O fenômeno La Niña ainda atua neste fim de janeiro no Oceano Pacífico, entretanto os dados analisados pela MetSul Meteorologia indicam que se encontra nos últimos dias e deve muito em breve chegar ao fim.
Hoje, conforme o último boletim semanal da Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera (NOAA), dos Estados Unidos, a anomalia de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Central-Leste (região Niño 3.4) está em -0,7ºC. O valor está na faixa de La Niña de fraca intensidade (-0,5ºC a -0,9ºC).
São 14 semanas seguidas em que a anomalia da temperatura da superfície do mar está em patamar de La Niña no Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste, desde a metade de outubro.
A maior anomalia negativa foi de apenas -0,8ºC, observada nas semanas de 12 de novembro, 19 de novembro e 7 de janeiro.
Ou seja, em nenhum momento o fenômeno sequer alcançou intensidade moderada e se trata de um episódio muito fraco e curto de La Niña, o que, aliás, era antecipados pelos modelos de clima.
No Pacifico Equatorial mais a Leste, perto das costas do Peru e do Equador, a anomalia de temperatura da superfície do mar na chamada região Niño 1+2 foi de -0,3ºC.
Essa zona em especial do oceano costuma ter impacto na chuva do Rio Grande do Sul e quando se resfria nesta época do ano tende a reduzir a chuva no estado gaúcho com impactos na agricultura.
Por que a La Niña está no fim
A La Niña está claramente no fim porque águas mais quentes estão prestes a atingir a superfície do mar no Pacifico, vindo das profundezas, o que vai determinar a transição para a neutralidade.
Nas últimas semanas, meteorologistas que monitoram o clima global passaram a observar mudanças importantes na temperatura das águas abaixo da superfície do Pacífico Equatorial — região que funciona como o “coração” dos ciclos de La Niña e El Niño.
O ponto central dessa virada é o surgimento de uma forte onda quente submersa, detectada pelas boias TAO, uma rede internacional de instrumentos que monitora continuamente o Pacífico. Essa onda, chamada de onda Kelvin de subsidência, é uma massa enorme de água mais quente que se desloca em profundidade.
Em vez de aparecer na superfície imediatamente, ela começa sua jornada no Pacífico Oeste e viaja para o Leste ao longo da termoclina, a camada que separa as águas mais quentes do topo das mais frias do fundo. Esse movimento não é detalhe técnico: é exatamente o tipo de sinal que antecede o enfraquecimento de o final de um evento de La Niña.
Quando uma onda Kelvin quente se desenvolve, ela empurra a água fria para baixo e faz com que água mais quente se aproxime da superfície — justamente o oposto do que mantém a La Niña ativa. Em outras palavras, o oceano está mudando de “modo”.
A água que antes estava mais fria na faixa equatorial começa a perder força, abrindo espaço para temperaturas mais elevadas que levam o Pacífico a um estado neutro ou até mesmo ao início de uma fase de El Niño.
O cenário mais seguro é que a La Niña está perdendo suas características essenciais e entrando em seu processo final. O Pacífico está esquentando de baixo para cima, e esse aquecimento submerso é o gatilho que normalmente marca a transição para uma nova fase climática.
A tendência dominante é de neutralidade agora em fevereiro e, possivelmente, de um El Niño em desenvolvimento ao longo do próximo outono e inverno. Em se confirmando um El Niño, ainda não é possível saber a esta altura qual será a sua intensidade, um cenário de El Niño forte não pode ser descartado.
O que é o fenômeno La Niña e como impacta o Brasil
O fenômeno La Niña tem impactos relevantes no sistema climático global, sendo caracterizado por temperaturas abaixo do normal na superfície do Oceano Pacífico equatorial central e oriental. Essa condição contrasta com o El Niño, sua contraparte quente, e faz parte do fenômeno El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que influencia os padrões climáticos em todo o mundo.
Durante um evento, as águas do oceano Pacífico equatorial central e oriental ficam mais frias do que o normal. Isso tem efeitos significativos nos padrões de vento, precipitação e temperatura ao redor do globo. A última vez em que a fase fria esteve presente foi entre 2020 e 2023 com um longo evento do fenômeno que trouxe sucessivas estiagens no Sul do Brasil e uma crise hídrica no Uruguai, Argentina e Paraguai.
No Brasil, os efeitos variam de acordo com a região. O Sul do país geralmente experimenta menos chuva enquanto o Norte e o Nordeste registram um aumento das precipitações. Cresce o risco de estiagem no Sul do Brasil e no Mato Grosso do Sul, embora mesmo com a La Niña possam ocorrer eventos de chuva excessiva a extrema com enchentes e inundações.

Além da chuva, o fenômeno também influencia as temperaturas em diferentes partes do mundo. No Sul do Brasil, o fenômeno favorece maior ingresso de massas de ar frio, não raro tardias no primeiro ano do evento e precoces no outono no segundo ano do episódio. Por outro lado, com estiagens, aumenta a probabilidade de ondas de calor e marcas extremas de temperatura alta nos meses de verão no Sul.
Em escala global, quando o fenômeno está presente há uma tendência de diminuição da temperatura planetária, o que nos tempos atuais significa menos aquecimento da Terra. O aquecimento do planeta, entretanto, foi tamanho recentemente que a temperatura média do planeta hoje em um evento de La Niña forte tende a ser mais alta que em um evento de forte El Niño décadas atrás.
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