Por Giuliano De Luca
Scooby-Doo sempre nos mostrou que, no final, os monstros eram sempre pessoas. A frase, repetida à exaustão na cultura pop, dessas que até viram estampa de camiseta, resume melhor do que qualquer análise sofisticada o que estamos vendo acontecer.
Não é ficção. É sequência.
Orelha, em Santa Catarina, espancado por adolescentes até a morte.
Abacate, em Toledo, abatido a tiro.
Mancha, em Marechal Cândido Rondon, requintes de monstruosidade e novamente um disparo fatal.
Não há enredo. Há repetição.
Três casos, três cidades, o mesmo denominador comum: alguém decidiu que a vida de um animal não valia nada. Não foi impulso. Não foi acidente. Foi escolha. Em todos eles, houve tempo para parar – e ninguém parou.
O mais perturbador não é só a violência, é o que ela revela. Aqui não há dúvida relevante, nem versões conflitantes que confundam a leitura dos fatos. Há agressão direta, há morte, há sequência. E, ainda assim, os casos continuam se acumulando como se fossem episódios desconectados, quando não são.
No caso mais recente, há vídeo da agressão inicial. Golpes raivosos. Não é descontrole. É método. A violência não surge de repente, ela se constrói. E quando chega ao fim, já disse tudo o que precisava dizer sobre quem a praticou.
A sucessão de episódios, em intervalo curto, desmonta qualquer tentativa de tratar isso como coincidência. Não é coincidência quando se repete com essa frequência. Não é exceção quando segue o mesmo padrão. É sintoma. E sintoma de algo mais profundo do que um desvio individual.
Cães não são coisas. São seres que reconhecem, que respondem, que confiam, que amam. A violência contra eles não revela nada sobre o animal, revela tudo sobre quem agride. Quem levanta a mão, a madeira ou a arma contra um bicho indefeso não está tendo um “dia ruim”. Está mostrando exatamente quem é quando não há freio.
As instituições vão investigar, produzir laudos, tentar fechar autoria. É o mínimo. Mas há um limite claro nisso. Nenhum inquérito corrige a naturalidade com que esses episódios começam a se repetir. Nenhuma perícia resolve o fato de que alguém, em algum momento, achou aceitável fazer isso.
Scooby-Doo já tinha dado a resposta faz tempo. O problema é que, aqui fora, ninguém mais parece disposto a encarar o que ela significa.
Giuliano De Luca é jornalista, editor-chefe do O Presente Rural e do O Presente Pet