Os eventos climáticos extremos recentes no Paraná, com formação de tornados que atingiram 330 km/h em cidades como Rio Bonito do Iguaçu, deixando um rastro de mortes e destruição, reforçam que o Sul do Brasil está no segundo maior corredor de tornados do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
A afirmação é de Leila Limberger, climatologista, membro da Associação Brasileira de Climatologia, professora doutora na Unioeste e referência nacional em variabilidade climática. “Devemos nos preparar porque essas condições devem ficar cada vez mais frequentes se nada for feito, em mudanças climáticas eficazes”, alerta.
Em entrevista ao Preto no Branco, Leila diz que os registros de tornados são frequentes, especialmente no Oeste e Sudoeste do Paraná e no Oeste catarinense. “Alguns chamam atenção pela destruição, como o de Nova Laranjeiras, em 1997, ou o que atingiu Rio Bonito do Iguaçu na semana passada. Mas muitos passam despercebidos por ocorrerem em áreas rurais”, pontua. “A falta de um sistema oficial de catalogação também contribui para a subnotificação”, amplia.
Geografia e clima favorecem a formação de tornados
De acordo com a climatologista, diversos fatores meteorológicos e geográficos tornam a região especialmente propensa aos eventos extremos. “As calhas dos rios Paraná e Iguaçu funcionam como corredores naturais que facilitam o avanço de frentes frias vindas do Sul. Quando esse ar frio encontra o ar quente e úmido proveniente da Amazônia, formam-se condições ideais para tempestades severas”, expõe.
O Sudoeste do Paraná, exemplifica ela, é uma das áreas de maior índice pluviométrico do Estado, perdendo apenas para o litoral, elevando ainda mais o risco de formação tornádica. “A primavera e o mês de maio são períodos com maior probabilidade, por reunirem contrastes intensos entre massas de ar”, menciona.
Fenômenos imprevisíveis
Apesar do avanço da tecnologia meteorológica, os tornados continuam sendo fenômenos de difícil previsão, comenta a especialista. “Mesmo quando há todas as condições favoráveis, eles podem ou não se formar. São eventos localizados e muitas vezes não aparecem nos radares”, explica Leila.
A força de um tornado é medida pela escala Fujita, que vai de F0 a F5. O tornado que atingiu Rio Bonito do Iguaçu foi classificado como F3, categoria que indica destruição severa: casas inteiras, caminhões e estruturas de grande porte podem ser arrancados ou devastados.
Cidades como áreas de atração
Embora seja comum associar tornados a áreas rurais, episódios urbanos também ocorrem. De acordo com a meteorologista, as cidades tendem a apresentar temperaturas mais altas devido ao concreto, criando zonas de baixa pressão. “Essas áreas funcionam como verdadeiros ‘ralos’ para correntes de ar descendentes, o que pode atrair o funil”, explica. No entanto, ela ressalta que o fenômeno é aleatório: vales, colinas e áreas florestais também podem ser atingidos.
Mudanças climáticas ampliam risco
O aquecimento global tem intensificado a frequência e a violência dos fenômenos extremos, frisa Leila. “Nossa atmosfera está cerca de 1,5°C mais quente. É como aumentar o fogo de uma panela de pressão: tudo fica mais intenso”, compara. Segundo ela, o ciclo de extremos tende a continuar, com alternância entre chuvas torrenciais e longos períodos de seca.
Prevenção e orientação
Embora seja impossível evitar tornados, é possível minimizar riscos. Leila destaca o reflorestamento como uma das principais estratégias de mitigação climática, por reduzir CO₂, regular a umidade e equilibrar a temperatura. Em situações de alerta, a orientação é procurar cômodos internos e pequenos, como banheiros de alvenaria, e evitar estruturas amplas como ginásios e galpões.
Para a especialista, informação e preparação são essenciais. “Vivemos em uma região propensa a tornados. Isso não é motivo para pânico, mas para respeito à natureza. Eles sempre existiram e continuarão existindo. A diferença é que agora estão mais fortes — e precisamos estar mais preparados”.
O Presente com Preto no Branco
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