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Quem será o próximo alvo?

calendar_month 3 de outubro de 2018
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“O uniforme da escola era branco e um dia as meninas pegaram a matriz do estêncil a álcool e passaram em mim, em toda a blusa. Eu fui para casa chorando, com a camiseta suja. No outro dia, minha mãe foi junto comigo até a escola e pediu para que as meninas que tivessem sujado, lavassem. Elas lavaram, mas nos dias seguintes, quando usei a blusa outra vez, elas ficaram rindo e fazendo piadas, dizendo que agora, finalmente, a blusa estava cheirosa”.

O fato relatado acima aconteceu em 1965, em uma turma da 3ª série do Ensino Fundamental de uma escola do interior de Marechal Cândido Rondon.

Na época, o termo bullying estava longe de ser conhecido pelos rondonenses. Porém, já era praticado por diversas crianças e adolescentes em instituições de ensino, prática que só ganhou força ao passar dos anos.

Entre as meninas, provocações com apelidos ofensivos e humilhantes, piadas sobre o estilo do cabelo, maquiagem ou forma de se vestir. Entre os meninos, palavrões, xingamentos, esbarrões, empurrões e surras. “No bullying temos a vítima, o agressor e uma terceira vertente que nem sempre é comentada, que é a vítima-agressor – aquele que em alguns momentos é a vítima e em alguns momentos é o agressor”, menciona a psicóloga Fátima Sueli Bartoni Tonezer.

Ela diz que normalmente quando uma situação de bullying é observada no âmbito escolar pelos pais ou pela instituição de ensino, a intervenção é realizada de forma pontual, contudo, ela avalia que há necessidade de ser realizado um trabalho mais amplo em relação ao tema. “Isso porque a vítima do bullying vai ter consequências para o resto da vida”, alerta.

 

Armas nas escolas

Com o passar dos anos, a simples “implicação” de um colega de escola com o outro no dia a dia passou a estar nas principais manchetes do setor policial.

O Massacre do Realengo, ocorrido em abril de 2011 no Rio de Janeiro, provocou a morte de 12 adolescentes em uma escola. O atirador, de 23 anos, era ex-aluno da instituição e apesar do crime ter motivação incerta, em sua carta de suicídio e testemunhas de familiares, a ação teria acontecido por conta do bullying sofrido pelo atirador.

No ano passado, outra manchete chegou às páginas policiais: um estudante de 14 anos atirou dentro de uma escola particular de ensino infantil e fundamental, em Goiânia. Dois estudantes morreram e, de acordo com as informações apuradas na época, o estudante estaria sofrendo bullying.

Na semana passada, em Medianeira, aqui mesmo no Paraná, mais um suposto caso de bullying levou armas para dentro de uma escola. Filho de agricultores, um jovem de 15 anos que estaria passando pela situação com seus colegas, planejou a morte de pelo menos nove estudantes e disparou dentro da instituição. Os tiros, felizmente, não levaram ninguém a óbito, mas feriram dois estudantes. “A maneira como as crianças e adolescentes estão sendo educadas hoje acaba desfavorecendo que ela desenvolva a capacidade de lidar com a frustração. O primeiro não que o mundo dá para ela, como uma negativa em um pedido de namoro, por exemplo, já faz com que o jovem pense em se matar ou matar alguém”, avalia a psicóloga.

Além da dificuldade de os jovens lidarem com as frustrações diárias, ela pontua que os estímulos do ambiente em que vivem também levam a resultados violentos frente a casos de bullying. Crianças e adolescentes que acompanham jogos de violência, por exemplo, têm nessas ferramentas um estímulo muito grande para que, quando não satisfeitos com a situação, resolvam de forma violenta e definitiva, sem ponderar as consequências. “Não podemos considerar que a pessoa vai desenvolver a agressividade externa e sair matando ou se suicidar apenas por conta de jogos, ou pelo que vê na televisão, em filmes ou séries ou pelo ambiente em que ela está inserida, mas isso tem um peso nas atitudes que ela toma”, enaltece.

 

Consequências

Além de sintomas físicos, como dores de cabeça, de estômago, e febre, crianças que são vítimas de bullying começam a desenvolver aversão ao ambiente escolar. “Choram para ir à escola, as notas decaem, se antes ela gostava de estudar, agora ela não quer mais. E normalmente ela não fala sobre isso por medo de não ter ajuda”, comenta Fátima.

Mais do que o quadro psicossomático, a profissional salienta que os danos psicológicos aos jovens vítimas do bullying são irreparáveis quando não têm o acompanhamento adequado. “É uma situação que vai prejudicar o desenvolvimento cognitivo e psicológico. Casos de irritabilidade, ansiedade, tensão, medo, raiva, déficit de atenção e, dependendo da situação, se a criança já tem uma pré-disposição, o fato do bullying pode levar ao desenvolvimento de transtornos mentais, como esquizofrenia e transtorno obsessivo compulsivo (TOC), por exemplo”, explica.

Crescer ouvindo que é gordo e feio ou que é uma vareta faz com que a pessoa se retraia e busque não se expor a locais nos quais vá chamar a atenção e sentir-se observada – questões que impactam muito na vida adulta. “Essas provocações atingem diretamente a autoestima e levam aos transtornos secundários, de pânico, medo de falar em público, de ansiedade generalizada. Para procurar emprego ou se manter no emprego, desenvolver relacionamentos, sejam afetivos ou não, as consequências são de longo prazo”, enfatiza a psicóloga.

 

Como identificar e ajudar

Na visão da profissional, a postura da sociedade em relação ao bullying precisa mudar. Muitas escolas, em sua opinião, ainda não agem de forma completa, falando abertamente sobre os casos. “Elas acabam tratando de forma muito abafada, quando deveria ser um movimento de abertura, enfrentando isso de frente, fazendo palestras, rodas de conversas e encaminhando a vítima e sua família para acompanhamento psicológico, para que saibam como ajudar e amparar, e também o agressor e sua família, para que avaliem a necessidade de mudar algum comportamento dentro da realidade em que a criança vive”, evidencia. “Quando ocorrem casos extremos é que o bullying é debatido com ênfase, mas nesses momentos o debate deixa de ser preventivo e torna-se apenas curativo. Um curativo superficial com uma cicatriz muito profunda”, complementa.

A necessidade de os pais observarem as mudanças de comportamento dos filhos, ainda que com as “barreiras digitais” de as crianças e adolescentes estarem sendo criadas em frente ao celular e computador, é essencial para identificar os casos de bullying. “O que eles estão assistindo, o que estão jogando, tudo isso deve servir de alerta. Conversar com a escola e da mesma forma a escola deve ter cada vez mais pessoas preparadas para lidar com isso”, destaca.

Ela diz que além de identificar vítima, agressor e se a vítima também é agressora é preciso identificar quem são os expectadores e apoiadores dessas ações, já que normalmente o agressor tem uma “equipe de suporte” que reforça a atitude do bullying. “O apoio psicológico é muito importante para resgatar autoestima e autoaceitação porque isso foi massacrado e deixou de existir para a vítima”, exalta.

 

Ajustados

O bullying ocorre normalmente com as pessoas que aparentam ser as mais frágeis em determinadas situações. “E nessas situações, o sentimento de impotência, de rejeição e insegurança é muito forte na vítima. Para tirar esse sentimento de uma pessoa, é um trabalho muito árduo”, expõe Fátima.

Apesar de algumas pessoas irem para o campo da raiva, como nos casos de jovens e até mesmo adultos que atentam contra seus agressores, há quem se retraia. A atitude, no entanto, também traz prejuízos ao futuro da vítima. “É como se essa pessoa estivesse vestindo uma roupa de tamanho menor: ela se ajusta àquilo, fica desconfortável, mas fica ali”, compara. Para o futuro dessas pessoas, a psicóloga comenta que normalmente as dificuldades aparecem nos problemas de desenvolvimento comportamental e cognitivo. “Por mais que ela tenha o conhecimento e a capacidade, ela trava e não consegue se desenvolver, se sobressair. Ela não consegue ter um bom desempenho no campo profissional ou manter um emprego, as vezes está sempre em isolamento, com medo de sofrer novamente como sofreu no passado, pode existir a dificuldade em manter relacionamentos e, às vezes, essa pessoa consegue casar e ter filhos, mas essa família será muito conturbada”, declara.

Em alguns casos, a pessoa que sofreu o bullying pode desenvolver algum transtorno mental, sendo os casos de depressão e ansiedade os que ocupam o topo da lista. “Não são todas as pessoas que têm depressão que sofreram bullying, mas todas aquelas que sofreram bullying têm grande probabilidade de desenvolver algum desses transtornos”, alerta a profissional.

Da mesma forma que a vítima tem impactos futuros, o agressor também pode ter consequências. De um lado, ele pode piorar sua agressividade, tornando-se até mesmo uma pessoa perigosa. “Porém ele também pode voltar um pouco e acabar sendo alguém difícil de se relacionar. Tanto para o agressor quanto para a vítima, o bullying tem impactos na vida social como um todo”, reflete Fátima.

Psicóloga Fátima Tonezer: “Quando ocorrem casos extremos é que o bullying é debatido com ênfase, mas nesses momentos o debate deixa de ser preventivo e torna-se apenas curativo. Um curativo superficial com uma cicatriz muito profunda” (Foto: Leme Comunicação)

 

 

Ações locais

Ao longo dos anos, a temática do bullying tem recebido atenção especial da Secretaria Estadual de Educação (SEED) e dos Núcleos Regionais de Educação. O Núcleo Regional de Educação (NRE) de Toledo tem proposto e acompanhado junto às escolas estaduais sob sua jurisdição ações como inclusão do tema nos Projetos Políticos Pedagógicos, Regimentos Escolares e Planos de Ação dos educandários. “Aos colégios e escolas disponibiliza-se um conjunto de materiais no site ‘Dia a dia educação’ da SEED, entre textos, cartilhas, vídeos, imagens entre outros, que servem de subsídios para fundamentar o trabalho dos pedagogos junto à comunidade escolar, bem como dos professores para debate entre os alunos”, relata a coordenadora da Educação Básica do NRE de Toledo, Rejane München.

Além da temática específica do bullying, ela cita que a SEED, por meio do NRE de Toledo, promove o enfrentamento da violência em uma dimensão mais ampla, por meio de ações que envolvem os direitos humanos, como a distribuição de cartilhas e cartazes para promoção de campanhas nas escolas, palestras interativas em parceria com a Patrulha Escolar nas escolas, capacitação de professores nas semanas pedagógicas e encontros com os Grêmios Estudantis abordando o tema de enfrentamento a violência. “O NRE também dispõe de uma ouvidoria para que a comunidade escolar possa relatar os casos de bullying e outras ocorrências. A partir do recebimento da denúncia, os casos são tratados individualmente e ações pontuais são planejadas juntamente com a direção da instituição envolvida”, explica.

Rejane diz que outra ação em desenvolvimento é o projeto Aprendendo a Conviver, uma proposição da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI), do Ministério da Educação (MEC), em parceria com SEED, por meio da Coordenação da Educação em Direitos Humanos. “O projeto está entre quatro propostas nacionais que foram selecionadas pelo MEC para a formação de profissionais da educação básica no campo dos direitos humanos e da diversidade, considerando o desafio da promoção de ambientes seguros para aprender e ensinar. Ele tem como objetivo orientar os educadores para que reconheçam situações de violência, preconceito e discriminação no ambiente escolar e adotem estratégias eficazes para atender e reduzir esses casos, com ênfase à prevenção do bullying, desenvolvendo conhecimentos teórico e prático para formulação de estratégias contra as variadas formas de violências amparadas nas diretrizes da Educação em Direitos Humanos”, comenta.

Nessa perspectiva, Rejane comenta que será desenvolvido como piloto em algumas escolas do NRE de Toledo um acompanhamento dos técnicos do Núcleo, fornecendo questionários elaborados pela UFPR que serão aplicados na escola. “Após a aplicação, os questionários serão devolvidos à UFPR para tabulação e produção de um infográfico que retornará à escola para análise dos dados com acompanhamento do NRE, por meio do qual serão propostas dinâmicas e elaboração de plano de ação”, completa.

 

Com O Presente

 

 
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