Toda vez é igual: a notícia chega, a cidade paralisa, o país chora. A professora tenta segurar a porta, as crianças correm pra se esconder, um ou dois heróis improvisados seguram o agressor como podem, mas quase sempre tarde demais.
Depois vêm flores, cartazes, discurso de que “jamais esqueceremos”. E, assim que passa o enterro, a escola abre o portão de novo.
Em Saudades (SC), abriram. Em Estação (RS), abriram. E toda vez que o portão está destrancado, o luto sabe o caminho – e entra!
Não adianta mais repetir a mesma pergunta: como isso aconteceu? A resposta é simples, feia, mas verdadeira: aconteceu porque deixaram entrar. E vai acontecer de novo se a gente continuar fingindo que segurança escolar é só cerca, câmera e discurso de condolências.
Depois do massacre em Saudades, muita escola reforçou muro, comprou câmera, pagou vigia. Mas muitas outras continuaram igual, com portão aberto pra quem quiser bater, pra quem mora perto, pra quem “todo mundo conhece”. O assassino de Saudades era da cidade. O de Estação também. O problema é esse: a gente conhece – até não conhecer mais.
A escola foi feita pra acolher, não pra barrar. Mas hoje não dá mais pra ser só acolhimento. Escola sem controle de acesso é convite. É abrir caminho pra faca, pra revólver, pra qualquer mente doente que resolve transformar sala de aula em necrotério.
Vai ter quem reclame dizendo que parece prisão. Mas prisão é a vida de quem fica depois: mãe sem filho, professora traumatizada, comunidade que nunca mais é a mesma. Prisão é enterrar uma criança e continuar indo trabalhar no mesmo prédio na semana seguinte.
Não existe blindagem absoluta. Mas existe mínimo. Existe portão trancado. Existe portaria com protocolo. Existe pergunta antes de abrir. Existe coragem de dizer não entra, mesmo pro vizinho, pro primo, pro ex-aluno. Dói ser desconfiado, mas dói mais sepultar uma criança de nove anos que podia estar viva.
Ou fecha agora, ou enterra de novo depois. É só isso.
Por Giuliano De Luca. Ele é jornalista. Editor-chefe do Jornal O Presente Rural e do O Presente Pet