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“Itaipu não é para amador”, afirma ex-diretor-geral Jorge Samek

calendar_month 7 de agosto de 2019
5 min de leitura

Viaje conosco neste cenário hipotético. Choveu muito em Minas Gerais e São Paulo. Um turbilhão de milhões de metros cúbicos de água está a caminho do reservatório de Itaipu.

Há aqui uma oportunidade que pede toda a pressa do mundo. Pede-se decisões rápidas, fluídas. Afinal, se apertar alguns botões na hidrelétrica gigante, pode-se baixar rapidamente três metros do nível do reservatório e colocar as 20 turbinas trabalhando em toda a potência, “full time”, como se diz no jargão técnico.

Mas para baixar o reservatório e receber todo o potencial do aguaceiro que está chegando é preciso solicitar autorização do sócio.

Se ele, o sócio paraguaio, estiver de mau humor, não irá autorizar, ou irá postergar. Quando a decisão chegar, a água já foi embora, como, a propósito, já aconteceu. Os guaranis perdem muito com isso? Não necessariamente. Mas os brasileiros sim.

O Brasil consome 84% da produção de Itaipu. E o excedente paraguaio é repassado a preço de custo para cá. Quem perde quando a produção da energia barata de Itaipu cai somos nós.

É neste contexto que estão assentadas as frágeis e sensíveis relações entre os vizinhos quando o assunto é energia elétrica em alta tensão.

“Itaipu não é para amadores”, disse ao Pitoco o mais longevo diretor-geral brasileiro, Jorge Samek. Questionado se a frase tem endereço específico, ele contemporizou. Não quis “fulanizar” a prosa.

Samek não quer encrenca. Pelo contrário. Ele segue à risca uma espécie de liturgia autoimposta de ex-presidente: não avaliar seus sucessores.

Mas isso não o impede de lançar alguns alertas. “Temos um sócio que se chama Paraguai. É um casamento por comunhão de bens. É tudo meio a meio. Metade da água é nossa, metade da água é deles”.

 

Apanhando da mídia

A água ferveu e transbordou na semana passada, quando foi publicado um documento em que o governo de Mario Benítez (Marito) faz “concessões inaceitáveis” ao vizinho, segundo a crônica da mídia paraguaia, à frente dela o influente periódico nacionalista ABC Color.

Marito, o presidente paraguaio, entusiasmado com o acordo das duas novas pontes ligando o Brasil ao seu país, e talvez enfeitiçado pelos olhos azuis do Jair, autorizou o que a mídia de seu país definiu como “concessões inaceitáveis”.

Em resumo: o embaixador paraguaio no Brasil, um diretor de Itaipu e outros dois integrantes do primeiro escalão de Marito renunciaram aos cargos por não aceitar as tais “concessões”. É a maior crise política já enfrentada pelo governo paraguaio.

A crise pode ir além de afetar a produção de Itaipu: tem potencial para – se mal conduzida – eletrocutar a parceria das pontes.

Embora Itaipu pareça uma fonte inesgotável de receitas, cujo maior “problema” tem sido como precificar os excedentes de produção, também é uma empresa como outra qualquer de seu porte, com gigantescos custos fixos.

Todo ano Itaipu paga 2,2 bilhões de dólares da dívida contraída para construí-la e respectivos juros. A hidrelétrica precisa produzir 75 milhões de megawatts/hora ao ano para fechar a conta de 3,6 bilhões de dólares de seu custo operacional + dívida.

 

Até que o rio os separe

Enquanto o Rio Paraná dividir o Paraguai do Brasil, os países serão sócios. “É para sempre”, enfatiza Samek. Ele não vê desiquilíbrios no enlace e nem motivos para discutir a relação “Itaipu é ótima para o Brasil e melhor ainda para o Paraguai”, afirma.

O ex-diretor recusou-se a comentar as medidas de austeridade do general Silva e Luna, mas, dadas as equações acima, uma coisa é certa: se Brasília e Assunção não se entenderem, mesmo que em precário portunhol, as economias obtidas pelo oficial quatro estrelas desaparecem pelo ralo.

Em outras palavras, toda economia que o general obter renegociando contratos e cortando custos pode se perder no que Itaipu deixou de ganhar notadamente no incremento da produção. E essa conta chega fácil à casa do bilhão.

 

Bomba hidráulica

Segundo relata a obra do “Samek paraguaio”, Enzo Dibernardi, primeiro diretor-geral paraguaio de Itaipu e o mais longevo, por muito pouco o acordo binacional não naufragou antes mesmo de ser implementado.

Era início dos conturbados anos 1970 e a causa parecia frugal: a voltagem da tomada. O relato curioso está no livro “Apuntes da Lá História de Itaipu”, assinado por Dibernardi.

Não bastassem as desconfianças dos paraguaios alimentadas pela crença de supostas intenções imperialistas do gigante do Leste, e ainda lambendo feridas da Guerra do Paraguai, o acordo de Itaipu enfrentou também a oposição portenha.

A ditadura militar argentina, nos anos 70, enlouquecida por terríveis teorias conspiratórias (sim, elas existiam antes do astrólogo sair da caverna), foi à ONU para denunciar Itaipu como uma “bomba hidráulica”, capaz de inundar Buenos Aires e varrer os argentinos do mapa. Era o período terraplanista portenho…

Em tempo: as disputas para precificar a energia de Itaipu nunca se deram pela escassez e sim pela abundância. Mais ainda quando fevereiro de 2023 chegar. Nesta data Itaipu assina o último cheque da dívida. E a partir daí terá mais 2,2 bilhões de dólares no caixa, todo ano, fator que só fará crescer olhos em ambas as margens do Rio Paraná.

 

Com O Pitoco

 
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