais de um ano. “O Peto não tem uma previsão de alta ainda, mas normalmente o tratamento dura de quatro a seis meses, mas pode chegar a um ano e meio. É um trabalho bem minucioso, onde o animal muitas vezes precisa reaprender a andar. O Peto precisa ensinar o sistema nervoso central a dar resposta para esses membros”, frisa.

Indicações

Existem várias indicações para um paciente fazer fisioterapia que vão além de traumas. Esse processo não é exclusivo para casos de lesões neurológicas. A fisioterapia veterinária é aplicada no pós-operatório de joelho, quadril, coluna e fraturas (lesões ortopédicas no geral), atua na recuperação de pacientes com lesão articular e condições genéticas específicas, além de ajudar na manutenção da musculatura, controle da dor e do peso. “A fisioterapia pode tratar diferentes tipos de lesão, como no pós-operatório de joelho, quadril e coluna, mas pode ainda atuar na recuperação de pacientes com lesão articular, sem indicativo de operar. Ou ainda no caso do pacientes que têm alguma lesão genética ou cardiopatas. E, finalmente, a fisioterapia pode atuar na musculatura, fazendo controle de dor e controle de peso, principalmente com o uso da hidroterapia”.

A médica veterinária explica que não há contraindicações, porém alguns aparelhos usados na fisio não devem ser utilizados em casos específicos. “A fisioterapia não tem contraindicação, no entanto alguns aparelhos que são utilizados na fisioterapia não devem ser usados em alguns casos. Por exemplo, o laser não pode ser usado em paciente oncológico porque pode estimular o desenvolvimento de células cancerígenas. Também não é indicado para gestantes e para pacientes que tenham lesões fúngicas porque estimula a proliferação desses fungos”, diz.

O papel do tutor

Apesar do acompanhamento da médica-veterinária e das duas sessões semanais, a reabilitação completa de Peto depende muito de seus tutores, que devem manter uma rotina de exercícios para o animal. Keyla destaca que a participação do tutor é um componente vital para o sucesso do tratamento.

“Entre as sessões, em casa, o tutor precisa estimular o animal a ficar em pé, estimular ele a caminhar, usando por exemplo o auxílio de uma toalha, fazer alguns exercícios de mimetismo e alongamentos. Principalmente os cães que operam a coluna precisam de estímulo do tutor em casa, pois ele não se alonga ou se exercita sozinho. Duas vezes por semana na fisioterapia é pouco, por isso é fundamental os exercícios feitos em casa. Caso contrário vai gerar atrofia, encurtamento de membro e contratura muscular. O tutor precisa ter esse comprometimento e saber que o tratamento não depende só do profissional”, destaca.

Lesões estão aumentando

Embora seja uma condição tradicionalmente associada a cães idosos, Keyla observa uma mudança no perfil dos pacientes. “Alguns cães são mais predispostos a apresentar esse problema. Fatores de raça, como buldogues, os cachorros salsichinhas, os Basset, cães que são mais compridos, com as pernas mais curtas, são mais propensos a terem essa lesão de disco. Já sabemos que existe uma mudança genética nessas raças que predispõe ao desenvolvimento da lesão. Porém, hoje em dia a gente tem visto muito em outras raças e muito em cães jovens. Ela seria uma condição vista mais em cães idosos, na faixa de seus sete, oito, 10 anos. Mas hoje em dia temos visto muito em cães jovens. Já atendi pacientes de dois anos com essa lesão. Percebemos que fatores ambientais podem estar relacionados com esse aumento nos casos, como o piso liso nas casas, o subir e descer de camas e sofás, além de pacientes que fazem exercício de grande impacto”, sugere.

Ceticismo

Contudo, apesar dos avanços e dos resultados positivos da fisioterapia veterinária, Keyla aponta que ainda existem barreiras no encaminhamento para essa especialidade. “Apesar de estarmos em 2025, ainda tem médico-veterinário clínico que não encaminha para a fisioterapia. Para essa parcela existe uma barreira, acreditam que não dá resultado porque não conhecem muito bem a área. Percebo que falta um pouco de conhecimento do clínico, do cirurgião, e eu acho que às vezes também ainda por um fator de achar que vai mandar para a fisioterapia e perder o paciente, infelizmente”, lamenta.

Peto tem uma nova chance

Jaqueline observa a evolução prática de Peto. “A gente nota a mudança na musculatura dele, já melhorou muito desde que começou a fisio. E isso é muito, muito bom”, comemora. Para a médica veterinária, Peto voltar a correr pela casa é só uma questão de tempo. “o Peto ainda não tem uma data para receber alta. Cada caso é um caso, mas as chances de recuperação são altas usando essas técnicas. Creio que 99% dos pacientes que fazem fisioterapia se recupera muito bem”, menciona, destacando que o índice de não recuperação é muito baixo, mas pode depender da lesão, do caso neurológico e do tempo de resposta entre a hora que a lesão aconteceu e a cirurgia.

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