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Obrigado, senhor! – por Lísias de Araújo Tomé

Uma história de luta até se formar em Medicina e, mais tarde, eleger-se prefeito de Cascavel


calendar_month 21 de maio de 2023
10 min de leitura

Lisias envergando o jaleco branco de doutor e o amigo Hirofumi (abaixo) para quem pediu um colchão e ganhou um abrigo quando cursava Medicina em Curitiba e viu o teto desaparecer: reconhecimento público e gratidão à mão estendida

O meu amigo e colega, dr. Jesus Viegas, me pediu para escrever uma passagem da minha vida. Depois de muitos anos, resolvi escrever e gostaria que estas palavras ressoassem como um agradecimento ao dr. Hirofumi Uyeda, que me acolheu da rua, e ao professor que disse que o problema era meu, pois ele me ensinou o que eu não queria ser na minha vida. Hoje, sou professor da faculdade de Medicina e ensino empatia aos meus alunos para que tratem os seus semelhantes com amor, com delicadeza.

R$ 1,30 ERA CARO

Terminou o ano de 1985, eu já estava no quarto ano de Medicina na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba. Terminou, também, junto com aquele ano, um dos períodos mais difíceis da jornada da minha faculdade, o período em que morei numa república de estudantes de Medicina, quase todos japoneses, entre eles Hirofumi Uyeda e Celso Mitsutake, todos médicos e hoje atuando em Cascavel. Bons amigos, companheiros de todas as horas e dos momentos árduos das provas da faculdade e quando mesmo até para comer no restaurante universitário era muito caro. Às vezes, o meu companheiro e amigo de república, Hiro, me emprestava dinheiro para almoçar; o preço deste almoço, hoje, é de R$ 1,30.

ESPERANÇA NO BICHO

Meus pais faziam o possível e o impossível para pagar a mensalidade da república. Meu pai estava com muita dificuldade, e minha mãe, uma mineira da roça, fazia crochê e jogava no bicho, sempre na esperança de ganhar para mandar o que ela conseguia. Eu fazia a minha parte, estudava muito e nem prestava atenção para essas dificuldades. Até o terceiro período da faculdade, sempre estive entre os primeiros alunos da turma, pois minha única preocupação era estudar.

A partir deste terceiro semestre do curso, o dinheiro do crochê da minha mãe, as apostas no jogo do bicho e o pai enfrentando seus próprios problemas, a ajuda financeira foi minguando cada vez mais. Comecei, então, a cair, minhas notas começaram a ficar baixas e sempre ficava de exame nas matérias mais difíceis. Agora, a minha preocupação era sobreviver e não reprovar, pois queria terminar o meu curso nos seis anos normais da faculdade. Fui suportando, até que, no final deste ano de 1985, a proprietária do apartamento que era nossa república solicitou à imobiliária a devolução do imóvel.

“… minha mãe, uma mineira da roça, fazia crochê e jogava no bicho, sempre na esperança de ganhar algum para me mandar o que ela conseguia”

DOUTOR SEM TETO

No final deste ano e terminado aquele período escolar, todos os amigos da república foram para as suas casas, inclusive eu, que vim para Cascavel, na casa dos meus pais, para descansar um pouco. Eu sabia que no retorno das aulas, em janeiro de 1986, não teria onde morar. Meu pai, então, conversou com uma vendedora de livros e de materiais para dentistas, que trabalhava numa cidade a 30 quilômetros de Curitiba, para me arrumar um quarto para morar. Era uma casa simples, de madeira, e ali fiz uma das minhas grandes amizades: o filho da senhora, que estudava também na Universidade Federal do Paraná, que me cedeu uma cama do beliche do próprio quarto. Nunca me incomodei com a distância, pois simplesmente era necessário e não tinha outro jeito, pois o valor do quarto era barato e era o que tinha naquele momento.

PORTA TRANCADA

Um dia, já no término do semestre e no período de provas, me dirigi para a pensão nesta cidade vizinha de Curitiba, pois eu precisava descansar e estudar para a prova no outro dia. Quando cheguei, já era noite, tentei abrir a porta da sala, mas estava trancada. Achei estranho porque ela sempre estava aberta. Tentei abrir o trinco, mas a porta não abria. Através da janela percebi que a senhora, dona da casa, estava na sala e viu minha dificuldade em entrar e mesmo assim não se movimentava do sofá. Na hora, pensei: meu pai não pagou a mensalidade do quarto. Fui até a janela e pedi se ela poderia abrir a porta, afinal já era noite e estava frio. Ela então abriu e ficou me olhando até que finalmente me deixou entrar.

TELEFONE CADEADO

Entendi a mensagem e tentei discar para o meu pai, mas ela colocou um cadeado no telefone. Pedi a chave para que eu pudesse telefonar, mas, sem sucesso, ela disse que não iria permitir que eu falasse com meu pai porque eu estava gastando muito com os telefonemas. Mesmo assim, eu argumentei que sempre discava a cobrar e não dava nenhuma despesa pra ela. Nada, sem sucesso. Ali, então, não era mais o meu lugar. Fui para a rua, num telefone público, e expliquei para o meu pai a situação. Mas, como era tarde da noite, ele não tinha como me mandar qualquer valor, e disse que no outro dia ele conseguiria me enviar. Voltei para a pensão, sem nada dizer, e peguei uma bolsa com minhas roupas e sapato, e outra bolsa, com os livros e cadernos. Voltei para a rua, agora sem destino, não sabendo onde iria dormir.

POUSO NO PROSTÍBULO

Cheguei ao centro de Curitiba e caminhei, caminhei até minhas pernas cansarem. Quando já não aguentava mais, tive a ideia de pedir pouso para a minha irmã, que morava numa república para moças, perto da Praça Espanha, mas ela disse que eu não poderia dormir ali, pois não era permitido. Fiquei ali sentado sem saber o que fazer, pois já era 1 hora da manhã. Voltei para o centro da cidade e novamente liguei para o meu pai e ele confirmou que no outro dia de manhã me mandaria R$ 100 para eu dormir num hotel. Achei um hotel ao lado da Praça Santos Andrade, bem perto do Hospital de Clínicas, que não era caro. Paguei R$ 70 para dormir e tomar um café da manhã. Era sexta-feira e fui fazer uma prova logo cedo. Prova realizada, e todos os colegas voltaram para as suas casas. Eu não tinha para aonde ir. Fiquei naquela sala sozinho, pensando o que eu iria fazer, pois agora só tinha R$ 30 no bolso. Saí andando na cidade, com minha bolsa de roupas e cadernos, novamente sem direção e sem destino. Pensei: “Senhor, me ajude, me dê forças, pois estou muito cansado”. Consegui, de praça em praça, andar até 1 hora da madrugada e, quando eu não aguentava mais, e apenas com R$ 30 no bolso, parei em um prostíbulo e perguntei quanto custava para dormir ali aquela noite. A moça da recepção me olhou e disse que custaria os R$ 30 que eu tinha no bolso.

“… e, quando eu não aguentava mais, com apenas R$ 30, parei em um prostíbulo e perguntei quanto custava para dormir ali aquela noite. A moça da recepção disse que custaria os R$ 30 que eu tinha no bolso”

SAPECA NEGUINHO

Subi para o quarto preocupado, pois de manhã eu teria prova de pneumologia e tinha que pelo menos dormir um pouco. Estava muito frio e, deitando, me cobri com o cobertor que tinha, um cobertor que chamavam de “sapeca negrinho”, hoje muito usado para fazer transporte de mudanças, mas que arranhava e machucava a pele do corpo. Só tirei o sapato, deitei com a própria roupa do corpo e me cobri com um blusão, presente que tinha ganhado da minha mãe e comprado num brechó de roupas usadas. Mas estava muito frio e só o blusão não era suficiente para me aquecer. Mesmo assim tentei dormir, mas não consegui, pois o cobertor, além de arranhar muito, tinha alguma coisa suspeita, pois um casal tinha usado o quarto pouco antes de eu entrar.

HIRO, O ACOLHEDOR

Desisti de tentar dormir e levantei, pois ainda eram 3 horas da madrugada e daria tempo para estudar para a prova de pneumologia. Estudei até de manhã, na hora da prova. Novamente, terminada a prova, todos foram para as suas casas e eu fiquei ali, sentado, sem saber para aonde ir, novamente. Peguei minha trouxa de roupas e livros e fui andar a esmo, totalmente sem destino e sem saber o que fazer. Andei, andei até não aguentar mais, até que às 5 horas da tarde, com a noite se aproximando, resolvi ir até o apartamento do meu ex-colega de república, hoje doutor Hirofumi Uyeda, que morava com a irmã dele, e apertei no interfone. Ele atendeu, me cumprimentou e me perguntou se precisava de alguma coisa. Fiquei com vergonha de contar a minha situação e perguntei apenas se ele tinha um colchão. O Hiro começou a dar risada e me perguntou para que eu queria um colchão. Expliquei o que estava acontecendo nos últimos três dias e ele ficou revoltado por não tê-lo procurado antes. Me mandou subir e dormir ali. Estudei o domingo inteiro, pois na segunda-feira de manhã teria a prova mais difícil daquele período, a temível prova de nefrologia. Foi difícil estudar naquele domingo, pois comecei a tossir e fazer febre muito alta. Nem dei atenção, pois achei que era apenas um quadro de gripe.

“DANE-SE, PROBLEMA SEU”

Levantei na segunda-feira para fazer a prova, e durante minha higiene, ao escovar os dentes, tossi, e, ao escarrar, enchi a pia de sangue. Pensei: agora, como eu iria conseguir fazer a prova de nefrologia, pois estava com pneumonia. Mesmo assim fui para o Hospital de Clínicas, onde seria realizada a prova. Conversei com o professor e disse que eu estava muito doente. A resposta dele foi simplesmente: “Dane-se, o problema é seu”. Fiz a prova, fui mal e reprovei, mas graças a Deus era a última prova do semestre e eu poderia voltar para a minha casa, em Cascavel, pois eram férias.

Nota da redação: Lísias se graduaria em Medicina anos depois desses acontecimentos e se tornaria prefeito de Cascavel na maior “zebra” eleitoral da história da cidade.

Foi determinante para o desempenho de Lísias nas urnas, além do pouco caso de seus adversários, o fato de alguém ter duvidado que ele tinha de fato o diploma de doutor.

BAÚ DO PITOCO

4 DE OUTUBRO DE 2004 – Desfecho inesperado da eleição para prefeito de Cascavel. O médico Lísias Tomé quebrava uma série de paradigmas tidos como verdades absolutas na cidade e alojava a zebra no 3º andar do Paço Municipal.

Conforme relata a edição do Pitoco reproduzida e datada de quase 20 anos atrás, Lísias não tinha coligação, estrutura financeira, tempo na TV, apoio dos medalhões da cidade, estrutura profissional de comunicação e nem os famosos boqueiros, aqueles batalhões de cabos eleitorais que se contratava às vésperas das eleições no vale tudo que eram os pleitos da época.

Nas notas telegráficas da edição, a aposta do Zé Ivaldece (revista Nova Fase), que previa um peladão no centro da cidade. Zé perdeu a aposta, mas, felizmente, nunca a pagou. Por fim, o exemplar de 19 anos atrás relatou também a agonia do médico Luis Amélio Burgarelli na longa noite de apuração manual dos votos.

Com Jairo Eduardo, jornalista e editor do Pitoco.

pitoco@pitoco.com.br

 
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