Se você é tutor de um pet acima do peso, é bem provável que já tenha ouvido o seguinte conselho: “É só controlar a alimentação e incentivar mais atividade física”. Na prática, porém, essa fórmula aparentemente simples costuma falhar – especialmente quando a fisiologia, o metabolismo e até a genética conspiram contra a balança. Agora, imagine se existisse um medicamento capaz de controlar o apetite, regular a secreção de insulina, promover perda de peso e ainda preservar a função pancreática? Para os humanos, ele já existe: são os chamados análogos de incretinas, como o famoso Ozempic, que se tornou símbolo da revolução farmacológica no controle da obesidade. Mas… e para os pets?
Durante o Congresso CBNA Pet 2025, realizado na Fenagra, a professora doutora Sofia Borin Crivellenti, docente da Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e especialista em endocrinologia veterinária, apresentou um panorama surpreendente e altamente técnico sobre os avanços no uso de medicamentos semelhantes ao Ozempic em cães e gatos obesos. A palestra, que reuniu dados históricos, ensaios clínicos e estudos experimentais, mostrou que o futuro da endocrinologia veterinária pode estar mais próximo das farmácias humanas do que se imaginava.

De onde vem esse efeito? A história das incretinas
O ponto de partida é fisiológico: as incretinas são hormônios liberados no trato gastrointestinal durante a digestão. Eles têm a capacidade de estimular a secreção de insulina de forma dependente da presença de glicose, regulando os níveis de açúcar no sangue. O chamado “efeito incretina” foi descrito ainda em 1964, mas os primeiros medicamentos baseados nesse princípio só começaram a ser desenvolvidos no início dos anos 2000.
“Essas drogas simulam a ação de dois peptídeos: o GLP-1 e o GIP, ambos sintetizados por células intestinais específicas e altamente sensíveis à presença de nutrientes”, explicou a professora. A partir do avanço na compreensão desses mecanismos, vieram drogas como o exenatida, semaglutida e tirzepatida, hoje populares em tratamentos humanos para diabetes tipo 2 e obesidade. A pergunta que se impôs à Medicina Veterinária foi inevitável: funcionaria também em animais de companhia?
O gatilho veio da cirurgia bariátrica
Um dos momentos mais curiosos da palestra veio da observação de humanos submetidos à cirurgia bariátrica. “Em muitos casos, a remissão do diabetes tipo 2 acontecia antes mesmo da perda de peso significativa”, apontou Sofia. A explicação? Mudanças na dinâmica intestinal aceleravam a ativação das células L, responsáveis por secretar o GLP-1. Ou seja: a manipulação do intestino criava um ambiente hormonal favorável à normalização da glicemia, mesmo em pacientes obesos e insulino-dependentes.
Foi a partir dessa pista que se intensificaram os estudos sobre o papel das incretinas em animais, especialmente gatos obesos, que compartilham características metabólicas semelhantes às dos humanos com diabetes tipo 2. “O gato tem um defeito de base nas células beta pancreáticas. Elas funcionam até certo ponto, mas quando o animal passa a ter resistência à insulina por obesidade, sedentarismo ou senilidade, o sistema entra em colapso”, detalhou a pesquisadora.
Gatos na linha de frente da pesquisa
A UFU liderou, nos últimos anos, uma série de ensaios com gatos obesos tratados com análogos de GLP-1, como o liraglutida (conhecido comercialmente como Saxenda ou Victoza). Os resultados foram promissores, mas não isentos de efeitos adversos. “Com apenas 14 dias de uso, observamos uma perda média de 9% de peso. Em 28 dias, esse número subiu ainda mais”, revelou Sofia.
Mas o preço foi alto. “Tivemos gatos que ficaram completamente anoréxicos por dois dias, sem qualquer interesse em alimento. Outros apresentaram vômitos, diarreia e letargia.” A explicação, segundo a professora, pode estar na dose utilizada. “Usamos o mínimo permitido pela caneta humana, mas era cerca de 15 vezes a dose proporcional ao peso do gato. Foi uma lição importante”.
Com menos frequência, menos reações
Na sequência, a equipe testou um análogo de ação prolongada, administrado uma vez por semana, o que reduziu drasticamente os efeitos colaterais. “A tolerância foi muito melhor. Não houve vômitos, nem diarreia. A perda de peso foi moderada e sustentada. Em 28 dias, tivemos reduções entre 5% e 7%”, destacou Sofia. Embora essa medicação ainda não esteja disponível no Brasil, os dados mostram um caminho promissor.
Mais recentemente, o grupo acompanhou os primeiros testes com um implante subcutâneo de liberação contínua. “Com apenas uma aplicação, alguns gatos mantiveram o peso reduzido por até 112 dias. Em 28 dias, a perda de peso chegou a 12% em alguns casos.” Ainda assim, o apetite dos animais foi fortemente suprimido – um efeito desejado, mas que exige atenção. “Um dos gatos passou seis dias sem comer espontaneamente”, relatou.

E os cães? Também podem se beneficiar?
Embora os estudos com gatos estejam mais avançados, os cães também entraram no radar. A professora explicou que, nos humanos, muitos dos ensaios iniciais com incretinas foram feitos em modelos caninos – o que indica boa resposta fisiológica. “No entanto, o diabetes mais comum nos cães é do tipo 1, insulino-dependente. Isso faz com que o uso dessas drogas seja menos prioritário na espécie”, contextualizou.
Ainda assim, há espaço para pesquisa, especialmente em casos de diabetes secundário (induzido por medicamentos como corticoides) ou em protocolos voltados à perda de peso em cães com sobrepeso. “Um estudo de 2016 já mostrava redução de peso significativa em cães tratados com liraglutida, mesmo sem alteração importante na ingestão alimentar”, apontou.
Potência comprovada, cautela necessária
A mensagem final da pesquisadora foi direta: sim, os análogos de incretinas funcionam em pets. Mas é cedo para uso amplo e seguro. “Essas drogas são muito potentes. Precisamos de mais estudos para definir a dose correta, o intervalo de aplicação e os protocolos ideais. Além disso, são medicamentos caros, ainda inacessíveis à maioria dos tutores”, ponderou.
Para a professora, o papel dos profissionais da área é fundamental neste momento: “Veterinários, pesquisadores e empresas precisam caminhar juntos para transformar esses achados em opções reais, seguras, eficazes e viáveis no combate à obesidade e ao diabetes tipo 2 em animais”.
O Presente Rural
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