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Uma vida de dedicação

Anônimas para a maioria, mas protagonistas na vida de outros, mulheres guerreiras, batalhadoras que se dedicam e dão a vida por alguma causa


calendar_month 6 de março de 2018
12 min de leitura

No dicionário, a palavra dedicação vem com o significado de atitude de quem cuida de alguém ou de algo com cuidado e atenção. Apesar de os inúmeros sinônimos como devoção, entrega, esforço, afeição e entre tantos outros, nenhum chega tão próximo a uma simples palavra – que nunca é citada – justamente por ser um sinônimo do mundo inteligível: mulher.

Guerreiras e batalhadoras, que se dedicam e dão vida para alguma causa, muitas são conhecidas por seu envolvimento em causas políticas, econômicas ou sociais e inspiram outras a tornar a sociedade mais igualitária entre os gêneros.

Outras tantas, porém, fazem a diferença dentro de suas próprias casas. Anônimas para a maioria, mas que merecem atenção e reconhecimento por serem exemplo de vida, fé, trabalho e, principalmente, dedicação, já que o efeito de suas ações, ainda que em menores proporções, pode ser ainda mais gigantesco para quem recebe.

 

Apego

Antonina, de 55 anos, é o “xodó” da irmã Terezinha Rossato, de 64. As duas vivem juntas desde 2005, quando a irmã mais velha voltou de São Paulo para Marechal Cândido Rondon para tomar conta da caçula, que tem Síndrome de Down, e da mãe, Dona Cornélia, falecida aos 97 anos em 2013.

A proximidade das duas, no entanto, começou muitos anos antes, na vila de Novo Horizonte, hoje distrito do município, onde a família vivia. Únicas mulheres em meio aos cinco irmãos homens da família Rossato, Terezinha fez de Toninha, como é conhecida pelos mais íntimos, muito mais do que uma simples irmã. Fez dela algo que nenhuma palavra é capaz de explicar.

A ida de Terezinha para São Paulo nos idos de 1980 foi motivada por um câncer de pele que acometeu a rondonense, que buscou tratamento na capital paulista. Para custear a estadia no Estado durante o tratamento da doença sem pedir apoio financeiro ao pai, agricultor em Novo Horizonte, Terezinha trabalhava como empregada doméstica. Após vencer a doença, com muitos pensamentos positivos, Tere terminou o segundo grau e, em meio às dúvidas de qual profissão seguir, encontrou-se no curso de técnico em Enfermagem. “Não queria fazer faculdade porque não gostava de lidar com papelada. Sabia que meu negócio era lidar com pessoas. Então fiz o curso, me apeguei aos colegas bons, que me agregaram muitos conhecimentos, e desviei dos ruins”, relembra.

Foi com uma dessas boas amizades que ela realizou um curso que ensinava os cuidados com pessoas idosas. E ela garante que essa foi uma das experiências que mais a preparou para o resto de sua vida. “Estava bem estabilizada, ganhando bem trabalhando em dois hospitais, um deles era concursada, mas eu queria voltar para ficar com as duas (mãe e irmã). Não estava feliz ao ver pelo que elas estavam passando aqui, em meio ao que elas tinham que viver. Sentia falta especialmente da Toninha”, diz.

Após custear as despesas de saúde, alimentação e até uma cuidadora para as duas, ela decidiu voltar em definitivo para Marechal Rondon, no final de 2005, mas descreve que já estava “no fundo do posso”. “Depressiva, já havia tido quadro de pneumonia e tuberculose. Não comia mais nada”, lembra.

 

Zelo

<em>Antonina e Terezinha, muito mais do que cumplicidade de irmãs: devoção e cuidado (Foto: Mirely Weirich/OP)</em>

Estabelecendo-se com a irmã e a mãe, Tere explica que calou-se frente aos irmãos, preferindo apenas cuidar de Antonina e dona Cornélia.

A rondonense traz das lembranças que não ocorreram problemas para cuidar da irmã e da mãe, entretanto, a matriarca nunca ficou 100% satisfeita em viver na cidade, especialmente por ter se criado no sítio. Ela, no entanto, fez o possível para trazer a natureza para perto da mãe. Derrubou o muro, colocou plantas variadas no entorno da casa e construiu até mesmo uma fonte no jardim. “Ela queria um espaço melhor e maior, mas o que sobrou da terra que a família arrendou foi isso”, expõe.

Ela se recorda de diversas situações em que passou com Cornélia e Antonina com saudosismo, porém, duvida de si mesma ao lembrar-se de como conseguia dar conta das duas. Terezinha relembra que, por experiência própria, para cuidar de uma pessoa em idade avançada ou alguém como Antonina, só é possível quando você coloca-se no lugar do outro. “Quando a Toninha fez transplante de córnea, por exemplo, saímos de Cascavel à noite e às 07 horas da manhã teríamos que estar lá novamente. Voltamos para casa e foi todo aquele processo de trocar a fralda da mãe, dar banho nas duas, dar de comer, colocar para dormir, lavar as roupas passado da meia-noite e, no outro dia, levantar mais cedo do que elas para estender a roupa e aprontá-las novamente. Tudo isso, entre diversas outras situações que passamos, vai testando sua paciência. Mas fazer tudo sozinha, sem ninguém para colocar ideias na sua cabeça, era mais fácil e tudo dava certo”, celebra, emendando: “Hoje olho para trás e me pergunto como conseguia”.

 

Cuidado

Com nove anos de diferença para Antonina, Terezinha lembra que quando as duas eram mais novas, ainda em Novo Horizonte, onde uma ia, a outra era levada junto. “Eu não tinha vergonha dela, assim como não tenho hoje. Na época pessoas falavam ‘a sua irmã é boba né?’. E hoje quando estamos em algum lugar público alguns ficam olhando, mas eu não ligo”, afirma. “Depois que ela nasceu eu cuidei dela e minha mãe me ensinou a fazer ela dormir, fazendo carinho na cabeça, e eu faço isso até hoje, mas para mim parece que ainda é aquela época”, completa.

Terezinha conta que, dois meses após a morte da mãe, Antonina teve um grave quadro de pneumonia, quando passou dez dias internada. “Ela estava medicada, acompanhada por dois cardiologistas e um pneumologista, mas o médico disse que a partir daquele momento era só com ela. Eu pensei comigo ‘se ela morrer, eu também quero morrer’ e, depois que ela se recuperou e voltou para casa, eu passei sete dias em claro, sem dormir e sem comer. Fiquei doente, à beira da morte, tamanha é a força do nosso pensamento”, afirma.

 

Rotina

Após a morte de dona Cornélia, Terezinha passou a se dedicar em tempo integral a Antonina. Pela manhã, ela frequenta a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e Tere aproveita esse tempo para fazer as tarefas domésticas: lava roupas, cuida dos cachorros, gatos e garnizés, prepara o almoço e limpa cada canto da casa todos os dias. “É uma recomendação, que sigo obrigatoriamente, do oftalmologista porque quero manter os cachorros para entreter a Toninha. Um carinho que ela faz nos cachorros ao invés de ficar só parada, já vale todo o trabalho que eu tenho para limpar a casa”, conta, explicando que a “terapia das quatro patas” foi algo que aprendeu quanto trabalhava ainda em São Paulo, já que a movimentação para quem tem a Síndrome de Down é uma forma de dessestressar, segundo Tere.

Mesmo tendo toda a manhã para si, Terezinha diz que não se sente bem para praticar alguma atividade física ou ter um tempo para si mesma, por isso prefere ficar em casa, cuidando do lar e à espera da irmã. “E à tarde eu sou dela. Depois de almoçar, ela toma banho e descansa até as 15 horas. Quando temos algo para fazer no centro vamos, ou ficamos por aqui, fazendo o que ela quiser: deixo ela brincar com as bonecas, olhar revistas, no tablet, mas nada passa de 20 minutos. É o máximo de tempo que ela fica com alguma atividade porque logo se farta”, explica. Durante a semana, Antonina também vai para a hidroginástica, equitação e tem aulas com personal trainer e, no tempo livre, sai com Terezinha para as praças da cidade para fazer piqueniques e passeios. Às quartas-feiras, as irmãs também vão à missa. “Quando ela quer um tempo só para ela, no balanço, respeito este momento. Ela conversa sozinha, relembrando de coisas do passado, ri sozinha, se diverte e eu cumpro meus afazeres. É essa nossa rotina. Se ela ir, eu também vou”, diz.

 

Amor, comida e água

<em>Ivone Guckert Rex, que hoje abriga 16 animais: “Não consigo ser indiferente ao sofrimento deles. Meu amor fala mais alto” (Foto: Mirely Weirich/OP)</em>

 

Do outro lado da cidade, o mesmo sentimento que ultrapassa o campo das palavras do relacionamento entre as irmãs está presente na casa de Ivone Guckert Rex, de 42 anos.

E o motivo de dedicação desta mulher está justamente no sobrenome: o amor aos animais. Junto do marido, a rondonense divide a casa com mais 12 cachorros e quatro gatos, todos resgatados das ruas. A primeira cachorrinha resgatada por Ivone, Bilila, de 12 anos, é o “chamego” da família. Ela conta que a dedicação aos animais é algo relacionado especialmente a fé que tem em Deus. “Ele olha lá de cima e quer me ver como uma filha que faz alguma coisa em prol de um serzinho que ele criou”, opina.

Com muito amor no coração, Ivone já chegou a abrigar 18 animais em sua casa, zelo que, acredita ela, é herança do avô materno, que saía do interior de Mercedes para auxiliar sitiantes da região em partos de vacas sem cobrar por nada. “Ele faleceu quando eu tinha nove anos, não tenho muitas lembranças, mas minha mãe me diz que qualquer pessoa que pedisse pela ajuda dele por algum animal, ele atendia, não importava quão longe fosse. Ele ficava um, dois dias fora de casa para ajudar e muitas vezes voltava sem nada nas mãos, ia só pelo amor de ajudar”, conta, emocionada.

odos os animais resgatados por ela têm uma história de vida que os fazem vencedores, entretanto, também fazem com que os animais não sejam vistos como candidatos elegíveis à adoção por qualquer pessoa. “Todos aparecem com algum problema. O Amigão tem queimaduras no corpo, a maior parte do tempo anda só em três pernas. Uma das gatas tinha uma inflamação grave no útero. A mais velha é alérgica a diversos alimentos e produtos e também teve câncer há pouco tempo. A Mel estava jogada no meio do mato e demorei quase meia hora para conseguir me aproximar dela. O Valente, que foi atropelado e morreu há um mês, resgatei quando estava só couro e osso”, cita. “Todos os cães abrigados aqui são aqueles que ninguém olha mais, mas todos têm uma história de superação para contar”, reforça.

Cada diária que completa, Ivone tira R$ 140 e diz que hoje trabalha em prol dos animais. Todavia, explica que se passar por um cão ou gato na rua, irá resgatar, pois não consegue fi car indiferente frente ao sofrimento dos bichinhos. “Meu amor fala mais alto”, salienta.

 

Adoração

No início, a rondonense explica que o marido não entendia o motivo da dedicação aos cães e gatos, tanto é que ele chegou a buscar conselhos com a mãe de Ivone, pois não aguentava mais a esposa acolhendo cachorros e gatos para dentro de casa, especialmente doentes, o que causava gastos significativos em veterinária, além da alimentação. “Faz quase um ano que eu tive um sonho com o Valente, que já havia morrido, onde eu via ele pelo retrovisor do carro que eu dirigia. No dia seguinte, levei meu marido para Margarida e, na volta, tive a mesma visão do sonho, mas com um cachorro branco, que quando parei o carro, veio ao meu encontro. Ele estava cheio de carrapichos e com carrapatos e eu o acolhi”, conta.

Lupi foi o presente de Ivone para o marido e ela considera que o sonho, assim como o fato de ela ter encontrado o cachorro, foi um sinal de que o companheiro mudaria o pensamento em relação a suas ações com os animais. “E ele realmente mudou. Hoje o Lupinho é o grude dele, mas ele aceitou todos e ama os outros também. Virou meu parceiro”, enaltece. “Há poucos dias, quando viajou a Curitiba, ele me ligou às 06 horas, emocionado, dizendo que estava vendo dois cachorros abandonados, que aquilo o comoveu muito e que ele passaria a me ajudar ainda mais. Vejo que isso é algo que Deus mostrou o caminho, orei muito para que acontecesse e acredito que para tudo Ele tem uma resposta”, completa.

 

Cura

Em meio a críticas de pessoas que já a chamaram de “louca” por estar gastando seu tempo e seu dinheiro em prol de salvar cães e gatos abandonados, Ivone conta que começar a ajudar os animais foi um processo de cura para ela mesma. “Por cinco anos vivi em depressão profunda, em situações que não conseguia nem sair de casa por conta da medicação. Foi depois que comecei a encontrar e cuidar dos animais que saí dessa doença e deixei de tomar os medicamentos. Hoje eles são o meu remédio”, explica.

Apesar de ser casada há mais de 20 anos e não ter filhos, ela relata que não vê a situação como um problema, pois considera que tudo tem um propósito. “Não sou revoltada com essa questão nem nada do tipo, acredito que Deus escreve certo por linhas tortas. Mas sonho, no futuro, em ter dinheiro para ajudar também idosos e crianças”, cita.

Com cinco cachorros que vivem em volta da casa de Ivone por não serem acostumados a viver em espaços fechados e os demais no pátio interno, ela conta que gasta, em média, 30 quilos de ração por mês, além de uma ração específica de carne de ovelha para Bilila. “Eu não tenho dinheiro para gastar com eles, como alguns dizem. Eu posso dar amor, água e comida, além do básico, que muitas vezes nem consigo”, argumenta.

Ela comenta que tem muito a agradecer as veterinárias que sempre a auxiliam em casos de emergência, quando resgata animais machucados ou quando algum adoece, além da ajuda que recebe da ONG Arca de Noé para custear as castrações que, segundo ela, são essenciais para evitar a superpopulação dos animais. “É extremamente importante que as pessoas tomem consciência da castração dos cachorros e gatos”, frisa.

Ela explica, também, que a dívida nos estabelecimentos veterinários é longa, porém, necessária para manter os cães e gatos. “Tem dias que acordo e digo ‘Senhor, me dê uma luz’, porque também sou humana e há momentos de desespero porque eu, com um ovo e um pedaço de mandioca sobrevivo, mas eles precisam de comida”, revela. “Mas, acima de tudo, a palavra-chave da minha vida é agradecimento. Agradeço todos os dias às bênçãos que tenho recebido até hoje e não deixo de seguir em frente”, conclui.

 

 
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