Como medida preventiva à propagação do novo coronavírus, o Governo do Paraná decretou a suspensão das atividades por tempo indeterminado tanto da rede pública quanto da particular de ensino, municipal e estadual, além das faculdades e universidades. Desde então, 20 de março, os estudantes paranaenses estão em quarentena.
Como consequência, empresas do ramo de transporte escolar e universitário também pararam. Em entrevista ao O Presente, empresários do setor revelaram que já não têm esperanças em manter a atividade mesmo no período pós-pandemia. Para muitos, as apostas feitas em 2019 para 2020 foram altas demais e os empréstimos se acumulam.
MUITA PROCURA
Cristiano Reschke conta que entrou no ramo de transporte escolar em 2018, com grandes expectativas. “Sou de família pioneira da cidade, mas estive fora por algum tempo. Com o retorno, pesquisei atividades em ascensão no município. Fui até a prefeitura ver o que era necessário para realizar o transporte de alunos, fui informado que havia grande procura pelo serviço e faltavam empresas. Entramos no ramo com veículos bons, realizando um trabalho diferenciado e conquistando clientes”, rememora o proprietário da Reschke Transportes.
Segundo ele, o negócio avançava a bons passos. “O ano passado foi de crescimento para nós. Aumentamos nosso número de funcionários e veículos. Tínhamos esperança de que 2020 seria ainda melhor, pois havia muita procura. Contudo, essa pandemia nos atingiu em cheio”, lamenta, emendando: “Contávamos com quase 50 alunos e, então, paralisamos as atividades”.

Cristiano Reschke, proprietário da Reschke Transporte: “Provavelmente vou vender os veículos, porque acredito que minha empresa não retorna mais nessa atividade. É hora de se reinventar, e com muita cautela” (Foto: O Presente)
FUTURO DAS ATIVIDADES
Sem previsão do retorno das aulas, Reschke diz que muitos pais suspenderam o contrato que haviam firmado com a empresa. “Todo mundo foi atingido. Muitos perderam os seus empregos ou então estão pagando alguém para cuidar de seus filhos nesse momento. Por mais que seja um contrato, fomos flexíveis diante das adversidades”, expõe.
Com veículos financiados, gastos com manutenção e combustível, a empresa teve de despedir seus funcionários, duas monitoras e um motorista. “Quando tudo voltar à normalidade, é certo que teremos menos clientes e precisaremos de um número x de estudantes para conseguirmos manter o negócio. Fomos afetados drasticamente e não conseguimos imaginar um futuro”, pontua o empresário.
Ele descarta, no momento, acionar linhas de crédito para salvar a empresa. “Não vou me arriscar. Mesmo quando tudo for retomado o movimento deve diminuir. Se eu me comprometer com mais um financiamento além daqueles da frota, posso me afundar ainda mais em dívidas. Provavelmente vou repassar a frota, vender os veículos, porque eu acredito que minha empresa não retorna mais nessa atividade”, revela. “Assim como fiz em 2018, agora é hora de se reinventar, e com muita cautela. Já estou com olhares para outro negócio, mesmo que as dívidas se mantenham. Não dá para ficar parado”, enaltece.
EFEITO DOMINÓ
Há 11 anos atuando em Marechal Rondon e com cerca de 80 alunos atendidos, o Tio Onça Transporte Escolar ainda está conseguindo manter seus funcionários. “Em um efeito dominó, todos foram pegos de surpresa por essa pandemia. Eu deixei de receber, mas continuo com contas e funcionários para manter”, resume Valdemir Neitzke, proprietário da empresa.
Sem contrato firmado com os clientes, o empresário viu sua renda zerar com a crise. “Nunca pensei ser necessário essa formalidade, porque é algo burocrático que pode constranger as pessoas. Então, no dia que a pessoa não quer mais meus serviços, ela desiste, simples assim. Não podemos cobrar esse valor sem ofertar o transporte, todo mundo foi afetado, não posso tirar da renda do outro”, ressalta Neitzke.
Ele afirma que por enquanto está “segurando as pontas”. “Buscamos alternativas junto aos bancos. Peguei empréstimos e estou mantendo os funcionários, pois eles também têm suas necessidades”, comenta, acrescentando que, nesse tempo de quarentena, sua frota de seis vans está em manutenção: “Não podemos perder tempo e devemos estar prontos para quando tudo voltar ao normal”.

Valdemir Neitzke, proprietário da Tio Onça Transporte Escolar: “Buscamos alternativas junto aos bancos, peguei empréstimos e estou mantendo os funcionários, pois eles também têm suas necessidades” (Foto: O Presente)
TRANSPORTE UNIVERSITÁRIO
Anderson Luiz Alves, sócio-proprietário da Anderson Turismo, empresa que presta serviços a estudantes há 11 anos, menciona que em todo o tempo de atividade, este está sendo o ano mais difícil. “Nós transportávamos cerca de 200 estudantes diariamente nos percursos Marechal Rondon/Cascavel e Nova Santa Rosa/Marechal Rondon. São cinco veículos parados. Tivemos dez anos de muito crescimento e nesse 11º falhou, houve uma queda brusca no principal ramo da atividade”, lamenta.
Tendo em vista os altos custos envolvidos para a realização do trajeto, a empresa trabalhava por meio de contratos. “Por enquanto, a grande maioria dos estudantes cumpriu com o contrato. Nesse segundo mês, propomos um desconto de 50% no valor total e para o terceiro mês é um ponto de interrogação”, antecipa o empresário, emendando: “Fizemos um compromisso entre empresa e alunos. Caso haja necessidade de ter aulas nos sábados, não tenha férias no mês de abril e aconteça o prolongamento no final de ano, faremos pelos valores de abril. Já o mês de maio fica pelo contrato”.
SAÚDE DA EMPRESA
Alves salienta que precisa de ao menos metade do valor do contrato para conseguir manter a empresa aberta e cumprindo os compromissos. “É precoce diagnosticar qualquer coisa agora, mas a retomada vai ser lenta e sem certezas, pois nosso ramo gera aglomerações, e as pessoas estarão receosas”, opina.
Até o momento, a empresa de transporte deu férias para todos os funcionários e a partir de agora prorrogou os contratos por até 60 dias, contando com a ajuda de 50% do salário por parte do governo federal em maio e julho. “De acordo com um pronunciamento do governador, as aulas só devem voltar em agosto, e caso isso se confirme, a empresa não vai continuar com o transporte e vai parar com as atividades. Não conseguimos nos sustentar até lá”, expõe.
O empresário enfatiza que 2020 era um ano em que todos estavam apostando e aguardando por bons resultados. “O aprendizado que temos entremeio a essa crise de saúde é a necessidade de sempre trabalhar com os pés no chão, mensurando bem os investimentos incertos para não acabar perdendo”, finaliza.

Anderson Alves, sócio-proprietário da Anderson Turismo: “As aulas só devem voltar em agosto, e caso isso se confirme, a empresa não vai continuar com o transporte e vai parar com as atividades. Não conseguimos nos sustentar até lá” (Foto: O Presente)
O Presente