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Jorge Samek acredita no reaparecimento das Sete Quedas e vislumbra projeto para o Oeste

calendar_month 31 de agosto de 2018
6 min de leitura

Entrevistado no Café com Pitoco de julho, o mais longevo diretor-geral brasileiro de Itaipu foi desafiado a responder a seguinte questão: caso o Banco Mundial ou qualquer outra grande instituição abra um crédito gigantesco para o Oeste do Paraná escolher um projeto, qual seria o eleito?

Jorge Samek foi além da resposta. Ele revela um ambicioso projeto para transformar o quartz em silício, e com energia barata do Paraguai estabelecer na fronteira uma colossal indústria de placas fotovoltaicas.

Em uma janela de poucas décadas, o ex-presidente de Itaipu vislumbra as comportas do reservatório da hidrelétrica abertas, devolvendo milhares de alqueires férteis para a agricultura e fazendo reaparecer as Sete Quedas em Guaíra. Será que o Samek pegou muito sol no cocuruto em sua fazenda no Bananal iguaçuense?

Acompanhe:

 

Consensos

Nos países escandinavos, aprendeu-se com os séculos que não há desenvolvimento se não houver entendimento. A Suécia era um Paraguai no início do século passado. Hoje pontua todos os rankings internacionais. Eles ciscaram para dentro, organizaram o território, neutralizaram essa visão poliédrica, onde cada um só enxerga pelo seu lado. Tem que estabelecer um consenso mínimo para transformar uma nação.

 

Oeste gigante

Buscar consensos é o caminho do Oeste em Desenvolvimento. Ainda restam muitas pontas para amarrar. A hora é agora. Vivemos o melhor momento do Oeste nestes últimos 15 anos. Somos o melhor pedaço do Paraná. Nos anos 1970, Curitiba era moda, depois a força deslocou-se para o Norte paranaense e na última década e meia a região Oeste se agigantou e virou protagonista.

 

A água I

Até relógio parado acerta a hora uma vez por dia, mas se planejar, elevamos a frequência de acertos. Podemos dar saltos no lugar de simplesmente caminhar. Estamos em uma das melhores regiões produtoras de alimentos do mundo, temos três bacias hidrográficas no território. Porém, de oito em oito anos, em média, perdemos safra por deficiência hídrica. Algo está desencaixado aqui…

 

A água II

Temos as melhores águas, as melhores terras, os melhores agricultores, a melhor tecnologia. Por que não temos irrigação? Uma das experiências mais bem-sucedidas do setor está no vale do Rio São Francisco. Mas é uma única bacia. Quando estia, seca, ferrou… Aqui temos três bacias caudalosas. Com baixíssimo investimento em algumas áreas e gastos mais elevados em outras, podemos irrigar 600 mil hectares no Oeste.

 

A água III

O planeta caminha para nove bilhões de terráqueos em 2050. Dois bilhões de bocas a mais para alimentar. A oferta de alimentos tem que crescer 60%. Não tem área para expandir a agricultura nos Estados Unidos, na China, nem na Europa. Sobraram o Brasil e a África. No Oeste, o território está no limite. Aqui entra a irrigação para dobrar a produtividade. Não tenho dúvida, se o Banco Mundial chegasse aqui e dissesse: temos um grande financiamento para ofertar, qual é o projeto? Irrigação!

 

Interior x Capital I

A revolução do Oeste começou no meio dos anos 70. E produziu o milagre das melhores cidades do Paraná para viver. Foi a conversão de proteína vegetal em proteína animal, ciência, pesquisa, tecnologia. Planto soja, colho frango temperado pré-cozido pronto para consumo. Planto milho e colho iogurte, presunto, milhões de oportunidades estão abertas.

 

Interior x Capital II

Quem tem salário de R$ 12 mil em Cascavel, Toledo, Medianeira, Marechal Cândido Rondon ou Santa Helena vive melhor que aquele que ganha R$ 30 mil em Curitiba.  Com três ou quatro aviários, gado de leite, soja e milho, consegue-se morar em uma bela casa, mesmo na pequena propriedade, e levar um padrão classe média, pagando a faculdade dos filhos e com muita qualidade de vida.

 

Busto ao Pitol

O Pitol, da Copacol, é um visionário, um inovador. Deveríamos pôr um busto para ele no Oeste. Ele fez a primeira grande planta de frango, depois fez a pioneira grande planta de tilápia. Os outros vieram depois, no embalo dele. Foi ótimo que a C.Vale e outras cooperativas tenham percebido o potencial da tilápia.

 

Tilápia no lago I

Quando falo na dificuldade de consenso, cito nossa tentativa de criar tilápias em cativeiros no Lago de Itaipu. Certa ocasião, os presidentes do Brasil e Paraguai assinaram um documento autorizando somente o cultivo de peixes nativos. Lutamos para mudar isso. Quando ajustava no Paraguai, desajustava no Brasil. Sempre tem alguém para estorvar.

 

Tilápia no lago II

Tilápia não é carnívora, se escapasse para o lago, seria alimento de peixes maiores. É uma grande oportunidade de renda, carne muito apreciada. Até hoje não deu para avançar no projeto. Deus fez tanta coisa perfeita, mas errou em uma: burrice deveria doer. Se a burrice doesse, algumas pessoas não insistiriam em teses tão esdrúxulas. Se dependesse de alguns burocratas, estaríamos até hoje criando boi caracu, que só tem saco e chifre.

 

Deus sol I

A idade da pedra não acabou porque acabaram as pedras. Da mesma forma, a era do petróleo não irá acabar por falta de petróleo. As alternativas energéticas serão mais baratas e limpas. E o Oeste do Paraná está entre os cinco melhores pontos do planeta em irradiação solar. O futuro pertence à energia solar. Temos um projeto ousado para esta alternativa.

 

Deus sol II

O projeto é trazer para a fronteira uma indústria de placas fotovoltaicas. O Brasil é o maior produtor de quartz, a pedra que faz o silício, matéria-prima das placas. Não é racional enviar o quartz bruto para a China, Alemanha, Estados Unidos nos devolverem em forma de células fotovoltaicas, se podemos produzir aqui. O processo pede muita energia. E a energia barata está no Paraguai.

 

Deus sol III

Está tudo formatado. Trata-se de um projeto de 3 bilhões de euros envolvendo uma empresa de alta tecnologia alemã. Produzir aqui a célula envolve a energia de uma turbina inteira de Itaipu, mas o retorno sobre a energia gasta é superior a dez vezes. Imaginou o que isso representa para o Oeste?

 

Bilhões de Itaipu

Dinheiro para isso? Agora, em 2022, Itaipu paga o financiamento que devora 2,2 bilhões de dólares/ano. Significa que podemos fazer assim: 1 bilhão de dólares para reduzir o custo de energia na fatura do consumidor e outro bilhão para custear o grande projeto de irrigação e para o projeto do quartz transformado em silício com energia barata do Paraguai. Que tal?

 

Quarup

Em algumas décadas, a energia solar, somada à eólica, será abundante e armazenável. Não fará mais sentido alagar áreas agricultáveis, transferir pessoas. A geração de nossos netos vai testemunhar a abertura das comportas de Itaipu. O reservatório será reduzido, devolvendo 80 a 90 mil hectares para a agricultura. O nível da água vai baixar, as Sete Quedas irão reaparecer. Será o Quarup às avessas.

 

Por Jairo Eduardo/O Pitoco

 

 
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