Quando Arnaldo Jabor dirigiu “Toda nudez será castigada”, nem ele, nem o autor do texto original, Nelson Rodrigues, imaginavam quantas interpretações seriam possíveis no passado e no futuro.
Vietnã, 08 de junho de 1972: uma menina, seus primos e irmãos correm por uma estrada que corta um vilarejo na zona rural. A ideia era abrigar-se dos bombardeios em uma igreja.
Não houve tempo de proteger as crianças. Aviões lançaram bombas de napalm, o temido ataque químico capaz de corroer roupas, pele e chegar aos ossos das vítimas. As crianças foram atingidas.
Havia um repórter fotográfico na cena do crime. Nick Ut, da agência Associated Press, capturou a imagem mais icônica da Guerra do Vietnã. É a foto que ilustra esse texto.
A foto em preto e branco da vietnamita Kim Phuc Phan Thi, de tenros nove anos de idade, publicada nos maiores jornais do planeta, mudaria o rumo da guerra do Vietnã.
A opinião pública norte-americana, país que bancava o Vietnã do Sul contra os vietcongues do Norte, armados pela União Soviética (hoje Federação Russa), chorou junto com a menina Kim.
Era o começo do fim da Guerra do Vietnã. Em 27 de janeiro de 1973, meio ano após a foto “viralizar”, os americanos se retiraram do conflito.
A nudez involuntária imposta à criança foi o castigo dos senhores da guerra.

Leste europeu, fevereiro de 2022
Meio século depois da carnificina do Vietnã, que cobrou mais de um milhão de vidas, a Rússia invade a Ucrânia em guerra assimétrica, quando a desproporção de forças torna o embate uma covardia histórica.
Qualquer cidadão “armado” com um celular conectado representa uma ameaça ao tirano invasor maior que um batalhão de infantaria ucraniano municiado até os dentes.
É a primeira guerra entre dois países relevantes transmitida em tempo real por milhões de cidadãos conectados.
“Bem-vindo à World War Wired (Guerra Mundial Conectada) – a primeira guerra em um mundo totalmente interconectado. Como eu disse, você nunca esteve aqui antes”, pontuou em magnífico texto o articulista Thomas Friedman, do The New York Times.
“Mãe, estou com medo”
Na guerra analógica de outros tempos, não era possível ver ou ouvir soldados-meninos gravemente feridos invocando o nome da mãe minutos antes da morte.
Na guerra conectada, sim. O embaixador da Ucrânia nas Nações Unidas, Sergiy Kyslytsya, mostrou, na segunda-feira (28), mensagens no celular avariado de um soldado russo.
“Mãe, estou na Ucrânia. A guerra é real aqui, tenho medo”, escreveu o menino. O aparelho celular está com os ucranianos porque o jovem soldado morreu logo após o breve diálogo com os pais.
São crueldades deste nível que farão ressurgir imagens capazes de mudar o rumo de uma guerra, como da menina despida pelo napalm no Vietnã.
São cenas assim que irão varrer para o lixo radioativo da história nomes como Vladimir Putin e seus cúmplices na Rússia e fora dela.
O ditador russo está moralmente nu nas vastas pradarias ucranianas. E se Nelson Rodrigues estava certo, toda nudez será castigada.
Jairo Eduardo é editor do Pitoco
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