Volta e meia, como profissional de Educação Física, sou questionado por que as pessoas estão engordando. A grande maioria sente um peso enorme na consciência por se achar sedentária e eu tento explicar que o sedentarismo é um problema real, mas que de longe é o problema isolado da obesidade.
Então aparecem outras perguntas, como: será que é hormonal? A literatura é vasta em apontar o valor aproximado de 4% de “culpa” devido aos hormônios, uma triste realidade, pois a maioria gostaria de acreditar e grande parte até acredita que o seu problema seja hormonal.
E, por final, ainda que haja outros possíveis fatores, vem a pergunta: será que é por causa da alimentação? E a resposta que poucos gostariam de ouvir é: sim, por causa, sobretudo, da alimentação!
Durante uma viagem surgiu-me a ideia de escrever um texto demonstrativo de como é possível engordarmos e até mesmo nos tornarmos obesos sem sequer imaginar esta possibilidade.
Assim que o avião decolou o comissário de bordo informou que em breve serviriam um lanche para tornar a viagem mais agradável. Após algum tempo passa a aeromoça com uma cesta servindo batatinha frita (138 kcal), biscoito de polvilho (25 g=115 kcal), biscoitos de goiabinha (143 kcal), cookie integral (132 kcal), amendoim japonês (26 g.=141 kcal), bolinho inglês (30 g.=108 kcal), bala de gelatina-aviõezinhos (25 g.=67 kcal – apesar de haver uma estimativa mais elevada de aproximadamente 91 kcal), queijo integral (17 g.= 65 kcal), 1 copo de Coca-Cola (85 kcal) ou um copo de suco de pêssego light (40 kcal) e por vezes é ofertada uma maçã (72 kcal). Bom, a partir desta feirinha, passamos à somatória que pode resultar aproximadamente entre 822 e 862 kcal, suco ou refrigerante, respectivamente.
Imaginemos, num trecho de Cascavel para Campinas. Geralmente, o destino é outro local. Por isso, após estarmos na central de chegadas e saídas de voos para os mais distintos destinos, aguardamos algumas horas e embarcamos para mais um voo. Assim, se este próximo trajeto for o destino final e quisermos desfrutar das benesses da empresa aérea em sua totalidade, teríamos ingerido uma média de 1.684 kcal; se aproveitar mais um trecho, vai para 2.526 kcal.
Alguém que não tem formação acadêmica na área da saúde tem consciência da quantidade energética que foi ingerida sem qualquer gasto energético extra?
O site Entendendo Biologia apresenta uma proposta de calcular a necessidade energética total (NET), dentre tantas outras fórmulas existentes, que, inclusive, podem ser melhores que a apresentada, mas didaticamente optou-se por usar esta.
Neste site, o editor apresenta seis pessoas como exemplo de calcular o NET. Entretanto, antes de partir para o cálculo da NET, o autor propõe calcular o gasto energético basal (GEB), aquele que é necessário para manter um ser humano vivo nas condições mais básicas possíveis (similar a estar dormindo), conforme o sexo: feminino (GEB) = 665 + (9,6 x Pi) + (1,7 x A) – (4,7 x i) e masculino (GEB) = 66,5 + (13,7 x Pi) + (5 x A) – (6,8 x i) – Pi = peso atual (kg); A = estatura (cm) e i = idade (anos).
Na verdade a Pi deveria ser considerado o peso ideal, mas este é um conceito mais profundo, por isso, adotar-se o peso atual.
Para calcular a NET = GEB x fator de atividade
O fator atividade vai variar conforme a classificação da atividade e o sexo (masculino – feminino) em leve (1,55 – 1,56), moderada (1,78 – 1,64) ou intensa (2,10 – 1,82), respectivamente.
Portanto, se você tem de massa corporal 70 kg, estatura de 1.70 cm, 45 anos, atividade física classificada como leve e é do sexo masculino, proceda aos cálculos: masculino (GEB) = 66,5 + (13,7×70) + (5×170) – (6,8×45), masculino (GEB) = 66,5 + (959) + (850) – (306), Masculino (GEB) = 1.875,5 – 306 = 1.596,50.
Partindo-se do valor de 1.596,50 kcal para a manutenção do corpo em situação basal, veja-se para uma pessoa que mantém uma atividade diária classificada como leve: NET = GEB x fator atividade – NET = 1.596,50 x 1,55 = 2.474,58 kcal.
Então, se o vivente sair de Cascavel e for até Campinas, de lá for até Brasília para depois chegar em Natal e fizer os três lanches, ingeriu (2.526 calorias aproximadamente), mais que o necessário para a sobrevivência daquele dia (51 kcal). A princípio parece pouco, mas não vai fazer mais nenhuma refeição neste dia?
Caso este ser que se está a exemplificar tivesse tomado um copo de café com leite desnatado, adoçado com açúcar e um pãozinho teria ingerido cerca 230 kcal, com mais 51 kcal ingeridas na viagem somariam 280 kcal.
Entretanto, se esta pessoa pensasse, para desencargo de sua consciência, em realizar exercício físico, veja o quanto teria que fazer para gastar o contido em apenas um pacotinho de amendoim japonês. O mesmo site5 informa que o valor energético do amendoim japonês demonstra que para gastar 141 calorias seria necessário andar 21 minutos de bicicleta, ou 14 minutos de corrida ou 51 minutos trabalhando em limpeza.
Assim, a princípio teria que correr pelo menos 28 minutos, lembrando, sem fazer qualquer outra refeição naquele dia.
Apenas para lembrar que se a pessoa mantém uma dieta equilibrada e come um bombom Ouro Branco (111) ou Sonho de Valsa (114) necessitaria correr pelo menos 11 minutos ou caminhar aproximadamente 1.100 metros. Ou seja, quem após comer um bombom faz uma ou duas voltas na quadra para gastar a energia a mais acrescentada naquele dia? Ou quantos conseguem se contentar com apenas um bombom?
Um cheeseburger equivale a 359 kcal, isso sem refrigerante, batatinhas e condimentos equivalente a 36 minutos de corrida.
Eis alguns dos motivos de se ter uma sociedade com sobrepeso ou obesa.
Alberto Saturno Madureira é doutor em Educação Física e professor do curso de Educação Física – Bacharelado da Unioeste
albertosmadureira@gmail.com