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Os vencedores dos muitos desafios da reforma agrária – por Dilceu Sperafico

calendar_month 24 de julho de 2019
3 min de leitura

Nem todo os assentamentos do programa de reforma agrária, implantados a partir dos anos 70 e 80, estão envolvidos em irregularidades, como venda e/ou arrendamento de lotes, entre outras, além da dependência de programas sociais do governo.

Os verdadeiros pequenos agricultores e/ou trabalhadores rurais, com tradição e vocação para a atividade agropecuária, souberam aproveitar muito bem a oportunidade de cultivar a sua propriedade, garantindo o sustento da família e a expansão e diversificação de suas ações produtivas.

No município de Lucas do Rio Verde, no Norte do Mato Grosso, por exemplo, estão muitos dos verdadeiros agricultores que participaram do primeiro grande movimento dos sem-terra no país, que em 1981 montaram acampamento nas margens de rodovia, na Encruzilhada Natalino, em Ronda Alta, no Norte do Rio Grande do Sul.

A mobilização resultou na criação do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST). Durante negociações com o governo federal foi feita proposta de assentamento em região promissora no Centro-Oeste do país, em área ainda não desbravada no Norte de Mato Grosso.

Além de lotes com 200 hectares, o que era grande área para pequenos agricultores e trabalhadores rurais gaúchos, o governo lhes oferecia transporte das famílias em ônibus e da mudança em caminhões, assistência técnica no cultivo da terra e ajuda de salário mínimo durante 18 meses.

Das cerca de mil famílias acampadas, 205 produtores aceitaram a transferência para região desconhecida, mesmo sob o olhar de desconfiança de lideranças do movimento e a maioria deles venceu o desafio de construir uma nova vida no Centro-Oeste do país.

Entre os vencedores estão hoje verdadeiros fazendeiros, com cerca de 70 anos de idade e propriedades de dois mil hectares ou mais, áreas dez vezes maiores do que o lote original, além de residências confortáveis na sede do município de Lucas do Rio Verde, a 350 quilômetros de Cuiabá.

Muitos deles recordam que, como gente da roça no acampamento moravam em abrigo de lona, em barranco na beira de estrada, como se fosse uma favela, que foi deixada para trás na busca da construção de nova vida no Mato Grosso, onde mantêm o sotaque do interior gaúcho e o hábito de tomar chimarrão diariamente e assar churrasco aos domingos.

Durante o deslocamento, foram vários dias transitando por estradas de chão, com os sem-terra acompanhados de esposas e filhos, dentro de um ônibus e com os poucos bens carregados em caminhão. No Mato Grosso foram todos recepcionados por mosquitos e militares de batalhão do Exército, designados para apoiá-los no início das atividades, especialmente na construção de moradia e plantio de alimentos.

Graças à capacidade, tradição e dedicação dos colonizadores, Lucas do Rio Verde se transformou em município muito produtivo, especialmente nas culturas do milho e da soja, além de criação de bovinos, que crescem muito anualmente. Atualmente com 65 mil habitantes, a cidade dobrou a população nos últimos dez anos.

Devido às dificuldades iniciais, muitas das famílias pioneiras voltaram ao Rio Grande do Sul nos primeiros dois anos, mas os que resistiram, mesmo morando durante vários meses debaixo de lona, construíram as primeiras casas de madeira, adquiriram tratores e outros implementos e consolidaram a sua condição de grandes produtores de grãos, especialmente milho e soja.

 

O autor é ex-deputado federal pelo Paraná e ex-chefe da Casa Civil do Governo do Estado
dilceu.joao@uol.com.br

 
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